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Internacional

Parece que a América tem uma nova tradição

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Scott Olson

As primárias para a sucessão de Obama tiveram um episódio relevante esta madrugada (hora portuguesa). Aconteceu no Iowa, estado premonitório do que costuma acontecer aos candidatos

Quando, no início de 2012, os candidatos republicanos se preparavam para o caucus do Iowa — a primeira votação nas primárias norte-americanas que antecederam umas presidenciais ganhas à partida pelo presidente em funções, o democrata Barack Obama — as sondagens previam uma vitória muito clara. Mas o que aconteceu então, como tem acontecido quase sempre em anos de presidenciais, foi um volte-face que começa a ser tradição — cumprida esta madrugada no primeiro estado a escolher os delegados que, na convenção nacional de cada partido, nomearão o seu candidato às eleições de 8 de novembro.

Há quatro anos, Rick Santorum aparecia em 3.º lugar nas sondagens do caucus republicano, atrás de Mitt Romney e do libertário Rand Paul. Acabou por sair vitorioso nessa primeira etapa, o que não significou a sua eventual nomeação; foi Romney quem disputou a presidência com Obama em novembro. Este ano a história repetiu-se: Donald Trump aparecia com um avanço relativamente confortável sobre Ted Cruz, com 27% das intenções de voto contra 24% para o evangélico do Tea Party e 17% para o senador pela Florida Marco Rubio. Acabou por ser Cruz a alcançar a primeira vitória na rota para as presidenciais 2016, com Rubio a ficar colocado muito perto de Trump, com menos 1% de votos que o milionário.

Com a aproximação das primárias do New Hampshire, o próximo combate presidencial com data marcada para 9 de fevereiro, institutos de sondagens e analistas concentram-se agora na antevisão de vencedores e vencidos. Mas também aí as cartas podem ser baralhadas e redistribuídas. Apesar de em 2012 o candidato que surgia à frente nas sondagens do New Hampshire ter firmado essa vitória (falamos de Romney), o mesmo não aconteceu quatro anos antes, quando Romney liderou os inquéritos de opinião até poucos dias antes da votação no estado, onde acabaria por perder para o senador John McCain — o homem que acabou por disputar a presidência com Barack Obama.

Neste momento, com a votação no Iowa encerrada e a uma semana do próximo ato eleitoral, Bernie Sanders continua à frente de Hillary nas sondagens de New Hampshire, angariando 55% das intenções de votos contra 38% para a ex-secretária de Estado. Clinton e os seus chefes de campanha julgaram que investir em força no Iowa seria suficiente para marginalizar o seu único verdadeiro rival (Martin O'Malley já anunciou a saída da corrida), mas os resultados do caucus desta madrugada trocaram-lhe as voltas, mostrando um empate técnico entre ambos. O facto é que até uma semana antes da votação desta segunda-feira, a candidata democrata tinha garantida uma ligeira vantagem sobre Sanders e só nos últimos sete dias é que o senador pelo Vermont começou a igualar a rival.

Do lado republicano, Donald Trump aparece confortavelmente à frente dos concorrentes, mas tal como aconteceu no Iowa, onde perdeu para Cruz, as sondagens poderão sair defraudadas. De acordo com o último inquérito de opinião divulgado pelo "New York Times", Trump tem 35% das intenções em New Hampshire contra 11% para John Kasich e para Ted Cruz, empatados no segundo lugar, e 10% para Jeb Bush — do clã político Bush, que esteve desaparecido no caucus do Iowa.

Kasich e Bush optaram por abdicar do Iowa para se concentrarem na segunda etapa das primárias, chegando ao estado de New Hampshire na sexta à noite para uma semana intensiva de discursos e eventos para atrair votos. É possível que um ou os dois saiam melhor na fotografia do que as sondagens preveem.

Mas essa é uma jogada que não arriscamos, ao contrário de analistas como Cheri Jacobus, estratega de campanhas republicanas: "Depois do caucus [do Iowa] tudo muda, vamos ver Trump a cair a pique — a única coisa que ele faz é dizer que é um vencedor e falar mal de toda a gente. Perder no Iowa vai roubar-lhe vento sob as asas e é a isso que vamos assistir em New Hampshire", garante.

Antevisões

Um dos motivos que, a médio prazo, retiram importância aos resultados das primeiras duas etapas das primárias norte-americanas é o facto de ambos os estados serem pouco representativos da diversidade da população norte-americana. Se o Iowa é um estado tendencialmente conservador, com uma baixíssima percentagem de eleitores pertencentes a minorias — caso dos latinos que, do lado republicano, estarão mais inclinados a votar em Marco Rubio — o New Hampshire afigura-se como mais liberal mas ainda assim com um eleitorado pouco heterogéneo.

