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“Se o Papa se apaixonou mesmo, era mais humano do que pensávamos”

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Papa João Paulo II com a filósofa polaca Anna-Theresa Tymieniecka

D.R.

Cartas que revelaram a amizade intensa do Papa João Paulo II com uma mulher casada causaram reações díspares a nível internacional. Há quem desvalorize e ache que não é novidade nenhuma, mas também há quem se tenha espantado

Vamos fingir que este artigo foi arrancado das páginas de um livro de receitas. Ingredientes: um Papa que marcou a História do século XX; uma mulher inteligente e bonita; centenas de cartas que provam uma ligação entre os dois. Modo de preparação: misturar tudo e levar à gráfica para sair nas capas de todos os jornais. O resultado? Depende de quem provar: pode ser uma amizade intensa, uma das "mais estranhas relações que um Papa já teve" ou simplesmente não constituir "surpresa nenhuma".

A imprensa está dividida no caso das cartas trocadas entre o Papa João Paulo II (boa parte delas ainda como cardeal Karol Wojtyla) e a filósofa de origem polaca Anna-Theresa Tymieniecka. O teor destes documentos acaba de ser revelado pela BBC e deixam pistas fortes sobre uma relação, no mínimo, especial. Escrevia João Paulo II à amiga com quem passava férias, acompanhada pelo marido e filhos dela: "Se eu não tivesse esta convicção, uma certeza moral da Graça e de que lhe devo obedecer, não me atreveria a agir assim".

Nas capas dos jornais internacionais, uma expressão que parece ter sido combinada para evitar classificar de formas mais concretas esta relação: a "amizade intensa" do Papa João Paulo II foi notícia em toda a parte. Para o jornal espanhol ABC, que faz esta terça-feira uma análise multimédia do caso, isto não faz sentido: "A fé de João Paulo II não era alheia a todas as partes do mundano. Ele manteve amizades com homens e mulheres de forma pública, por isso são surpreendentes os tons polémicos e insinuantes usados por alguns jornais. Ele sempre acompanhou as vicissitudes dos seus amigos, sendo eles casados ou não". O diário "La Razón" diz o mesmo: "Esta realidade já era conhecida de sobra".

No entanto, nem toda a imprensa reagiu com a mesma calma à revelação. No "El País" escreve-se sobre a "conflituosa relação do Papa Wojtyla com as mulheres" e a "desenvoltura do polaco com o sexo oposto", recordando que "esta não foi a única relação intensa que manteve com uma mulher". O jornal aproveita para recordar a amizade do Papa com a psiquiatra Wanda Poltawska, a quem chamava "irmãzinha" - e os filhos de Wanda retribuíam a amizade, chamando-lhe "Tio Karol". Mas o diário espanhol vai mais longe e lembra que "a relação conflituosa e dolorosa do Papa com as mulheres de carne e osso" o acompanhou desde a morte de uma alegada paixão de juventude sua, uma rapariga judia, às mãos dos nazis num campo de concentração polaco.

A revelação das cartas trocadas entre o antigo Papa e a filósofa incendiaram a imprensa internacional

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JANEK SKARZYNSKI

Nos Estados Unidos, as reações são unanimemente de surpresa. Se o "New York Times" diz que as cartas "mostram um grau de afeição surpreendente por uma mulher", defendendo que denotam "alguma tensão" na relação, o "Washington Post refere que as missivas provam a existência de uma relação que, "não sendo necessariamente inapropriada, era intensa".

No Reino Unido, o "Telegraph" não hesita em substituir "amizade intensa" por uma descrição mais contundente: "Uma das mais estranhas relações da história do papado".

Já no "Guardian" encontramos a maior defesa da suposta história de amor do Papa. Num artigo de opinião assinado por Joanna Moorhead, lê-se uma conclusão mais empática: "Se o Papa se apaixonou mesmo, era mais humano do que pensávamos", revelando de forma póstuma "sê-lo de uma forma dolorosa, comovedora e impressionante". A cronista defende que "isto não é uma revelação, apenas uma lembrança de que o celibato dos padres é uma tradição corrosiva da Igreja Católica". E conclui: "Se a ligação foi real, pode ser vista como uma das coisas mais naturais do mundo".