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O homem que odeia as mulheres

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Roosh V apresenta-se como blogger, pai da neomasculinidade (no fundo, um cocktail de machismo, homofobia e xenofobia q.b.) e, desde esta semana, “o homem mais odiado do mundo”. É difícil escolher a pior frase dele, mas “a violação [de mulheres] que acontece em propriedade privada deve ser legalizada” está no topo das mais odiadas

Num website algures na Internet pode ler-se os seguintes conselhos para que os homens “não corram o risco de se apaixonarem”: “Tratar a mulher como se fosse descartável e substituível; adotar a mentalidade de que as mulheres são egoístas e que delas devemos apenas retirar o maior prazer sexual possível; estar disposto a abandonar qualquer uma”. Uns posts abaixo surge a publicação que significou o salto para a fama do autor - “Cinco motivos para namorares com uma rapariga que sofra de distúrbios alimentares” - e depois o post mais discutido deste blog, no qual se lê que “a violação dentro de casa deveria ser legalizada”.

Não é piada. O website existe mesmo e é assinado pelo blogger e escritor Roosh V (na realidade, Daryush Valizadeh), um norte-americano de 36 anos que se apresenta como o inventor de uma nova filosofia de vida: a “neomasculinidade”. E há um conjunto de princípios a respeitar para evitar que os homens se sintam “fracos e envergonhados”: “seguir os papéis de género”, tradicionais”, “perceber a verdadeira natureza das mulheres”, valorizar a “testosterona” e os “ideiais de beleza feminina”.

É difícil perceber por onde começar a desenrolar o novelo de machismo e misoginia em que o blog (assim como o fórum Return of the Kings, gerido por Roosh V e dedicado aos desabafos de “homens heterossexuais a sério”) se baseia. Peguemos, então, no princípio da verdadeira natureza das mulheres, explicado numa newsletter acessível a qualquer pessoa com um endereço de e-mail (no caso da caixa de comentários, o processo é mais complicado: se o utilizador for mulher, deve enviar uma fotografia - e se for suficientemente atraente poderá obter resposta do blogger). Nesta publicação, Roosh V explica a epifania que teve nos tempos em que viveu na Ucrânia, longe da “sociedade ocidental” que odeia: “Os meus olhos abriram-se depois de um mês na Polónia. As polacas espantaram-me pela sua doçura, feminilidade e lealdade”.

Este é um dos princípios base da “filosofia” de Roosh V: odiar o ocidente por ter “desvirtuado” o real significado de ser mulher. Para o blogger e escritor, que viajou pela América do Sul durante cerca de dois anos e agora viaja constantemente entre os Estados Unidos, a Ucrânia e a Polónia, os países menos ocidentalizados são aqueles com mulheres menos corrompidas - e também os que lhe deram maior sucesso.

Tudo porque Daryush Valizadeh se despediu há seis anos do emprego como biólogo para criar o seu blog e terminar o primeiro livro, um guia para conquistar raparigas facilmente, e desde então nunca parou, alcançado o seu pico de sucesso na Europa, onde publicou mais de 12 livros (incluindo os títulos “Engate de Dia” e “Ter Sexo na Ucrânia”).

Os encontros que não o chegaram a ser

Embora Roosh V já tivesse atraído as atenções de muitos grupos feministas, os media internacionais despertaram para a sua vasta obra de conselhos machistas e vídeos postados no Youtube com títulos como “Ter sexo com mulheres de quem não gostas” - no qual aconselha os seguidores a tomarem grandes quantidades de álcool e drogas para se distraírem da parceira sexual - há poucas semanas, quando o blogger decidiu marcar encontros em 43 países para os seus seguidores.

O conceito consistia em realizar mais de uma centena de encontros, marcados para o sábado passado, em locais secretos, só acessíveis através de uma pergunta específica: os participantes teriam de procurar outros homens no mesmo ponto de encontro - no caso de Portugal, a praça dos Restauradores, em Lisboa - e perguntar “sabes onde é a loja de animais?”. Passado o teste, um organizador conduzi-los-ia a um “espaço seguro” para que estes homens pudessem conviver, longe de mulheres, homossexuais e dos “muçulmanos que estão a invadir vários destes países e a deixar-nos desconfortáveis”.

