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Que cidade apocalíptica é esta?

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Um vídeo realizado por um repórter de imagem da televisão estatal russa mostra os efeitos devastadores de uma guerra que se arrasta há cinco anos na Síria

Helena Bento

Jornalista

Mohamed Khalil Aldroubi, Samar Chehab Abdulkarim e os cinco filhos do casal - com idades entre os quatro e os 17 - chegaram ao Canadá em junho de 2015. Foram levados para Toronto, onde tinham à sua espera os responsáveis de uma agência que ficara encarregue de lhes arranjar uma casa. Para trás, ficavam os dias passados a evitar que eles ou seus filhos fossem atingidos por uma bala, que lhes rebentassem os tímpanos ou que a casa lhes caísse em cima. A evitar a morte. "As nossas crianças não iam à escola, porque era demasiado perigoso. Havia ataques, muitas pessoas foram mortas. Muitas mães eram muitas vezes forçadas a entrar em carros e raptadas mesmo em frente aos seus filhos", conta Samar Chehab Abdulkarim, 36 anos, numa entrevista ao "Toronto Star" publicada em novembro de 2015. "Eu sabia que se fugíssemos podíamos ser mortos, mas também sabia que se ficássemos iríamos morrer de certeza", acrescenta o marido.

Quando a vizinha do andar de cima caiu prostrada no chão da sua cozinha ao ser atingida por uma bala, os dois perceberam que estava na altura de partir. Fizeram as malas e alugaram um táxi, que os levou até à fronteira com o Líbano. A viagem de três horas custou-lhes um mês de ordenado. "Eu sabia o quão perigosa era a viagem e tentei que a minha esposa e os meus filhos não percebessem isso. Mas o perigo não era segredo, nem mesmo para uma criança", conta Mohamed Khalil Aldroubi. No Líbano, viveram durante algum tempo, mas as condições de vida eram muito precárias. Os invernos eram insuportáveis. Foi então que tentaram abandonar o país. A saúde frágil de Aldroubi garantiu-lhes em pouco tempo um lugar seguro no Canadá.

Mohamed Khalil Aldroubi e Samar Chehab Abdulkarim viviam em Homs, que antes da guerra civil era a terceira maior cidade da Síria, tendo-se tornado nos últimos anos uma cidade feia e caquética, em ruína, cenário de filme apocalíptico. É precisamente isso que vemos no vídeo divulgado recentemente pelo Channel 4 britânico. Realizado por Alexander Pushin, repórter de imagem da televisão estatal russa, o vídeo, com imagens captadas através de um drone, mostra os efeitos devastadores de uma guerra que se arrasta há cinco anos.

Estas imagens chegam-nos um dia depois de dezenas de países se terem comprometido a doar quantias recorde aos refugiados sírios (o Reino Unido prometeu doar o dobro do que tinha prometido, a Alemanha comprometeu-se a desbloquear verbas e os Estados Unidos anunciaram um reforço do montante previsto para este ano). Mas chegam-nos também na altura em que as negociações para a paz na Síria foram suspensas por não se ter chegado a um entendimento entre as forças da oposição, que exigem o fim dos bombardeamentos e a entrada de ajuda humanitária nas cidades cercadas da Síria, e o governo do Presidente sírio Bashar-al-Assad, responsável pela morte de 180879 civis na Síria, ou seja, 95,96% do total das mortes registadas entre março de 2011 e outubro de 2015 (1,42% das mortes foram atribuídas aos grupos da oposição e 0,91% ao autoproclamado Estado Islâmico), segundo um relatório da Rede Síria para os Direitos Humanos (SNHR, na sigla em inglês).

Quando em março de 2011 a população de Homs saiu à rua protestando contra o regime inaugurado por Hafez al-Assad (pai) e continuado por Bashar al-Assad (filho), seguindo o exemplo dos que se manifestavam na cidade de Dara, no sudoeste do país, Homs ganhou a alcunha de "capital da revolução". Mas o governo sírio, aterrorizado com a possibilidade de vir a perder o controlo sobre a população, começou a reprimir os protestos e a polícia a responder com violência, não poupando ninguém.

Em maio de 2011, o governo enviou tanques para as ruas em Homs, e os apoiantes da oposição começaram a pegar em armas e a atacar as forças leais a Bashar al-assad. "Homs é a cidade em que as pessoas simplesmente não desistem. Tornou-se simbólica. As pessoas chegaram com tendas e sandes e preparam-se para enfrentar o gás lacrimogéno, e foram arrasadas pelas balas", dizia uma analista do instituto britânico Chatham House em 2012 à BBC. Homs foi tomada pelas forças da oposição ainda em 2011, mas entre 2012 e 2013 o regime lançou várias ofensivas contra a cidade e conseguiu recuperar grande parte dos territórios controlados pelos rebeldes, consolidando o seu controlo sobre a faixa de território que se estende entre a capital, Damasco, e as montanhas na costa mediterrânea.

Hoje, uma parte significativa do território de Homs, onde chegaram a viver, antes da guerra, cerca de 1,5 milhões de pessoas, não é mais do que uma pedaço de terra abandonado. Muitos habitantes deixaram as suas casas e encontram-se agora ou a caminho de melhores condições de vida na Europa e nos EUA ou abandonados à sua sorte nas centenas de campos de refugiados que foram nascendo em países vizinhos. Alguns, poucos, podem dizer que já assistiram a um milagre, como o milagre de serem bem recebidos noutros países. Muitos morreram e outros tantos vão acabar por morrer. É que a guerra na Síria, que tem vindo a afetar o equilíbrio precário do mundo, está longe de ter chegado ao fim.