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Primárias nos EUA. Onde pára Jeb Bush?

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RICK WILKING Reuters

Apesar de ter investido milhões de dólares no Iowa, o primeiro dos 50 estados norte-americanos a votar nas primárias, o irmão do ex-Presidente George W. Bush está longe do pódio republicano

Joana Azevedo Viana

Quando, em junho, Donald Trump subiu ao palanque montado à entrada da sua Trump Tower em Nova Iorque para anunciar que ia candidatar-se à presidência dos Estados Unidos, muitos, até entre declarados democratas, viraram as cabeças para Jeb Bush. O ex-governador da Florida, irmão de um ex-Presidente dos EUA e filho de outro antigo Presidente, parecia ter o caminho feito — e com Trump na fotografia, parecia ser o único capaz de salvar os EUA do "candidato do caos".

Desde a eleição de George W. Bush, o republicano que antecedeu Barack Obama na presidência, que uma piada faz as delícias de muitos dentro e fora de Washington DC: "Elegemos um Bush que veio de Yale mas que age como se viesse da Universidade do Texas, quando precisávamos do Bush que estudou na Universidade do Texas mas que age como se tivesse vindo de Yale." Esse Bush é Jeb, sempre tido como o mais atinado e brilhante dos filhos de George H. W. Bush, aquele que não tendo andado numa Ivy League (a nata da nata das universidades norte-americanas) punha o irmão de Yale a um canto.

Agora que finalmente chegara a sua vez de brilhar, depois da presidência desastrosa do irmão (2001-2009), todos os olhos estavam postos nele. Até que chegou Donald Trump, o multimilionário populista que subiu de arranha-céus em arranha-céus e de reality show em reality show até à derradeira demonstração de poder: a corrida à Casa Branca — uma corrida na qual, contra o que a maioria julgaria há pouco mais de meio ano, Trump está a destacar-se com notoriedade e, sobretudo, votos. As últimas sondagens de intenções de voto nos caucuses de hoje no Iowa são indicador disso mesmo — colocando Trump na liderança republicana, com 28%, seguido do evangelista Ted Cruz (23%) e do senador da Florida Marco Rubio (15%). Quanto a Jeb Bush, nem vê-lo.

Bush tentou apelar ao bom senso, chamando a Trump "o candidato que não pode ser levado a sério"

Bush tentou apelar ao bom senso, chamando a Trump "o candidato que não pode ser levado a sério"

DAVID BECKER / Reuters

Candidato (in)evitável

Se ao longo do último ano Hillary Clinton era dada como a provável candidata democrata às presidenciais de novembro — e ainda que com a aproximação das primárias e caucuses estatais Bernie Sanders esteja a aproximar-se dela o suficiente para levantar algumas dúvidas sobre a sua vitória pré-anunciada — Jeb Bush nunca foi tido como o candidato inevitável do partido republicano, ainda que muitos quisessem sonhá-lo.

Talvez Jeb tenha chegado na hora errada ou talvez não tenha tido o fulgor e a energia necessários para combater o extremo radicalismo do Grand Old Party (GOP), que tem vindo a acentuar-se desde o início do primeiro mandato do seu irmão George. O surgimento em força do Tea Party, a ala ultraconservadora do GOP, no Congresso norte-americano foi só o início. E se assim foi, o anúncio de Trump de que pretendia disputar a nomeação republicana foi o fim.

Quando Trump não está por perto, como aconteceu no último debate republicano antes dos caucuses desta segunda-feira no Iowa, Bush sai-se bem e consegue mostrar que, no baralho das aspirações republicanas presidenciais, é o que de mais próximo há do ás. Mas isso de pouco lhe vale numa altura em que os Estados Unidos enfrentam as eleições presidenciais mais imprevisíveis em décadas enquanto o país tenta manter-se ao leme da economia e da política mundial. Sobretudo considerando que, neste momento, mais valeria a Jeb estar do outro lado da barricada. O facto de ser publicamente anti-Tea Party e de defender a redução das desigualdades económicas e uma maior integração dos imigrantes que já vivem nos Estados Unidos valem-lhe acusações enfurecidas dos rivais do partido, que neste momento constituem uma massa ultraconservadora que vê na postura de Jeb uma tendência liberalista escabrosa e inaceitável.

Os caucuses de hoje no Iowa são apenas um primeiro passo num longo caminho que os candidatos terão de percorrer até um conseguir a nomeação presidencial do seu partido. Apesar de a população dos 99 condados do Iowa só representar menos de 1% da população total dos EUA, a vitória ou derrota nas primárias de hoje podem ditar a desistência de alguns ou, pelo contrário, a subida de popularidade de outros. Facto é que nunca um presidente eleito ficou fora do pódio do Iowa no arranque da fase de primárias. A manter-se a tradição, Jeb já ficou pelo caminho: na última sondagem antes das votações desta segunda-feira apareceu em 6.º lugar, atrás de Trump, Cruz, Rubio, do senador Ben Carson e do libertário Rand Paul.