As reações foram imediatas. Em vários dos países em que Roosh V planeava encontrar-se com os seus seguidores surgiram petições para o impedir (80 mil assinantes no Reino Unido, 40 mil no Canadá). Roosh V, que é de origem muçulmana mas organizou os encontros criticando uma alegada invasão islâmica, atribuiu os ataques de grupos feministas a... islamofobia dirigida a si.

Sobre os protestos que invadiram os locais onde as reuniões iriam decorrer, o blogger voltou ao ataque no Twitter: "Um monte de gordas e freaks, como seria de esperar".

Depois de Roosh V ter anunciado vários encontros a realizar na Austrália, o ministro da Imigração, Peter Dutton, negou que o visto lhe tivesse sido concedido, afirmando que “pessoas que defendem a violência contra as mulheres não são bem-vindas no país”. No Reino Unido, a deputada do Labour Party Chi Onwurah reagiu com humor quando outro parlamentar acusou o blogger de estar a tentar atingir a fama mundial: “Ele está a tentar aumentar o tamanho de outra coisa”, disse, citada pelo “The Independent”.

Sem surpresas, Roosh V acabou por ter de cancelar os encontros. No seu blog pode ler-se um anúncio em letras garrafais: “Já não consigo garantir a segurança e privacidade dos participantes”, explica, depois de dezenas de grupos feministas terem ameaçado boicotar os encontros (em Portugal, estava planeada uma contra-manifestação para o mesmo local, à mesma hora). No entanto, nas caixas de comentários os utilizadores insinuam que o blogger, que justifica a decisão dizendo que “o objetivo do encontro não é encontrarmo-nos com mulheres feias”, estará apenas a distrair as atenções dos media para planear encontros mais secretos. O seu fórum também está, diz ele, em estado de emergência: “Não façam piadas sobre violações. O mundo está a olhar para nós. Não digam nada que prejudique a nossa imagem”.

"Tornaram-me o homem mais odiado do mundo"

No sábado, falando aos jornalistas num hotel de Washington onde supostamente decorria um dos encontros, Roosh V rejeitou ser pró-violação: "O mundo enloqueceu" por causa de uma "happy hour social", disse, citado pelo "Washington Times". Sobre o seu post mais polémico, o blogger explicou: "O objetivo do artigo era falar de responsabilidade - a segurança das mulheres não está apenas nas mãos dos homens, mas nas suas também".

No artigo, ao qual entretanto foi acrescentada uma introdução que fala de uma "experiência satírica", o blogger argumenta: "Quando tentamos ensinar os homens a não violar, o que estamos a fazer é ensinar as mulheres a não se importarem se são violadas ou não, a não se protegerem e a não assumirem responsabilidade pelos seus atos. Ao mesmo tempo, não hesitamos ao culpar os homens pelas coisas más que lhes acontecem. (...) Pensei neste problema e estou certo de que tenho a solução: legalizem a violação em propriedades privadas".

Na mesma conferência, e depois de alguma hesitação ao tentar justificar o célebre post ("se eu comprar um BMW, deixar as chaves lá dentro e o estacionar numa zona duvidosa, de quem é a culpa?", comparou), Roosh V argumentou que os grandes media não deram cobertura aos incidentes de Colónia na passagem de ano - "quando uma violação real acontece, eles encobrem-na" - e declarou que se identifica com as ideias de Donald Trump. Ainda houve tempo para se queixar dos media: "Tornaram-me o homem mais odiado do mundo".

Os escândalos que Roosh V provoca já resultaram em muitas ameaças de morte e em reações que chegaram até ao grupo de piratas informáticos Anonymous, responsáveis pela divulgação do local onde o blogger vive. No entanto, as fotografias em que ele abre a porta à polícia, depois de ter feito queixa pelas ameaças de morte de que está a ser alvo, está a fazer as delícias da Internet: é que Roosh V vive na cave da casa da mãe.

O vídeo em baixo é apenas um exemplo dos muitos em que Roosh V ataca as mulheres que nasceram e cresceram, como ele, em países ocidentais, listando as razões para um homem não namorar com uma norte-americana. O primeiro motivo é “elas são gordas”, o último é que as mulheres “só inventam drama sem sentido nenhum”. Um resumo de toda a filosofia do blogger mais odiado do momento: