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Zika: Detetado caso de infeção por via sexual

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Larvas do mosquito aedes aegyti, que transmite o vírus

JUAN CARLOS ULATE / Reuters

O paciente não viajou e manteve relações sexuais com uma pessoa que regressou há poucos dias de um dos países onde o Zika está presente

Os Serviços de Saúde Pública e Humanitária de Dallas, no estado norte-americano do Texas, reportaram esta terça-feira um caso de um paciente diagnosticado com Zika, depois de ter mantido relações sexuais com um parceiro que regressara há pouco tempo da Venezuela.

“Recebemos a confirmação por parte do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) do primeiro caso de transmissão de vírus Zika por via sexual em 2016, em Dallas. O paciente foi infetado com o vírus depois de ter relações sexuais com uma pessoa infetada, que tinha chegada há pouco tempo de um dos países onde o Zika está presente. Por razões de confidencialidade e privacidade, não será divulgada nenhuma informação de identificação”, lê-se no comunicado das autoridades de saúde pública de Dallas, publicado pela CNN.

Ainda que os especialistas e as organizações mundiais digam que a possibilidade de o vírus se transmitir pela via sexual está a ser investigada, os Serviços de Saúde Pública e Humanitária de Dallas (DCHHS) são perentórios: “O Zika é transmitido para as pessoas através da picada do mosquito ou pela atividade sexual”.

A confirmar-se, este poderá ser mais um caso em que a transmissão sexual é atribuída como meio de propagação do Zika. Em 2013, a possibilidade já tinha sido levantada (nunca confirmada ou oficializada), após as análises ao sémen e à urina de um homem de 44 anos assinalarem a presença do vírus, enquanto as análises ao sangue terem dado resultado negativo.

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Que vírus é este?

O vírus é transmitido pela picada de mosquitos da espécie Aedes Aegypti, a mesma associada à propagação de outras doenças tropicais, como o dengue ou febre amarela. Começou por ser identificado em macacos, em 1947, na floresta zika (Uganda), daí o seu nome. O primeiro caso em humanos foi detetado também no Uganda e na Tanzânia, em 1952, mas a relativa pouca frequência dos surtos justifica que se saiba pouco sobre o zika. Atualmente, com mais de 20 países afetados, sobretudo na América Latina, a Organização Mundial de Saúde (OMS) está a levar a ameaça mais a sério e já alertou para o facto de o vírus se estar a propagar de forma “explosiva” no continente americano. As previsões são assustadoras: entre 3 a 4 milhões de casos no mundo em 2016.

Larvas do mosquito Aedes Aegypti, cuja picada transmite o vírus

Larvas do mosquito Aedes Aegypti, cuja picada transmite o vírus

JUAN CARLOS ULATE/REUTERS

Como se propaga?

O zika não é transmitido de pessoa para pessoa. Está no entanto a ser avaliada a possibilidade de este se transmitir através de transfusão sanguínea e por via sexual, depois de casos - por enquanto isolados - o parecerem indicar. A quantidade de casos de bebés nascidos com microcefalia no Brasil sugere também a possibilidade de haver transmissão entre uma mãe infetada e o feto, algo ainda a ser investigado.

A proximidade de dois grandes eventos no Brasil, o Carnaval e a realização dos Jogos Olímpicos, aumenta a preocupação, pelo risco de propagação da epidemia

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GETTY IMAGES

Há razão para alarme?

As mulheres grávidas constituem a maior preocupação, pelo facto de no Brasil o surto de zika ter coincidido com o aumento do número de casos de bebés nascidos com microcefalia - uma malformação congénita que impede o normal desenvolvimento do cérebro e que, muitas vezes, se revela fatal. A relação entre as duas situações não está provada, mas ainda que não exista uma explicação para o facto - que está a ser estudado -, as autoridades sanitárias brasileiras ficaram alerta ao registarem mais de 3800 casos de microcefalia desde outubro (em 2014 o número de casos ficou-se pelos 150). O primeiro trimestre de gravidez parece ser o período mais crítico. Em surtos anteriores, nomeadamente na Polinésia francesa, em 2013, foram também detetados casos de doentes com potenciais complicações neurológicas e autoimunes, refere a OMS

Em Manágua, uma mulher cobre o rosto com uma toalha para se proteger. A doença não se contagia entre humanos, mas há casos que levantam dúvidas quanto à possibilidade real de o vírus poder ser transmitido por via sexual ou sanguínea

Em Manágua, uma mulher cobre o rosto com uma toalha para se proteger. A doença não se contagia entre humanos, mas há casos que levantam dúvidas quanto à possibilidade real de o vírus poder ser transmitido por via sexual ou sanguínea

INTI OCON/GETTY IMAGES

Quais os sintomas?

