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O diplomata veterano que Washington vetou

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JUAN M. ESPINOSA / EPA

Boutros Boutros-Ghali, falecido esta terça-feira no Cairo, foi o primeiro africano e o primeiro árabe a liderar a ONU. A Guerra Fria acabara, mas nem por isso o seu mandato foi mais fácil

O primeiro africano e primeiro árabe a ocupar o cargo de secretário-geral das Nações Unidas morreu esta terça-feira, aos 93 anos. Egípcio e cristão copta, Boutros Boutros-Ghali ocupou o cargo na primeira metade dos anos 90, em que o mundo percebeu que afinal a história não chegara ao fim. Depois da Guerra Fria seguiram-se os genocídios da Jugoslávia e do Ruanda, a que a ONU teve dificuldade em reagir.

Veterano da diplomacia egípcia, era neto de um antigo primeiro-ministro e foi membro dos governos dos Presidentes Anwar al-Sadat e Hosni Mubarak. Acompanhou o primeiro numa missão de paz a Jerusalém, em 1977, tendo contribuído para os acordos de Camp David de 1979, em que, sob os auspícios do Presidente americano Jimmy Carter, Sadat e o primeiro-ministro israelita Menachem Begin assinaram o tratado que pôs fim a 31 anos de guerra.

Durante a sua passagem pela ONU, Israel e a Organização de Libertação da Palestina assinaram, em Oslo, um acordo de paz que tarda em ser aplicado. Este valeu o prémio Nobel da Paz ao líder palestiniano Yasser Arafat e aos israelitas Shimon Peres e Yitzhak Rabin.

Ao lado do líder palestiniano Yasser Arafat, num encontro em Nova Iorque

Ao lado do líder palestiniano Yasser Arafat, num encontro em Nova Iorque

Peter Morgan / Reuters

Formado em Direito na Universidade do Cairo – onde também ensinou entre 1949 e 1977 –, Boutros Boutros-Ghali doutorou-se em Direito Internacional na Sorbonne (Paris) e também estudou Relações Internacionais na prestigiada Sciences Po da capital francesa. Ensinou no Cairo, em Columbia (Nova Iorque), Haia e Paris, nomeadamente.

Cedo seguiu as pisadas de uma família politicamente ativa. Membro do comité central da União Socialista Árabe, foi secretário de Estado e vice-ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1977 e 1991, com Sadat e Mubarak. Deixou a pasta para ir para Nova Iorque chefiar as Nações Unidas.

Uma ONU carente de recursos

Já sem a ameaça do Armagedão nuclear, desfeita que estava a União Soviética e finda a Guerra Fria, Boutros-Ghali quis dedicar o seu mandato na ONU a desburocratizar a organização, melhorar o seu financiamento, e propôs uma Agenda para a Paz, que permitisse reagir a conflitos armados em qualquer parte do mundo.

Nas duas maiores crises daquela década, porém, as Nações Unidas falharam. O milhão de mortos do genocídio ruandês e o banho de sangue que manchou a desintegração da Jugoslávia são pontos fracos, bem como a dificuldade em intervir nas guerras civis de Angola e Somália. Faltavam à organização efetivos militares, tendo já 60 mil soldados de manutenção da paz espalhados por teatros de guerra como o Camboja, El Salvador e Moçambique.

Este currículo ajudou à decisão dos Estados Unidos de vetar a reeleição do egípcio em 1996. Boutros-Ghali – que inicialmente dissera querer cumprir apenas um mandato, mas depois voltou atrás – foi mesmo o primeiro secretário-geral das Nações Unidas a falhar o segundo ciclo (o austríaco Kurt Waldheim fora vetado pela China para um terceiro quinquénio).

O diplomata americano Richard Holbrooke viria a escrever, mais tarde, que a oposição de Ghali aos bombardeamentos da NATO contra os sérvios na Bósnia-Herzegovina fora decisiva para o veto (foi, também, o ano da reeleição de Bill Clinton). A explicação oficial dos Estados Unidos foi a incapacidade do secretário-geral para reformar as Nações Unidas, mas este sentiu a sua integridade questionada e ficou magoado.

Boutros Boutros-Ghali contou, nas memórias que publicou em 1999, que Washington lhe dava instruções sobre as viagens que devia fazer, as personalidades com quem se devia encontrar e o que devia ou não dizer em discursos. O egípcio queixou-se, também, da falta de apoio dos americanos às missões de manutenção da paz, sobretudo depois do desaire na Somália. “O conceito de manutenção da paz foi posto de pernas para o ar e tudo piorou com a brecha entre mandatos e recursos”, lamentou. Sucedeu-lhe o ganês Koffi Annan.

Render de pasta: Kofi Annan sucedeu a Boutros-ghali à frente da ONU

Render de pasta: Kofi Annan sucedeu a Boutros-ghali à frente da ONU

PETER MORGAN / Reuters

Entre 1997 e 2002, o egípcio foi secretário-geral da organização La Francophonie e de 2003 a 2006 foi presidente do Centro Sul, uma entidade que estuda países em desenvolvimento. E entre 2003 e 2012 dirigiu o Conselho Nacional de Direitos Humanos do seu Egito natal, que Mubarak criou sob pressão ocidental para realizar – o que nunca fez – reformas democráticas.