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“Por favor, não matem o meu filho” é título de uma canção. E o autor um guarda prisional

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Captura de ecrã

No Malawi, um dos países mais pobres do mundo, há uma cadeia sobrelotada e uma banda que foi nomeada para os Grammys. Os presos tocam e cantam. Umas das letras de maior sucesso, “Por favor, não matem o meu filho”, foi escrita pelo guarda de uma cadeia

Quem viveu ou teve família em Moçambique talvez se lembre que, noutros tempos, o Malawi foi Niassalândia e Rodésia. O nome daquele país de terra vermelha e verdejante, próximo do lago Niassa, andou na página das nomeações para os Grammy deste ano, por causa de um disco que, temporariamente, emprestou uma nova vida à sobrelotada cadeia de Zomba.

A letra de “Por favor não matem o meu filho”, a mais conhecida e carismática canção do disco “Zomba Prision Project” (projeto da cadeia de Zomba), fala de inveja, um mal que segundo o seu autor, Thomas Binamo, é responsável por muitos crimes e tensões sociais no Malawi.

Binamo trabalhou duas décadas na cadeia de Zomba como guarda prisional; a sua canção descreve “a inveja, como uma força corrosiva e às vezes mortal na sociedade”, escreve o jornal americano “The New York Times”. Por isso, “é a faixa mais assustadora do álbum”, mas também a mais interventiva , porque “é um apelo contra um crime peculiar no Malawi: a matança de crianças” por parte de adultos com inveja “dos pais ou familiares” delas.

“Algumas pessoas ficam com inveja, e podem matar o filho de alguém sem nenhuma razão”, disse Binamo ao “NYT”: “É um problema nas nossas comunidades. As pessoas ficam com ciúmes, porque alguém tem mais educação, ganha mais ou tem um emprego melhor” .

Os detidos na cadeia de Zomba foram os primeiros cidadãos do Malawi a serem nomeados para um Grammy. A ideia deste disco começa em 2013, quando o produtor americano Ian Brennan e a realizadora e fotógrafa italiana Marilena Delli começaram a gravar um documentário sobre a música feita pelas mulheres e homens detidos no estabelecimento prisional de Zomba – cidade próxima da fronteira com Moçambique e que foi a primeira capital do país.

A gravação durou 10 dias e contou com a participação de presos que cumprem penas por crimes que vão do homicídio ao roubo; também há pessoas acusadas de bruxaria e outras de homossexualidade, um comportamento passível de ser punido com cadeia no Malawi.

Esta prisão foi construída na época da colonização britânica, com uma capacidade prevista de 340 pessoas; neste momento, é um edifício muito degradado, onde estão mais de dois mil detidos.