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Internacional

Em Flint, funcionários recebiam água limpa enquanto população era envenenada

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Bill Pugliano

Autarca da cidade do estado norte-americano Michigan ordenou que todos os canos do sistema central de distribuição de água sejam substituídos, sem reagir às acusações do grupo Progress Michigan

Karen Weaver continua em silêncio desde que, há alguns dias, foi denunciado que as autoridades de Flint, a cidade norte-americana do estado do Michigan de que é autarca, afinal sempre souberam que a água distribuída na cidade estava contaminada com altos níveis de chumbo.

Sem fazer referência a isso, Weaver ordenou esta quarta-feira que todos os canos do sistema de distribuição de água potável sejam substituídos, num esforço de enormes proporções para limpar a rede. Não avançou os custos da operação nem como pretende encontrar os fundos necessários para a levar a cabo. Em vez disso, deu apenas o exemplo prático da cidade vizinha de Lansing, que nos últimos 11 anos investiu 42 milhões de dólares (28,5 milhões de euros) — sobretudo provenientes do aumento dos impostos sobre o preço da água na cidade — para substituir os 13.500 canais de distribuição de água potável.

Apesar da grave crise da água em Flint ter começado em abril de 2014, só a 5 de janeiro deste ano é que a autarquia assumiu que a água consumida pelos habitantes era altamente tóxica, devido à estratégia de poupança implementada pelo governador do Michigan na cidade ao longo de ano e meio.

Por causa dos problemas financeiros em Flint, Rick Snyder colocou a cidade sob controlo de um gestor nomeado pelo seu gabinete e responsável por cortar na despesa pública e reduzir o défice autárquico. Dado que o município era o que mais pagava pelo consumo de água em todo o estado, o gestor em questão ordenou que o sistema de distribuição ligado a Detroit, a cerca de 100 quilómetros de Flint, fosse desligado, passando a abastecer a cidade com água do poluído rio com o mesmo nome, alvo de descargas tóxicas pelo sector industrial ao longo de vários anos.

Altamente corrosiva, as águas fluviais começaram a destruir os canos da cidade, lançando na água canalizada quantidades altamente tóxicas de chumbo. Em setembro, e perante o amontoar de queixas dos residentes de Flint, ao notarem que o líquido que saía das torneiras era castanho e espesso, cientistas da universidade Virginia Tech detetaram que a água distribuída tinha tanto chumbo que já não era água, era lixo tóxico.

Sob duras acusações de má gestão governativa, tanto Snyder como Weaver têm defendido que fizeram o que podiam para proteger a população de Flint — que nos últimos dois anos consumiu água tóxica com riscos graves para a saúde. Desde que o caso foi denunciado, após terem sido detetados altos níveis de chumbo no sangue de algumas crianças, o sistema de abastecimento ligado a Detroit foi retomado e os 100 mil habitantes de Flint receberam água engarrafada para consumo até que o problema seja resolvido. Mas ao que parece, desde pelo menos 2015 que funcionários autárquicos e estatais a viver em Flint já recebiam grandes quantidades de água engarrafada, enquanto era dito à população queixosa que a água castanha a sair das torneiras não representava quaisquer riscos, como foi denunciado há alguns dias pela organização sem fins lucrativos Progress Michigan.

O caso levou o governador Snyder a declarar estado de emergência em Flint no início deste ano- E o Presidente Barack Obama ordenpu logo a seguir o envolvimento das autoridades federais na investigação do escândalo. O envenenamento por chumbo leva à redução do quociente de inteligência entre os mais novos, e Flint é uma cidade onde as crianças já sofrem com os altos índices de pobreza e lutas entre gangues locais.