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As caras das mulheres que são tratadas como cadáveres vivos

Karishma engravidou aos nove anos, depois de ter sido violada. Foi expulsa de casa pela própria mãe. É um dos casos de coragem e horror relatados pela fotógrafa indiana Smita Sharma, empenhada em denunciar a alarmante violência de género na Índia

“A violação mata uma mulher física e emocionalmente.” É por isso que interessa continuar a tentar dar-lhes vida, encontrar-lhes um sentido. Na Índia, onde no ano passado aconteceu uma violação a cada 20 minutos, isto é particularmente fundamental, porque ali estas sobreviventes “são tratadas como cadáveres vivos, humilhadas e ostracizadas para toda a vida”.

As palavras são de Smita Sharma, que acompanha a vida destas mulheres, que as fotografa e descobre as histórias de traumas e abusos que carregam consigo. Sharma é uma fotógrafa freelancer indiana e dedica-se com especial empenho a trabalhos no âmbito da violência de género, um tema demasiado atual naquele país. Percorrendo a Índia em busca destas histórias, a fotógrafa guarda os rostos das vítimas e acrescenta-lhes de forma crua linhas que explicam as suas expressões duras, por vezes vazias.

Percorrendo o website da fotógrafa, chegamos à fotogaleria “Crónicas de Coragem” e torna-se difícil escolher casos para contar. As idades das sobreviventes são reveladas em números demasiado pequenos: 12, 10, 9 anos. Os nomes estão escondidos por pseudónimos mas as caras, novas mas já visivelmente marcadas, estão expostas. As histórias são diversas: têm o horror - e a coragem - em comum.

Pinky, que tem apenas 12 anos e um olhar duro, foi convidada para visitar a casa de uma vizinha. Quando chegou, esta amordaçou-a e entregou-a ao seu cunhado. Depois de a ter violado, o homem tentou silenciá-la. Uma semana depois do sucedido, Pinky contou tudo aos seus pais, que levaram o caso à polícia.

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O caso de Manali, 13 anos, retrata a forma como o poder financeiro se pode sobrepor aos direitos que a todos parecem evidentes. Depois de ter sido raptada e violada por um homem da comunidade Yadav que era influente na esfera financeira, Manali conseguiu fugir - a intenção do violador era vendê-la a uma casa de prostituição - e denunciar o incidente. Mas as consequências não foram as esperadas: a polícia deteve a rapariga durante 12 dias para tentar intimidá-la e forçá-la a retirar a queixa.

Rithika encarou obstáculos semelhantes quando tentou contar o que lhe aconteceu. Tem agora 15 anos, mas em 2011, com apenas 11, foi violada por um homem quando foi a uma floresta perto da sua vila para defecar, uma vez que em sua casa não há uma casa de banho (uma situação comum a 60% das habitações rurais na Índia). A sua mãe encontrou-a a sangrar e levou-a ao posto da polícia mais próximo, mas as autoridades recusaram-se a aceitar a queixa. Atualmente, Rithika sofre de stress pós-traumático e deixou de falar.

Por vezes, nem a família apoia estas vítimas. Como no caso de Kalpana, de 17 anos, que engravidou depois de ter sido violada, em 2008 (era uma menina de 10 anos), e como consequência foi expulsa de casa pela própria mãe. Shabina, de 20 anos - violada quando tinha 12 - foi forçada pela família e vizinhos a casar com o violador, mas este recusou reconhecê-la como sua mulher.

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Estes casos impressionam, mas estão longe de ser únicos e representam apenas algumas das mulheres que chegam a denunciar o abuso que sofreram. Por isso, Smita - que também sobreviveu a abusos sexuais no passado - decidiu começar uma campanha de crowdfunding para pedir doações e continuar a revelar as caras e histórias destas mulheres. No vídeo em baixo, a fotógrafa explica os moldes do projeto e dá voz a quem não a costuma ter - e como resultado ouvimos em primeira mão frases como “a minha mãe e as minhas irmãs disseram-me para casar com o violador” ou “ele tentou sufocar-me com o gás da cozinha”.

É importante lembrar que estas histórias de horror não estão isoladas nem na galeria de Sharma nem naquele país – e os casos não acontecem só nas zonas mais pobres ou rurais. Só no ano passado, em Nova Deli foram registados 5192 denúncias por abusos sexuais e 1444 casos de assédio. A cada quatro horas, há uma violação naquela cidade. A cada 20 minutos, há uma violação na Índia.