Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Líderes mundiais prometem milhões aos refugiados sírios

  • 333

ANDY RAIN/EPA

Reino Unido vai doar o dobro do que tinha prometido, Noruega e a Alemanha vão desbloquear verbas, Estados Unidos anunciam reforço. Portugal também vai contribuir

Helena Bento

texto

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

infografia

Infografia

Os líderes mundiais reunidos esta quinta-feira em Londres, na tão aguardada conferência de apoio à Síria, comprometeram-se a doar quantias assinaláveis aos refugiados sírios. O primeiro ministro-britânico, David Cameron, anunciou que o Reino Unido vai mesmo duplicar, para três mil milhões de euros, o montante previsto para os próximos cinco anos. Até 2018, Noruega e Alemanha comprometeram-se a doar, respetivamente, 1500 e 2300 milhões de euros, e os Estados Unidos - o maior contribuinte - anunciaram um reforço de 890 milhões de dólares (812 milhões de euros). Portugal vai avançar com 25 milhões ao longo dos próximos dois anos.

As quantias que os países se comprometeram a doar são um indício de que este ano não se repetirá o cenário de 2015, quando a ONU foi obrigada a reduzir os programa de ajuda por ter recebido menos de metade do montante que precisava para ajudar a população síria. Para 2016, as Nações Unidas pediram cerca de oito mil milhões de doláres (7200 milhões de euros), a que se somam mais 1200 milhões para financiar os planos nacionais dos países na região.

A conferência em Londres acontece um dia depois de terem sido suspensas as negociações em Genebra sobre o conflito sírio. Foi Staffan de Mistura, o enviado das Nações Unidas para a Síria, que anunciou que as negociações só serão retomadas a 25 de fevereiro, dia em que espera já ter chegado a um entendimento com os representantes da oposição síria, que recusam estar presentes nas negociações enquanto não virem uma resposta suficientemente esclarecedora às exigências que têm feito. Esta é mais uma prova de que processo de paz para a Síria permanece numa encruzilhada da qual ninguém parece ver uma saída. Não querendo denunciar ponta de pessimismo, Staffan de Mistura optou por dizer apenas que ainda havia "trabalho a fazer" entre a oposição e o regime do Presidente sírio Bashar Al-Assad.

Os recentes avanços do Exército sírio, apoiado pelos mais "intensos" bombardeamentos russos de que há registo até à data, veio alargar ainda mais o fosso entre as duas partes e aumentar as reservas da oposição síria em participar em quaisquer negociações que não assegurem à priori o fim dos bombardeamentos e a entrada de ajuda humanitária nas zonas cercadas da Síria - Madaya, de que tanto se falou nas últimas semanas, acaba por ser apenas uma das várias cidades sírias onde a população enfrenta problemas tão gravíssimos quanto a falta de cuidados de saúde e comida.

Durante a conferência em Londres, o Presidente turco Ahmet Davutoğlu trouxe à baila a questão dos bombardeamentos russos e dirigiu fortes críticas à Rússia, que acusa de ser responsável pela mais recente chegada em massa de refugiados à fronteira da Turquia. "Dez mil novos refugiados estão às portas [da província] de Kilis por causa dos bombardeamentos russos e ataques na cidade de Aleppo", disse o Presidente turco, citado pelo "Guardian". "A minha cabeça não está em Londres, mas sim na nossa fronteira. Como é que vamos realojar estas pessoas que chegam da Síria?", questionou Ahmet Davutoğlu, dando a entender que o seu país se encontra de mãos atadas.

Segundo números do Observatório Sírio para os Direitos Humanos divulgados no sábado passado, dia 30 de janeiro, em quatro meses de bombardeamentos russos - que já ninguém tem dúvidas de que têm atingido sobretudo, senão na totalidade, os inimigos de Bashar Al-Assad - morreram cerca de 1400 civis.Também o rei Abdullah, da Jordânia, deu a entender que o seu país não pode fazer muito mais pelos refugiados sírios. "Olhando o meu povo nos olhos, posso dizer-vos que chegámos ao nosso limite", disse Abdullah. É na Jordânia, Líbano e Turquia que vive a maior parte dos refugiados sírios. Só na Jordânia são entre 630 mil a 1, 27 milhões (as estimativas variam). Atendendo a isto, Londres e Berlim propuseram durante a conferência a criação de "zonas económicas especiais" na Jordânia. A ideia tinha já sido abordado pelo próprio rei, que afirmou que poderia eventualmente facilitar o acesso a trabalho legal a cerca de 150 mil sírios, que seriam reconduzidos para as tais zonas económicas. Aí, as empresas podem vir a beneficiar de taxas reduzidas nas suas exportações para a Europa, em troca da garantia de que 50 a 70% dos empregos são atribuídos a sírios e os restantes aos jordanos.

Na conferência em Londres esteve também presente o ministro dos Negócios estrangeiros iraniano, a convite de David Cameron. A sua presença foi muito criticada por vários grupos de ativistas. "O Irão foi convidado para a conferência enquanto continua a ser um dos principais causadores da crise humanitária brutal que afeta homens, mulheres e crianças na Síria", disse Salem al-Meslet, porta-voz de um dos grupos da oposição.