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Museveni sucede a Museveni

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Um adepto da Aliança Democrática num comício em Kampala

© James Akena / Reuters

O atual Presidente do Uganda, Yoweri Museveni, candidata-se a mais cinco anos no cargo. Se ganhar as eleições de 18 de fevereiro, o que é muito provável, utrapassará 30 anos no poder. A paz não vale tudo para quem quer liberdade

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

“Acho que não vou votar. Nada mudará mesmo que eu vote”, diz Kivumbi Charles à Al-Jazeera, no contexto de um inquérito que a televisão fez aos jovens eleitores ugandeses. Charles é um jornalista diplomado de 20 anos que trabalha numa loja de apostas desportivas em Kampala e que se queixa da imutabilidade do sistema. Esta é uma das ideias arreigadas entre muitos jovens ugandeses que são chamados a votar nas eleições presidenciais desta quinta-feira.

Os “filhos de Museveni” - é assim chamada a geração - estão cada vez mais frustrados com a incapacidade do Governo em gerar empregos. Dados oficiais dizem que um terço dos jovens não encontra emprego, número contrariado por organizações não-governamentais, que o estimam muito mais alto. A verdade é que todos os anos há mais 500 mil universitários recém-formados a entrar na força de trabalho nacional e a engrossar as fileiras de frustrados, que não encontram saída profissional adequada.

A ideia de que as promessas não são cumpridas é a convicção destes eleitores com menos de 30 anos que constituem 78% dos 39 milhões de ugandeses. Esta proporção faz do Uganda o país com a população mais jovem do mundo. Porém, o que deveria ser um valor inquestionável em termos de força de trabalho representa atualmente uma bomba-relógio.

Controlo biométrico

“A legitimidade é crucial para os governos na nossa era democrática. Só as eleições que são transparentes e justas serão tomadas como legítimas, tanto para o povo do Uganda como para a comunidade internacional”, escreve Kofi Annan na sua página de Facebook. O ex-secretário-geral das Nações Unidas apelava por aquele meio às autoridades ugandesas para que garantissem iguais condições de contenda a todos os candidatos, incluindo o direito a fazer campanha sem medo de intimidações.
O apelo de Annan pressupõe os acontecimentos de há três dias na capital, em que as forças de segurança lançaram gás lacrimogénio e dispararam balas de borracha sobre os apoiantes do líder da oposição Kizza Besigye (59), matando uma e ferindo outras 11 pessoas.

Além de Besigye, que confronta o atual chefe de Estado, Yoweri Museveni (71) pela quarta vez, há mais seis candidatos na corrida de 18 de fevereiro, incluindo o ex-primeiro-ministro que concorre como independente, Amama Mbabazi (66). Museveni, Besigye e Mbabazi lutaram todos na guerra civil de cinco anos que terminou em 1986 e todos tiveram papéis importantes no país, ocupando Museveni a chefia de Estado desde então.

John Baptist, de 29 anos e adepto do partido no Governo - o Movimento de Resistência Nacional - delcarou à Al-Jazeera preferir que “as coisas continuem na mesma” desde que “haja paz e estabilidade”, ainda que “seja difícil arranjar emprego”. Sobre as mesmas observações, Baptist tem o ponto de vista inverso ao da oposição ao Governo.

Em termos políticos, as críticas pesam sobre os serviços do Estado, com o setor da saúde à frente, o desinteresse do Executivo pelos seus cidadãos, o que leva eleitores como Joy Rovinis, uma rececionista de hotel de 23 anos a dizer: “O país está a evoluir com o desenvolvimento que está a acontecer. A mudança virá quando o Governo mudar de atitude e se preocupar mais com as pessoas. Acredito que o Uganda será melhor no futuro”.

Nestas eleições vai ser uado pela primeira vez um novo sistema biométrico de verificação de eleitores, sabendo-se à partida que os primeiros testes foram feitos só nas últimas semanas, o que deixa muito pouco tempo para treinar o pessoal das assembleias de voto em todo o território, reporta a Al-Jazeera.

Ao contrário da clássica compra de votos de outros tempos, os eleitores ugandeses que apoiam Besigye têm levado a cabo uma campanha de crowdfunding de apoio à sua candidatura que, segundo a BBC, tem permitido ao candidato formar uma base de apoio que desafia o Governo de modo pacífico. “Partimos para esta campanha muito cientes de que não é um processo eleitoral livre e justo”, declara o candidato da oposição.