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México. Nova investigação questiona teses do governo sobre o desaparecimento de 43 estudantes

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PEDRO PARDO

Na noite de 26 para 27 de setembro de 2014, 43 estudantes mexicanos desapareceram sem deixar rasto. Até agora, o Governo responsabilizou um gangue de narcotraficantes pela suposta morte dos jovens, mas uma nova investigação forense vem pôr tudo em dúvida

Ninguém sabe o que aconteceu na noite de 26 para 27 de setembro de 2014. Segundo o Governo mexicano, 43 estudantes desapareceram naquela noite depois de terem sido detidos pela polícia municipal, para serem entregues a um gangue que depois os matou e queimou numa lixeira ali perto. Segundo um novo relatório, não foi nada disso que aconteceu.

Um ano depois de ter começado a investigar o desparecimento dos jovens, uma equipa de Antropologia Forense argentina acaba de divulgar um novo relatório que contraria a explicação dada pelo Governo. Segundo os investigadores, não foram encontrados vestígios do ADN de nenhum dos jovens na lixeira, para além de não haver registo de nenhum incêndio daquelas dimensões na altura em que os estudantes foram alegadamente queimados.

O perito Miguel Nieva esclareceu em conferência de imprensa, citado pelo El País: "As sequências de fotografias desde 2005 até agora permitem-nos perceber a história deste aterro. Havia em várias ocasiões fogos no mesmo lugar. Na zona central havia uma macha negra", explica, defendendo que não houve nenhum incêndio de grandes dimensões que mudasse o padrão habitual.

As conclusões deste relatório indicam ainda que foram encontrados restos de ossos humanos naquela zona, mas nenhum deles pertence aos estudantes desaparecidos. Segundo a antropóloga Mercedes Doretti, que faz parte desta equipa, entre os restos encontravam-se próteses dentárias, que não eram usadas por nenhum dos estudantes.

Dúvidas sobre todas as provas

Na altura em que os jovens foram dados como desaparecidos, o então procurador-geral, Jesus Murillo Karam, explicou que as suas investigações apontavam para que a polícia tivesse entregado os estudantes, ainda vivos, a um gangue de narcotraficantes conhecido como Guerreros Unidos, que então os teria matado e queimado para não restassem provas. Nesta versão, os assassinos teriam recolhido as cinzas em sacos que teriam depois atirado para um ribeiro ali perto.

Na altura dos desaparecimentos, o Governo chegou a confirmar ter identificado os restos mortais de dois dos estudantes, Alexander Mora e Jhosivani Guerrero. No entanto, a equipa forense também questiona esta informação, uma vez que os pedaços de ossos usados para identificar as vítimas seriam "de um tamanho invulgar comparados com os outros restos presentes no mesmo saco", cita a BBC.

Esta equipa não é a primeira a levantar suspeitas sobre a investigação oficial do Governo mexicano. Em setembro, investigadores da Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos encontraram falhas no inquérito inicial, mas o Governo recusou deixar que os agentes policiais que trabalhavam na altura em que tudo aconteceu fossem interrogados por alguém que não o procurador-geral.