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Escobar, o traficante que os turistas adoram

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Comuna 13 — de epicentro da violência em Medellín a área urbana pacificada

eduardo leal

O sucesso da série “Narcos” reforçou a importância de Medellín como destino turístico

Tiago Carrasco em Medellín, Colômbia

Duas carrinhas descarregam turistas loiros, de chinelos e sombreros, no cemitério de Montesacro, no sul de Medellín, onde, desde 2 de dezembro de 1993, está sepultado Pablo Escobar, o maior traficante de cocaína que o mundo conheceu. Sarah e Lili, duas canadianas, chegam ao mesmo tempo num tour mais privado, pelo qual pagaram 150.000 pesos (cerca de 45 euros) à agência Medellín City Tours. Além do túmulo, o pacote oferece passagens pelas casas em que o criminoso viveu e morreu e pelo bairro que fundou. “Eu sou fã da série ‘Narcos’ e quero ver com os meus próprios olhos como era a vida de Escobar: os locais dos crimes, a sua faceta de Robin dos Bosques e onde escondia o dinheiro”, diz Lili, de 27 anos. “O meu pai até me disse que devia escavar para tentar encontrar notas”.

Desde que deixou de ser taxista para se especializar nos périplos sobre o chefe do cartel de Medellín, o guia Helbert Zaque, de 38 anos, habituou-se a satisfazer a curiosidade dos turistas: “Vêm de todo o mundo. É o itinerário mais procurado, mesmo comparado com a visita aos monumentos”.

Helbert conduz uma viagem entre a lenda e a realidade, um limbo em que a imagem de Escobar se posicionou desde que começou a passar cocaína para os EUA, no fim dos anos 70. À porta do devoluto edifício Mónaco, onde o traficante viveu com a família e foi alvo de um atentado montado pelo cartel de Cali, entrega umas moedas ao segurança para mostrar às duas canadianas o antigo lar de “El Patrón”. “Veem os buracos nos tetos e nas paredes? Foram feitos pelas pessoas que invadiram o prédio para procurar dinheiro quando ele morreu”, diz Helbert. Lili e Sarah espreitam as cavidades. Mais à frente, a piscina, em que 14 mulheres virgens aguardavam nas festas os sócios de Escobar e, na cave, a escura sala de tortura que provoca calafrios às visitantes. “Não se sabe quantos terão morrido aqui. Umas dezenas, certamente”, conta o guia.

“O morto mais vivo do país”

Mais de dez agências turísticas oferecem atualmente excursões pelos pontos-chaves da vida de Pablo Escobar Gaviria. Algumas reforçaram-se com pessoas ligadas ao narcotraficante, como um antigo guarda-costas, uma sobrinha e o irmão, Roberto Escobar, contabilista do cartel, que, por mais um punhado de pesos, se deixa fotografar com os turistas e lhes conta como chegou a gastar 2000 dólares diários em elásticos para prender os maços de notas.

“Estes itinerários foram criados pelos media que elevaram Escobar a figura da literatura e do cinema”, diz Carlos Mario Correa, jornalista e professor universitário que, como repórter de “El Espectador”, foi perseguido pelo cartel. “Sobre figuras como Hitler ou Bin Laden há um ódio universal porque os filmes os mostram como seres demoníacos. Já a Escobar é sempre dado um lado humano, astuto e cómico”. Correa afirma que séries como “Narcos” e “El Patrón del Mal”, recordista de audiências na Colômbia, têm “mais ficção do que informação” e contribuem para a glorificação do traficante, “pois as suas vítimas raramente aparecem e tanto os antagonistas como as figuras secundárias são personagens débeis”.

O professor alerta que o fantasma de Escobar pode levar meio século a desaparecer até porque ainda há muita gente que acredita que o traficante não morreu. “Aqui crê-se que fez um acordo com as autoridades para fugir. Escobar é o morto mais vivo deste país”.

