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O homem que decidiu esquecer a cara da mulher para sobreviver à cegueira

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É uma história que vai chegar ao cinema. Trata-se “do registo mais extraordinário, preciso, profundo e bonito sobre a cegueira”

John Michael Hull começou a perder a visão em criança, depois de uma operação às cataratas que correu mal. Durante cerca de 40 anos, mentalizou-se de que haveria um ponto em que perderia este sentido por completo. Quando esse dia chegou, tomou uma decisão que mudaria a sua vida: não estava disposto a esquecer-se a pouco e pouco das caras e paisagens que amava, portanto iria esquecê-las de uma vez só.

É uma história que vai chegar ao grande ecrã, mas não se trata de ficção. Foi durante uma viagem à sua casa de infância na Austrália, em 1980, que Hull, então residente no Reino Unido e professor de Teologia na Universidade de Birmingham, percebeu que não aguentava estar rodeado das coisas de que gostava sem as poder ver. "Ele esperava aproveitar o ambiente e a lembrança daquilo que o rodeava quando estava a crescer. Mas sentiu-se totalmente alienado por não poder ver nada daquilo. Foi muito doloroso", relata Marylin, a mulher de Hull.

De volta a Inglaterra, Hull tomou a decisão final. "Quando ele chegou da Austrália, ele pensou: 'Ok, tenho de me tornar uma pessoa cega. Não posso viver em dois mundos. Tenho de ouvir e tocar e esquecer-me da parte visual'. Isto envolvia esquecer-se da minha aparência", recorda Marylin, citada pela BBC.

"Uma obra de arte"

O enredo já parece de filme, mas o drama não pára por aqui. Na altura, Marylin estava grávida do primeiro filho do casal e Hull sabia que nunca chegaria a ver a cara do filho. Por isso, concentrou-se na cegueira e documentou a experiência o melhor que pôde, descobrindo a sua nova condição passo a passo.

Hull começou por gravar cassetes em que falava da experiência de ficar cego, das suas frustrações, de momentos específicos em que desejava poder ver, como encontros de família. Depois, passou a escrever tudo num diário, até ultrapassar o desgosto e deixar de sentir essa necessidade.

A CNN cita o neurologista Oliver Sacks, que considerou estas gravações "o registo mais extraordinário, preciso, profundo e bonito sobre a cegueira". "É, para mim, uma obra de arte", garante o especialista.

O renovar da sua personalidade

Hull morreu repentinamente em julho do ano passado, aos 80 anos. Para trás deixou um legado que ensina a lidar com a experiência de ficar cego e a perceber como é que quem deixa de ver se adapta à sua nova condição. Foram estes contributos que chamaram a atenção dos realizadores Peter Middleton e James Spinney, que descobriram os registos de Hull em 2010.

"Estas gravações fazem um mapa da travessia de John, de uma posição de luto e frustração até pensar na cegueira como um presente enorme, e o renascer e renovar da sua personalidade", assegura Middleton, que defende que aquela viagem à Austrália foi "o início da sua recuperação". Para mais, o documentário "Notes on Blindess", que deverá chegar ao grande ecrã este ano, conta com entrevistas de Hull, que explica o processo por que passou.

No documentário de Middleton e Spinney, os atores Dan Renton Skinner e Simone Kirby interpretam os papéis de Hull e Marylin, mas só visualmente - o som é o das gravações originais e eles apenas fazem playback.