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Centenas de cartas de João Paulo II revelam amizade “intensa” de 30 anos com mulher casada

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DERRICK CEYRAC / AFP / Getty Images

Correspondência trocada entre o Papa e Teresa Tymieniecka, ambos nascidos na Polónia, tinha sido mantida até agora longe dos olhares públicos na Biblioteca Nacional da Polónia

Parte do conteúdo das centenas de cartas e fotografias até hoje guardadas longe dos olhares públicos e que contam a história da relação de mais de 30 anos do Papa João Paulo II com uma mulher casada foi revelado esta segunda-feira pela BBC, que lhes acedeu em exclusivo. Diz o canal btitânico que, apesar de não haver indícios de que o Papa tenha violado o seu voto de celibato, houve alturas, em particular no início da troca de correspondência, em que João Paulo II se debateu interiormente com os sentimentos que estavam a desenvolver-se entre ambos e "a forma cristã" de lidar com eles.

A amizade entre Karol Wojtyla e a filósofa polaca, nascida nos Estados Unidos, Anna-Teresa Tymieniecka começou quando Wojtyla era ainda cardeal, em 1973. Foi Tymieniecka quem o contactou sobre um livro de filosofia que ele tinha escrito.

As cartas, inicialmente formais, foram-se tornando mais íntimas à medida que a amizade crescia, com o par a decidir trabalhar numa nova versão do livro do cardeal. Em 1974, o cardeal reanalisava quatro das cartas da sua amiga — já não apenas amiga por correspondência mas com quem se encontrava, às vezes acompanhados, às vezes a sós — por serem "tão cheias de significado e profundamente pessoais".

As dúvidas sobre como acomodar esta amizade na sua fé começaram em 1976, quando o Papa polaco foi convidado por Tymieniecka a ficar na sua casa de família nos Estados Unidos aquando de uma conferência da Igreja Católica. Diz a BBC que a filósofa "terá revelado intensos sentimentos por ele", algo que se denota numa carta Wojtyla lhe enviou em setembro desse ano: "Minha querida Teresa, recebi todas as suas três cartas. Escreve sobre estar dilacerada e não encontro resposta a essas palavras", disse o cardeal, chamando-lhe um "presente de Deus".

Marsha Malinowski, que negoceia manuscritos raros e que negociou a venda da correspondência por Tymieniecka à Biblioteca Nacional da Polónia em 2008, antes da morte da filósofa em 2014, disse ao canal britânico que acredita que Teresa se apaixou perdidamente por João Paulo II ainda antes de este ser Papa, nos primórdios da relação. "Penso que isso está totalmente refletido na correspondência", declarou ao canal britânico.

Essas cartas revelam igualmente que Wojtyla deu à amiga o que a BBC chama de "um dos seus bens mais preciosos", um escapulário, em resposta aos sentimentos de Teresa: "Já no ano passado procurava uma resposta a estas palavras, 'Eu pertenço-te', e finalmente, antes de abandonar a Polónia, descbri uma forma — um escapulário", escreveu em 1976 ao oferecer-lhe o pequeno colar de devoção cristão. Para representar "a dimensão na qual eu te aceito e na qual eu te sinto em todo o lado, em todos os tipos de situações, quando estás perto ou quando estás bem longe".

Quando se tornou Papa, em 1978, a correspondência continuou, com Wojtyla a "prometer" que "a nova fase da viagem" não o faria "esquecer" nada nem parar a troca de correspondência. João Paulo II morreu em 2005 e, em 2014, no mesmo ano da morte de Teresa Tymieniecka, foi declarado santo pela Igreja Católica.

Apesar de ter trocado correspondência com mais mulheres antes e durante o seu papado, como são exemplo as cartas trocadas durante décadas com a psiquiatra Wanda Poltawska, a correspondência agora desenterrada pela BBC mostra uma relação mais intensa e emocional com Teresa. "Aqui está uma das maiores e mais transcendentais figuras da vida pública do século XX, o líder da Igreja Católica, numa relação intensa com uma mulher atraente", declarou Eamon Duffy, professor de História do Cristianismo da Universidade de Cambridge, quando confrontado com as cartas mantidas em segredo até agora.

A BBC diz que não conseguiu confirmar se estas cartas integraram o processo de análise da candidatura de João Paulo II à beatificação e mais tarde à santificação. Normalmente, o Vaticano pede para ver todos os escritos públicos e privados do candidato durante esse processo, com a Congregação das Causas de Santos a dizer que está a cargo de cada católico decidir se envia ou não documentos que possam ser relevantes.

"Todos os nossos deveres foram cumpridos", disse um responsável da congregação quando contactado sobre a correspondência. "Todos os documentos privados, enviados por fiéis em resposta ao nosso édito, bem como documentos de arquivo, foram estudados."

A Bilbioteca Nacional Polaca continua a manter que esta relação em nada se distinguiu de tantas outras relações por correspondência mantidas pelo Papa polaco.