As últimas duas eleições presidenciais deixaram um claro aviso ao candidato republicano que é apoiado pela massa da Igreja Evangélica, um que os analistas destacam que pode repetir-se com Cruz. Tanto em 2008 como em 2012, respectivamente com Mike Huckabee e Santorum, ambos capitalizaram o largo apoio dos evangélicos no caucus do Iowa. Mas assim que chegaram a New Hampshire, onde a campanha concentrou menos esforços para dar tudo na primeira etapa, perderam os delegados do estado e, em última instância, não conseguiram a nomeação republicana.

A juntar a isto há o facto de New Hampshire ser menos conservador, o que poderá jogar a favor de Trump ou de Kasich, o homem que o "New York Times" considerou ser o "único candidato republicano plausível" desta corrida presidencial, que pode vir a roubar protagonismo ao milionário. "Kasich", explica Jacobus ao canal conservador Fox, "pode sair-se muito bem em New Hampshire. Tem mais experiência do que qualquer outro candidato republicano e vir do Ohio [estado de que foi governador desde 2010] torna-o valioso para as eleições gerais. É um outsider que está dentro do sistema a lutar contra o sistema."

Já do lado democrata, é mais difícil antever quem poderá ganhar em New Hampshire. Depois do empate técnico entre Clinton e Sanders esta madrugada, torna-se mais difícil fazer previsões certeiras e há quem diga que o facto de a ex-secretária de Estado não ter garantido uma vitória clara no Iowa poderá ditar a sua derrota final. "Desta vez, o Iowa é consequente e importante para os democratas", explica Simon Rosenberg, que trabalhou em duas campanhas presidenciais, incluindo na de Bill Clinton em 1992. Para Rosenberg, o facto de Sanders não só não ter perdido no Iowa como estar bem colocado a uma semana das primárias de New Hampshire eleva as suas hipóteses de ultrapassar Hillary em vários outros estados, sobretudo no Nevada e na Carolina do Sul, onde acontecem as primárias seguintes.

Mas isso não quer dizer que seja ele a conseguir a nomeação democrata na convenção do partido no verão. "Há uma série de estados muito distintos que vêm a seguir a New Hampshire e que serão os verdadeiros testes nacionais a Sanders", diz o analista. "Por isso, a liderança forte [do senador] não quer dizer que ele vá continuar na corrida."

Vantagem de Sanders sobre Clinton em New Hampshire pode não ditar vitória do candidato

Vantagem de Sanders sobre Clinton em New Hampshire pode não ditar vitória do candidato

Andrew Burton

Tradições e novidades

Nunca uma corrida presidencial nos Estados Unidos angariou tantos candidatos antissistema tão fortes e bem posicionados entre o eleitorado, quer do lado democrata, como é o caso de Bernie Sanders, quer do lado republicano, com o conservador Trump e o moderado Kasich. A nota inédita tem servido de rodapé a muitos artigos sobre as presidenciais 2016 desde o início das campanhas no ano passado. E a julgar pelos resultados do Iowa e as previsões para o New Hampshire, há outra tradição que poderá ser quebrada neste ano de eleições.

A Vox referia há poucos dias que, ao contrário do que tem acontecido desde 1972 — em que os candidatos que alcançaram a nomeação do seu partido ganharam sempre no caucus do Iowa e nas primárias de New Hampshire — este ano tanto democratas como republicanos poderão assistir a mais essa novidade. Em parte porque ainda há muito por decidir até os candidatos serem nomeados e, por outro lado, porque existe a séria possibilidade de cada partido optar por nomear um candidato menos votado mas mais alinhado com o sistema (escolher Cruz em detrimento de Trump ou Clinton em detrimento de Sanders).

Calendário das primárias

Estas são as próximas votações estatais, que em última instância levarão à nomeação de um candidato por partido para disputarem a presidência em novembro:

9 de fevereiro — New Hampshire, democratas e republicanas
20 de fevereiro — Nevada (democratas) e Carolina do Sul (republicanas)
23 de fevereiro — Nevada (republicanas)
27 de fevereiro — Carolina do Sul (democratas)

Outras datas a reter:

18 a 21 de julho — Convenção Nacional Republicana, em Cleveland, Ohio
25 a 28 de julho — Convenção Nacional Democrata, em Filadélfia, Pensilvânia
8 de novembro — Eleições presidenciais