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A mãe que tem de aceitar que o filho matou 13 pessoas e se suicidou a seguir

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Sue Klebold é mãe de um dos assassinos suicidas do massacre no liceu de Columbine. Dezassete anos depois da tragédia, publica um livro e explica que ainda não se perdoou pelo que o filho fez

Nos Estados Unidos, há um antes e um depois do massacre de Columbine. Para quem vê de fora, o que aconteceu resume-se facilmente: a 20 de abril de 1999, dois adolescentes de 17 e 18 anos entraram no liceu de Columbine, onde estudavam, e abriram fogo, matando 13 pessoas, ferindo 24 e suicidando-se em seguida. Para quem recebeu a chamada fatídica e percebeu o que o filho tinha acabado de fazer, a realidade parece muito mais complexa e, 17 anos depois, ainda por descodificar.

Em 2005, especialistas consultados pelo FBI deram as respostas às dúvidas que assolavam a América: Columbine não tinha sido só um tiroteio numa escola, nem era a resposta dos atiradores, Dylan Klebold e Eric Harris, aos colegas que lhes tinham feito bullying durante a vida toda.

O ataque tinha sido bem planeado e não visava diretamente a escola e quem lá estava; pretendia antes provocar o pânico, atacando a cultura e o estilo de vida americanos. Uma receita cumprida por dois indivíduos muito diferentes: Eric Harris tinha perfil de psicopata (era frio, duro, calculista); Dylan Klebold era um adolescente depressivo, com pensamentos suicidas (e estava sob a influência de Harris há vários anos).

É difícil saber se a mãe de Dylan, Sue, consegue ver o filho como o suicida que matou 13 pessoas, dominado pelo sentimento de revolta. No livro que acaba de publicar, "A Mother's Reckoning", Sue explica que só na manhã em que tudo aconteceu detetou algo de estranho no tom de voz do filho. "Se alguém foi uma desilusão fui eu para Dylan, e não o contrário", assegura.

Nas semanas posteriores à tragédia, Sue recebeu uma carta de um dos pais dos meninos que morreram, relata o "New York Times". Nela, o homem questionava: "Vocês passavam muito tempo à mesa com o vosso filho? O que fariam de outra forma? Acham que as pessoas vão dizer que são pais terríveis e negligentes? Com certeza que vão. Muitos já dizem".

Muitos fizeram as mesmas acusações a Sue. No entanto, a imprensa internacional é unânime em relação ao novo livro em que esta mãe conta a pior experiência da sua vida e as dúvidas que ainda hoje a assolam: o relato de Sue cria empatia e, passados 20 anos, deixa de ser o previsível relato defensivo da mãe de um dos assassinos.

A vida paralela de Dylan

Descrevendo o seu casamento feliz e a vida aparentemente normal que levava com o marido e os dois filhos, a assistente social admite que no passado já tinha havido um problema com Dylan: anos antes, o rapaz e o amigo Eric Harris tinham assaltado uma carrinha e roubado o equipamento eletrónico que lá dentro se encontrava. O suficiente para Sue passar a revistar o quarto de Dylan, em busca de drogas, mas não para imaginar o que o rapaz preparava.

Dias antes do ataque, Dylan foi ao baile de finalistas; continuava a rir-se como dantes, a ver filmes e a jantar em família. As queixas da mãe tinham sobretudo que ver com a desarrumação e a falta de colaboração nas tarefas domésticas, como numa relação normal entre mãe e filho adolescente. Mas os sinais estavam lá: sem os pais saberem, Dylan bebia, escrevia obsessivamente sobre o seu desejo de suicídio e recolhia armas, que escondia com Harris. Uma vida paralela que levou até ao fatídico dia.

Dezassete anos passados, Sue continua a perguntar-se: "Será que eu podia ter feito algo para evitar isto?". E conforme escreve no novo livro, tem uma tarefa exigente pela frente: "Perdoar-me".