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O crime do padre Feit (que só foi preso 56 anos depois)

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Corria o ano de 1960 quando o corpo de Irene Garza apareceu a boiar num ribeiro. Todas as provas apontavam para o padre Feit, mas a acusação demorou 56 anos a chegar

Costuma ver aquelas séries policiais em que um caso que aconteceu há muitos, muitos anos é reaberto e as emoções voltam todas como se fosse o primeiro dia? Avisamos que esta história envolve uma beleza rara, um padre acusado de assassínio e uma acusação que chegou muitos anos mais tarde. A diferença é que este relato é real.

Recuemos até ao ano de 1960, mais precisamente aos acontecimentos que tiveram lugar em McAllen, Texas. Na altura, Irene Garza tinha 25 anos e já somava vários títulos que comprovavam a sua beleza (dois anos antes tinha sido eleita Miss Sul do Texas), trabalhando então como professora. O dia em que morreu era domingo de Páscoa e o plano da jovem era simples: ir à igreja mais próxima, a Igreja do Sacrado Coração, em McAllen, para se confessar.

Irene chegou a confessar-se ao então padre John Feit, como o próprio confirma. Depois... desapareceu sem deixar rasto. Ou pelo menos assim foi até à semana seguinte, quando começaram a aparecer vestígios da roupa que vestia e, finalmente, o próprio corpo, morto por asfixia, num ribeiro ali próximo.

Preso aos 83 anos

Esta terça-feira, 56 anos depois do crime, a polícia do Texas e de McAllen fez, finalmente, a primeira detenção ligada ao caso. O padre John Feit - que há anos deixou de o ser - está aos 83 anos finalmente preso, depois de ter passado mais de meio século como único suspeito do homicídio.

As provas não são exatamente novas. Na altura em que Irene morreu, Feit foi imediatamente ligado à jovem - afinal, teria sido a última pessoa a vê-la com vida e, descobriu-se então, o objeto usado para a asfixiar pertencia-lhe. Mais: o reverendo Joseph O'Brien revelou imediatamente à polícia ter visto cicatrizes recentes nos braços do padre quando tomou café com ele, nessa noite.

A confissão que desatou o nó

O que aconteceu então entre 1960 e 2016? Como o "New York Times" relata, enquanto as suspeitas sobre Feit se adensavam, a Igreja Católica decidiu transferi-lo para um mosteiro na pequena cidade de Ava, no Missouri, e depois para um lar de padres problemáticos na ainda mais pequena Jemez Springs, no Novo México, acabando por abandonar a atividade em 1970 para se casar e ter três filhos. Entretanto, a memória desvanecia, os anos passavam e o leque de testemunhas ficava cada vez mais pequeno.

Mas os parentes de Irene Garza nunca desistiram. O caso acabou por recuperar importância em 2014, nas eleições para procurador do Condado de Hidalgo, ainda no Texas mas perto da fronteira com o México. O candidato Ricardo Rodríguez Jr. pediu que as provas do caso fossem reavaliadas, apesar de o detentor do cargo, Rene Guerra - que aspirava à reeleição - o ter feito dez anos antes, sem sucesso. A campanha acabou por dar a vitória à Rodríguez, que obteve o apoio público da família da vítima.

Foi na sequência destes acontecimentos que uma prova até então desconhecida surgiu e veio funcionar como uma espécie de cola para tudo o resto. O testemunho de Dale Tacheny, um monge que conheceu Feit durante o seu "retiro" em Ava, revelou ter ouvido, na altura, uma confissão de Feit, relativamente não só à morte de Irene mas também a um ataque a outra jovem, pouco tempo antes (pelo qual foi multado, sem nunca ter havido uma acusação formal).

Com o testemunho de Tacheny, tudo pareceu compor-se. No entanto, na altura em que o ex-monge contou tudo à polícia, em 2002, voltou a não haver nenhuma acusação contra Feit. Agora, 56 anos depois, o novo procurador de Hidalgo convenceu um júri a acusar Feit e, embora o juiz ainda não tenha tomado uma decisão, o caso parece estar cada vez mais perto do fim.