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Internacional

A indústria sinistra das cobranças na Rússia

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A crise e a baixa do preço do petróleo, somadas à má gestão e às sanções económicas, criaram uma tempestade perfeita na economia russa. Prosperam os “abutres”

Luís M. Faria

Jornalista

O comunicado da polícia é horrivelmente claro: "Recebemos uma mensagem ontem à noite, a dizer que um apartamento tinha sido incendiado. Uma pessoa atirou uma garrafa com líquido inflamável, em resultado do qual o fogo começou. Um homem de 65 anos que sofreu queimaduras na mão e um bebé de dois anos com queimaduras na cara e nos braços foram levados para o hospital".

Isto passou-se há duas semanas na cidade russa de Ulyanovsk. O bebé e o seu avô pertencem a uma família onde alguém deve dinheiro. Dias antes, já lhes tinha entrado pela janela um tijolo a ameaçar queimar a casa se não pagassem 40 mil rublos (452 euros) no prazo de cinco dias. Pelos vistos, a ameaça era a sério. Mas o ato teve efeitos inesperados, pois foi notícia em todo o país. A polícia não tardou a prender um homem de 45 anos. Ao que parece, trabalha para uma agência de cobranças.

O site do canal de televisão Russia Today diz que mesmo a respeito da dívida original existem versões bastante diferentes. Umas falam em dez mil rublos (113 euros) que teriam sido emprestados à mãe, outras em 4000 rublos (45 euros) recebidos pelo avô. Este último teria mais tarde devolvido 24 mil rublos (271 euros) mas os cobradores disseram que não chegava, por causa da subida das taxas de juro. Queriam 40 mil.

Um porta-voz do Comité de Investigação Russo confirmou a existência de "relatos" segundo os quais "um funcionário de uma agência de cobranças" poderá ter "tentado recuperar a dívida". A confirmar-se, é algo que na Rússia de hoje em dia está longe de ser uma raridade, seja no propósito seja no método brutal.

Uma creche evacuada de urgência após ameaça de bomba

Desde o início da crise financeira, a Rússia tem passado dificuldades extraordinárias. Se nos anos anteriores o preço elevado do petróleo permitira um aumento gradual do nível de vida – o país é um dos maiores exportadores mundiais do chamado ‘ouro negro’ –, a partir de 2008 começou o retrocesso.

Entre esse ano e 2012, o nível de endividamento duplicou, estimulado por uma indústria de crédito fácil cuja publicidade se via por todo o lado, às vezes com protagonistas tão inesperados como o ator norte-americano Bruce Willis. Tal como na sua homónima portuguesa, a mensagem chave era: você quer, você tem – e pode ter já. Empréstimos de curto prazo, a taxas muito altas, destinados a pessoas de fracos recursos que por vezes mal percebiam o que estavam a fazer. O microfinanciamento na sua face mais negra, com um equivalente a 2490 milhões de euros emprestados só num mês.

Hoje em dia, há mais de onze milhões e meio de russos com dívidas em atraso. A situação deles agravou-se muito com a baixa do preço do petróleo, que privou o país de boa parte do seu rendimento externo. Se ainda há dois anos o barril atingiu preços acima dos 130 dólares, hoje anda pelos 30 e é provável que se mantenha em baixo durante anos. A essa situação juntaram-se as sanções económicas impostas pelos países ocidentais em retaliação pela anexação da Ucrânia e a guerra não-declarada que Putin fez lançar no país vizinho. Quanto aos custos da corrupção generalizada no país, são difíceis de quantificar mas não menos reais por isso.

Para os credores, a crise atual faz aumentar a urgência de serem pagos. E é justamente nesta altura que muitas pessoas mais dificuldade têm em saldar as dívidas. Isso deu azo a um grande desenvolvimento da indústria de cobranças, que num país como a Rússia, inevitavelmente, não há de sempre utilizar métodos pacíficos. O caso da família de Ulyanovsk é apenas um de milhares. Em Rostov, no passado mês de dezembro, uma creche teve de ser evacuada após uma professora ser ameaçada de que uma bomba explodiria lá se ela não pagasse uma dívida que alegadamente tinha.

Incapacidade estatal, soluções alternativas

Perante notícias destas, as autoridades garantem estar atentas. O Parlamento russo poderá aprovar brevemente alterações legais importantes; por exemplo, no sentido de impedir que se tente cobrar dívidas a alguém que não o devedor original. Também se fala de normas sobre o número de chamadas que um cobrador pode fazer e o tempo que podem durar. O problema, conforme explicou ao jornal "The Guardian" o sócio de uma empresa de consultoria sediada em Moscovo, Tom Adshead, "é que os tribunais na Rússia não funcionam adequadamente. Há lugar para agências de cobranças criminosas".

Do lado daqueles que são alvo dessas agências, confiar na polícia e nos tribunais também não chega. Os recursos alternativos incluem grupos de apoio para vítimas, como o Pára Cobrador!, fundado por um programador de computadores que diz receber ameaças de cobradores – por vezes bastante bizarras – desde há anos. Ele recomenda aos devedores que não cedam e vão para tribunal. Um advogado que colabora com o grupo diz que, na sua opinião, o que é preciso é "remover toda a instituição dos cobradores".

Também têm surgido aplicações de software, entre as quais uma que impede os telemóveis de receber chamadas e mensagens de uns milhares de números de cobradores. Mas soluções dessas, por mais ou menos eficácia que possam ter, no fundo são paliativos. Enquanto o Estado russo não funcionar como deve, os “abutres da crise” das cobranças, à imagem de tantos outros que sugam a miséria alheia, vão continuar a prosperar. Pese alguma eventual tragédia de um bebé que se encontre a dormir numa casa.