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Dezenas de milhares de refugiados que fogem de Alepo à espera que a Turquia abra a fronteira

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A fronteira turca continua fechada

Chris McGrath/Getty

União Europeia apela a Ancara para acolher os refugiados – ao mesmo tempo que exige à Turquia para fechar a sua fronteira Oeste

Dezenas de milhares de sírios - 35 mil, segundo o governador da província turca de Kilis, que faz fronteira com a Síria -, passaram mais uma noite ao relento, em abrigos ou tendas fornecidas pelas autoridades turcas, no lado sírio da fronteira, à espera de entrar na Turquia. E mais umas dezenas de milhares de refugiados estão na estrada a caminho da fronteira turca.

Esta nova vaga de refugiados foge de Alepo, depois da ofensiva das forças leais a Bashar-al Assad, apoiadas pela aviação russa, ter conquistado terreno à volta da maior cidade da Síria, outrora a capital comercial do país, e que estava parcialmente nas mãos da oposição desde 2012– sobretudo dos jiadistas da al-Nusra. O exército sírio, apoiado por milícias xiitas iranianas e do Afeganistão, conseguiu nos últimos dias cortar uma via de abastecimento vital que liga Alepo ao norte e à fronteira com a Turquia, cercando agora quase por completo a cidade. É pouco provável que as tropas de al-Assad tentem entrar no tecido urbano, mas deverão tentar asfixiar os rebeldes impondo um cerco rígido – temendo penúria, milhares de residentes fizeram-se à estrada.

A Turquia manteve desde o início da guerra uma política de portas abertas para os refugiados – alberga hoje mais de 2,5 milhões de sírios, sendo o país do mundo com o maior número de refugiados em todo o mundo, em termos absolutos. Mas na semana passada as autoridades de Ancara fecharam temporariamente os dois principais postos fronteiriços a norte de Alepo por motivos de segurança.

Ontem, no fim da reuniao informal dos ministros dos estrangeiros da UE, Johannes Hahn, o Commisário Europeu para o alargamento, exortou as autoridades turcas para “deixar entrar os refugiados, ao abrigo da Convenção de Genebra”. Um pedido irónico, já que a mesma UE pede a Ancara para tentar controlar o êxodo de refugiados para a Grécia, e acordou com a Turquia, contra um avultado pacote financeiro (€3 mil milhões), e um reavivar do processo de adesão da Turquia à UE, um plano de ação que prevê a criação de condições para os sírios permanecerem em território turco, bem como um controlo mais rígido da fronteira marítima com a Grécia, a principal porta de entrada de migrantes no espaço europeu.

A batalha de Alepo

A batalha de Alepo, como já é chamada, pode ser decisiva para o futuro da Síria – mas também da Europa. A entrada da Rússia na guerra no fim de setembro passado veio baralhar por completo a dinâmica do conflito, dando uma vantagem no terreno ao regime, ate aí numa posição frágil. Se al-Assad conseguir cercar Alepo, isso poderá significar o fim da oposicão apoiada pelo Ocidente, e dos grupos armados financiados pela Arábia Saudita e a Turquia, ficando o país basicamente dividido entre o regime, os curdos, e os jiadistas do Daesh.

Com o corredor para Alepo cortado, os curdos sírios poderão também tentar avançar para oeste do Rio Eufrates, para ligar o seu proto-Estado Rojava, reconquistado ao Daesh, a uma outra zona de maioria curda mais a Oeste (Efrin), desafiando a Turquia, que sempre disse que nunca o permitiria – Ancara teme a ressurgência do nacionalismo curdo numa altura que rava uma batalha com os separatistas do PKK no interior do seu próprio território.

Mas a Turquia é o elo mais fraco do conflito – sem capacidade de intervenção no país vizinho, devido à ameaça de retaliação de Moscovo depois do abate do jato russo sobre a Turquia em Novembro passado, Ancara está limitada a usar artilharia pesada junto à sua fronteira, com um alcance limitado.

A batalha de Alepo põe também a descoberto as fraquezas do Ocidente – e o ressurgimento de uma Rússia pronta a explorar as divisões na Europa. Apesar de alegar defender uma solução política para o conflito, Moscovo bombardeava a oposição Síria enquanto decorriam negociações em Genebra, levando ao seu colapso. Com a crise dos refugiados a dividir a Europa, esta nova vaga será mais um elemento de divisão na UE. Basta ver as bandeiras russas nos comícios do Pegida na Alemanha para saber quem beneficia com o ressurgimento da xenofobia e intolerância no continente europeu.

Com al-Assad à beira de ganhar a guerra, a situação ameaça ficar mais volátil. Os sauditas - e hoje os Emirados Árabes Unidos - confirmaram que estavam prontos a enviar tropas para a Síria. Washinton exige a Moscovo que pare com os bombardeamentos, enquanto os Europeus preparam-se para fechas as fronteiras – amanhã a chanceler Angela Merkel, cada vez mais fragilizada por causa da crise dos refugiados, estará em Ancara para discutir a questão.