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“Não podem esperar que os pais aceitem que a sua filha bonita e feliz seja encontrada morta com uma bala no rosto”

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Foram duas décadas duras para Doreen e Desmond James. Disseram-lhes em 1995 que a filha, uma recruta militar, se tinha suicidado. Não acreditaram. Perderam quase todas as batalhas - até agora

Cheryl James era descrita pelos pais como uma jovem alegre, sorridente, feliz com a vida militar que escolhera levar. Recuando a 1995, Cheryl era uma recruta que estava a receber formação através da britânica Royal Logistical Corps. A 27 de novembro, pelas 8h30, Cheryl foi encontrada morta numa área de vegetação perto do quartel de Deepcut (Reino Unido), cujos portões deveria vigiar, sozinha e armada com um fuzil de assalto SA80.

O único tiro que provocou a morte da jovem, que contava então 18 anos, foi disparado entre o olho esquerdo e a cana de nariz de Cheryl. A polícia do Surrey tomou a decisão imediata de entregar o caso ao ramo de investigação da polícia militar. Três semanas depois, o inquérito terminava com uma audiência de uma hora e uma certeza: Cheryl tinha-se suicidado.

Erros graves

Desmond e Doreen não ficaram convencidos com a conclusão da rápida investigação. Em 2004, nove anos depois do sucedido, a polícia do Surrey viu-se obrigada a reabrir a investigação, concluindo depois que não teria havido terceiros envolvidos na morte de Cheryl. No entanto, as polícias de Devon e Cornwall contrariaram a conclusão, dizendo que haveria uma inclinação dos agentes do Surrey para arrumar o caso e corroborar a tese do suicídio.

Com as forças renovadas, os pais de Cheryl insistiram, pedindo à polícia do Surrey que cedesse as provas do caso do alegado suicídio. Os agentes recusaram. Em 2006, suspeitas de que a morte, talvez um suicídio, tivesse sido motivada pelo mau tratamento dado aos jovens recrutas naquele quartel sobressaíram e os jornais fizeram capa com três mortes semelhantes ocorridas no mesmo local entre 1994 e 2002.

Em julho de 2014, um tribunal superior confirmou as suspeitas dos pais de Cheryl: a investigação da polícia militar fora "extremamente limitada, com erros graves". Em agosto desse ano, o corpo de Cheryl foi exumado para se proceder a novas análises balísticas. E é assim que, em 2016, um novo inquérito está finalmente decorrer para que as circunstâncias da morte de Cheryl sejam apuradas.

Provas que convinha esconder”

Desta vez, a polícia do Surrey foi mesmo obrigada a entregar as provas do caso, distribuídas por 90 pastas que continham desde fotografias a exames forenses. A advogada Alison Foster, que representa os pais de Cheryl, esclarece que "as novas provas esclarecem que o tiro que matou Cheryl pode ter sido disparado por outra pessoa", defendendo que, segundo o médico legista do novo inquérito, "o envolvimento de uma terceira pessoa na morte de Cheryl é mais do que especulação", cita o "Telegraph".

Para mais, numa novidade que bate certo com as suspeitas de maus tratamentos aos recrutas naqueles quartéis, levanta-se agora a suspeita de que Cheryl possa ter sido violada no dia anterior ao da sua morte.

A advogada Emma Norton, da organização de direitos humanos Liberty, diz ao "Guardian" que "os pais vão finalmente ter uma investigação independente sobre a morte da filha. Foi reconhecida a legitimidade das perguntas que fazem há 20 anos e que vão ser examinadas, esperamos, a fundo e de forma independente". A advogada critica a forma como o processo foi conduzido desde o início: "Não podem esperar que os pais aceitem que a sua filha bonita e feliz seja encontrada morta com uma bala no rosto e ouçam 'confiem em nós, é suicídio'".

Ao mesmo jornal britânico, Desmond James revela que a sua "família não conseguiria esta vitória sem a lei dos direitos humanos - deu-nos acesso a provas vitais sobre a morte de Cheryl, provas que convinha às autoridades esconder".