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Estender a passadeira vermelha para falar de... austeridade

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Num país onde um quarto da população vive abaixo do limiar de pobreza, o Presidente egípcio mandou estender uma passadeira vermelha de quatro quilómetros para inaugurar um bairro social no Cairo. No fim, apelou à austeridade. As críticas não tardaram

سجادة_حم_اء#. A hashtag significa "passadeira vermelha" e tem sido usada no mundo árabe para gerar uma onda de revolta contra Abdel-Fattah el-Sisi, o atual Presidente do Egito.

El-Sisi está envolto em críticas depois de, para a inauguração de um bairro social nos subúrbios do Cairo, ter mandado estender uma passadeira vermelha de quatro quilómetros para a sua comitiva. Chegado ao local, o líder egípcio apelou à austeridade e a cortes na água potável a que os cidadãos têm acesso.

Num país onde, de acordo com as Nações Unidas, mais de um quarto da população vive abaixo do limiar de pobreza, o gesto gerou polémica. “Como pode o Presidente pedir para que os egípcios apertem o cinto quando uma passadeira de quatro quilómetros diz o contrário?”, pode ler-se nas manchetes dos jornais egípcios, segundo reporta o “National Post”.

Gastem como eu digo, não gastem como eu faço

Após a inauguração do bairro social destinado à população pobre nos subúrbios do Cairo, o discurso do Presidente assume contornos irónicos, ao ter como foco principal os cortes nos custos governamentais. Abdel-Fattah El-Sisi, que construiu a sua legitimidade governativa pela recuperação da economia do país cortando os subsídios do Estado, voltou à carga no tema.

O líder egípcio diz que o Estado está a pagar demasiado por fornecer água potável aos cidadãos, um custo que ronda os 5,1 milhões de dólares por dia (cerca de 4,53 milhões de euros). “Um metro cúbico de água custa-me isto e vocês estão a recebê-lo por uma parte do preço. O Estado não pode continuar assim”, defendeu El-Sisi numa conferência.

O porta-voz do exército Ehab El Qahwagy procurou justificar as despesas da comitiva. “Dá uma sensação de alegria e conforto aos cidadãos egípcios que o nosso país e as nossas forças armadas consigam sempre organizar algo decente”, afirmou, num raro esclarecimento público das autoridades egípcias.

“A passadeira foi posta de forma a embelezar a área local, para que possamos dar ao mundo uma boa impressão do acontecimento”, reitera ainda Qahwagy. Noutras ocasiões, o exército já havia defendido que a longa passadeira de “tecido leve” vem de um tempo anterior ao regime de El-Sisi e, por essa razão, “não é dispendiosa”.

Não será tanto o tecido da passadeira que importa aos egípcios, é antes o simbolismo da situação. O Egito é uma das 40 maiores economias mundias, mas quase 23 em 90 milhões de cidadãos vivem abaixo do limiar de pobreza.