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“Fui criança-soldado durante sete anos e perdi o meu bebé. Mas escapei”

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O relato de Polline é arrepiante: aos 12 anos foi capturada por um grupo armado do Uganda, obrigada a casar e a ter um filho, que acabou por perder. Hoje quer inspirar outros sobreviventes como ela

Dizer que Polline Akello foi uma criança soldado no Uganda é pouco. Para contar a história dela, há que falar das coisas dolorosas por que passou - do bebé que perdeu, da rejeição que encontrou ao voltar a casa. E sobretudo da coragem da agora mulher que decidiu contar ao mundo os horrores que viveu para ajudar outros como ela.

"Passei sete anos na guerra como criança-soldado, refém de um grupo armado e forçada a casar com um comandante dos rebeldes. A minha melhor amiga foi morta à minha frente. O meu bebé morreu antes de nascer. Mas eu escapei." Assim começa o depoimento de Polline, feito na Câmara dos Lordes, em Londres, por ocasião do Red Hand Day - um dia dedicado a estas crianças - e editado pelo "The Guardian".

Quando Polline foi levada para o campo de batalha e se tornou mulher do comandante, tinha apenas 12 anos. "No campo, as raparigas estão habituadas a estar disponíveis para os homens quando eles quiserem. Os soldados não podem apaixonar-se e podem ser mortos por isso." Aos 16 anos, engravidou. E o pior aconteceu: forçada a fazer grandes caminhadas para acompanhar os rebeldes, perdeu o bebé e teve de o remover com uma operação sem direito a anestesia.

A tragédia de Polline acabou por lhe mostrar a porta de saída. "A minha saúde piorou depois da operação e deixaram-me ser tratada num hospital no Quénia, onde uma enfermeira me ajudou a fugir." Nessa altura, Polline soube que era a sua oportunidade para um recomeço. "Só sabia que não ia voltar àquele lugar."

Uma coisa boa pode vir de algo terrível

Quando voltou a casa, a família entregou-lhe apenas "uma cama e um lençol". A falta de apoio dos familiares às crianças que voltam depois da guerra é frequente, explica esta sobrevivente: "Não estão preparados para se responsabilizarem por uma criança de pai desconhecido".

Nem todos conseguem, mas Polline recuperou - tanto quanto é possível recuperar de uma experiência trágica como esta. Hoje em dia, quer ser um símbolo de sobrevivência para todos os que passam pelo mesmo. "Algumas pessoas que fogem ou são libertadas têm medo de agir porque há demasiada dor. Não conseguem tomar as decisões certas. Mas a comunidade pode mudar para melhor se as pessoas conseguirem falar sobre isto. Eu quero ser um exemplo que ajude os outros a serem ouvidos."

Hoje, Polline voltou a estudar e está a tirar um curso universitário, além dos esforços como ativista - como ela conta, já falou com David Cameron, William Hague e Angelina Jolie para pedir ajuda para sobreviventes de situações semelhantes. E deixa uma mensagem de esperança: "Isto mostra que uma coisa positiva pode vir de algo coisa terrível".