Para Julio Casadiego, de 38 anos, dono da agência Colombia Travel Operator, o problema não é a existência dos itinerários, mas os seus conteúdos. “Não podemos censurar a história. Pablo Escobar matou 5000 colombianos, foi um traficante e um terrorista e é assim que o devemos mostrar ao mundo”, defende. Para tal, criou o pacote turístico “Do not say that name” (“Não diga esse nome”), que incide no legado de violência deixado em Medellín. A visita termina na Comuna 13, o bairro pobre que Escobar disputou com a guerrilha marxista das FARC, abrindo caminho ao aparecimento do paramilitarismo ultradireitista e, já em 2002, à ‘Operação Orión’, uma das maiores intervenções militares urbanas, que vitimou mais de 200 pessoas. “Sofremos muito com o que ele semeou”, desabafa Casadiego. No entanto, Medellín fez uma recuperação fantástica, tendo sido recentemente considerada a cidade mais inovadora do mundo. Nos morros da Comuna 13 apareceram escadas rolantes para aproximar os moradores discriminados do centro da cidade. “Aqui os jovens já não disparam balas, só sprays para os graffiti”.

Apagar as marcas

A 174 km da capital da província de Antioquia fica a antiga sala de visitas do poder de Escobar: a Fazenda Nápoles. Nos anos 80, o mundo ficou boquiaberto ao saber da existência desta propriedade de 20 km2 com praça de touros, 18 lagos artificiais, aeroporto, réplicas de dinossauros e animais exóticos, como hipopótamos e crocodilos. O terreno foi nacionalizado e é hoje um gigantesco parque de diversões — uma mistura de Badoca Park com Aqualand. Do desenho original restam pouco mais do que os lagos, a arena, o aeródromo, meia dúzia de animais que não foram roubados e o famoso pórtico de entrada, encimado pela primeira avioneta que Escobar usou para levar cocaína para Miami. “Os turistas colombianos vêm pelas diversões mas os estrangeiros vêm por causa de Escobar”, diz Dario Perea, que conduz um tuc-tuc no parque. “O Governo está a tentar apagar todas as marcas de Escobar e tornar a fazenda somente um parque de diversões”.

As recordações de Dario são muito diferentes; em criança, vinha aqui todos os domingos e chegou a ser recebido à porta pela família Escobar. “Criou 500 empregos e pagava melhor do que os outros. Ninguém desconfiava que traficava coca, pensávamos que era dinheiro do gado. No Natal, distribuía prendas às crianças. Bolas, relógios, tudo do bom e do melhor. Quando morreu, deixei de ter Pai Natal”.

Nem os colombianos nem os estrangeiros ficam indiferentes

Não há quem esteja mais grato ao traficante do que os moradores do Bairro Pablo Escobar. Em 1984, o antioqueño ofereceu 441 casas e centenas de lotes às famílias que residiam na lixeira municipal. Hoje, mais de 16 mil moradores veneram a sua memória: há fotografias, altares e comemorações na data do seu aniversário. À entrada, o desenho da sua cara com a irónica legenda: “Aqui respira-se paz”. Os turistas chegam diariamente. A todos os que o abordam, Ivan Hernández, um sexagenário com chapéu de cowboy, repete a mensagem: “Os paisas [habitantes de Antioquia] prezam muito a gratidão. Não viramos a cara a quem nos deu casa, mesmo que tenha sido um bandido”.

Um dia, conta, quando estava a beber aguardente num café, viu um homem muito triste e foi perguntar-lhe o que se passava. “Escobar destruiu-me a empresa com uma bomba. Se pudesse, matava-o 50 vezes”, respondeu-lhe, angustiado. Ivan disse-lhe que o percebia, mas que esse mesmo homem o tinha tirado do lixo e oferecido um lar. Acabaram abraçados, unidos na dor e na gratidão por um terrorista a que nem os colombianos nem os turistas ficam indiferentes.

  • “Mataria a minha mãe se Escobar o tivesse pedido”

    Assassinou 300 pessoas e planeou a matança de mais de 3000. Jhon Jairo Velásquez, conhecido por “Popeye”, foi chefe dos sicários de Pablo Escobar e o revólver mais temido do cartel de Medellín. Depois de 23 anos de prisão, conta ao Expresso os segredos do temível traficante colombiano - figura central de “Narcos”, uma das séries televisivas do momento