Não se sabe ao certo, mas o período de incubação - o tempo decorrido entre a picada e a aparição dos sintomas - parece não ir além de poucos dias. Os especialistas acreditam que a maioria das pessoas infetadas não chega a adoecer, mas mesmo no caso das que ficam doentes, os sintomas são ligeiros: febre baixa, erupção cutânea, dores de cabeça e nas articulações, podendo surgir também conjuntivite. Geralmente, as queixas desaparecem ao fim de uma semana. Os peritos da Direção-Geral da Saúde acrescentam que “há suspeitas (ainda não inteiramente comprovadas) de que a doença possa provocar alterações fetais durante a gravidez, em particular microcefalia”. E este é o caso, para já, que mais preocupa.

Não há vacina contra o zika, nem tratamento específico. Muitos dos infetados não chegam sequer a apresentar sintomas

Não há vacina contra o zika, nem tratamento específico. Muitos dos infetados não chegam sequer a apresentar sintomas

JOSE CABEZAS/REUTERS

Qual o tratamento? Como prevenir?

Não há um tratamento específico. Geralmente basta que os doentes se mantenham em repouso, tenham o cuidado de beber líquidos e recorram a analgésicos comuns para a dor. Como até ao momento não existe vacina, os especialistas sublinham que prevenir é mesmo o melhor remédio. Além da utilização de repelentes, é recomendado o uso de roupas claras, com mangas compridas e calças largas - sobretudo durante o dia, quando os mosquitos estão mais ativos -, devem manter-se fechadas portas e janelas ou, em alternativa, cobri-las com redes mosquiteiras, assim como as camas. Deve ainda dar-se atenção a todo o tipo de utensílios ou recipientes onde se possa acumular água, limpando-os, já que a as águas paradas são potenciais ‘incubadoras’ onde os mosquitos depositam os seus ovos. No caso das mulheres grávidas, as autoridades recomendam que não viajem para os países afetados.

Os seis casos diagnosticados até agora em Portugal foram “importados”. O ministro da Saúde diz que a situação está controlada

Os seis casos diagnosticados até agora em Portugal foram “importados”. O ministro da Saúde diz que a situação está controlada

DENIS BALIBOUSE/REUTERS

Qual o risco em Portugal?

Até agora foram diagnosticados seis casos em Portugal, todos ‘importados’. Cinco dos doentes contraíram o vírus no Brasil, enquanto o caso mais recente é o de um jovem médico recentemente regressado de umas férias na Colômbia. Em comunicado, a Direção-Geral da Saúde sublinha que “a infeção é devida a picada de mosquito do género Aedes que desde há muito não existe no continente português”, acrescentando que “uma vez que, em regra, a doença não se transmite de pessoa a pessoa”, não haverá “risco de formação de cadeias de transmissão”. A principal recomendação é dirigida a mulheres grávidas, que são aconselhadas a não viajar para os países afetados. Caso tenham mesmo de o fazer, a DGS aconselha que se informem numa Consulta do Viajante, devendo, por outro lado, as grávidas que tenham permanecido em áreas atingidas pelo surto “consultar o médico de família ou o obstetra após o regresso, mencionando a viagem”.

Sessão de informação sobre o zika num aeroporto chileno. Enquanto os cientistas investigam, pressionados pela urgência, as autoridades sanitárias tentam passar as recomendações necessárias para garantir a prevenção

Sessão de informação sobre o zika num aeroporto chileno. Enquanto os cientistas investigam, pressionados pela urgência, as autoridades sanitárias tentam passar as recomendações necessárias para garantir a prevenção

IVAN ALVARADO

O que está a ser feito?

Sem vacina conhecida para combater o vírus e com a certeza de que sabem ainda muito pouco sobre ele, o principal desafio para os cientistas é alcançar respostas rapidamente enquanto as autoridades sanitárias lutam para controlar o mosquito Aedes. A tarefa é difícil. Extremamente adaptado aos ambientes urbanos, as fêmeas desta espécie aprenderam a colocar ovos apenas em ambientes artificiais que retêm água e esses ovos adquiriam uma resistência incomum, capazes de sobreviver até dois anos, mesmo sem água. Os mosquitos são igualmente resistentes a muitos inseticidas e repelentes. Em Genebra, os especialistas da Organização Mundial de Saúde vão na próxima semana reunir os dados científicos disponíveis e aconselhar-se com os peritos para delinear prioridades na investigação. Quanto ao vírus zika propriamente dito, por enquanto os pesquisadores acreditam que exista apenas um tipo, incapaz de sofrer muitas mutações. A ser assim, explica um artigo da “Veja”, após a primeira picada, o indivíduo ganharia anticorpos, ficando a salvo de uma segunda infeção, o que significaria luz verde para os especialistas avançarem para o próximo passo - ou seja, descobrir quais os anticorpos que o microrganismo provoca ao entrar no organismo. “A partir daí será possível criar um exame para detetar a presença do vírus, saber o número exato de infetados e, possivelmente, dar início aos estudos para a criação de uma vacina”. Não é tudo. Neste combate, também é essencial decifrar ao pormenor a genética do zika.