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O espanhol e a italiana que puseram o filho nas bocas do mundo

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Ostana é uma pequena aldeia italiana entricheirada nos Alpes, virada para o turismo, que chegou a ter somente cinco residentes permanentes na década de 1980. Daí que o nascimento de Pablo tenha sido notícia em todo o mundo

Em Itália nascem poucos bebés, ainda menos do que em Portugal. E é por esta razão que a vinda ao mundo de Pablo Berdugo, a primeira criança a nascer em Ostana nos últtimos 28 anos, foi notícia em muitas parte do mundo. Em tudo o resto, o pequeno Pablo é um bebé igual a tantos outros que até berrou a plenos pulmões quando veio ao mundo.

Ostana é uma aldeia de montanha na região do Piemonte italiano, entricheirada nos Alpes entre as fronteiras da França com a Suíça. Esta simpática estância de férias para montanhistas e esquiadores fica a 75 km de Turim, a cidade da Fiat.

Um pequeno paraíso onde o trabalho escasseia para quem é da terra: no pico da estação turística, a aldeia do Cuneese [onde se fala um dialeto da língua piemontesa] tem 84 residentes, mas quando o trabalho nas estâncias turísticas diminui só ficam - segundo o jornal “La Stampa” - 41 resistentes.

Era assim até 22 de janeiro, dia em que tudo mudou com a vinda ao mundo de Pablo Berdugo, o 85º habitante da aldeia, filho de mãe italiana e pai espanhol, que por questões de saúde materno-infantil nasceu em Turim mas vai aprender a andar em Ostana.

Até Pablo nascer, nos últimos 28 anos nenhum casal em idade de procriar se tinha aventurado a ter filhos em Ostana e a aldeia é o exemplo paradigmático de uma Itália onde a taxa de mortalidade é maior do que a dos nascimentos, deixando antever um futuro sombrio para a segurança social.

Esta tendência de baixa natalidade atinge muitos países da Europa, mas sente-se muito mais nas zonas remotas do interior ou da montanha do que nas grandes cidades... onde há mais oportunidades de emprego e é mais fácil criar filhos.

O espanhol que casou com uma italiana e tinha um bilhete para a ilha da Reunião

Pablo é um bebé europeu, filho de um fisioterapeuta espanhol, Jose Berdugo, e de Silvia Rovere, uma italiana que trabalha na área do turismo. Os pais trocaram o calor da ilha da Reunião, um dos cinco departamentos ultramarinos franceses, pelos invernos rigorosos de Ostana, quando já tinham bilhetes de avião comprados para rumar ao Índico.

Há cinco anos, Silvia tinha 31 anos, estava grávida pela segunda vez. Pablo estava nos 36 e os dois deciram agarrar na pequena Clara [a mais velha dos três filhos] e tentar a sorte nos trópicos. Pouco antes de partir para a Reunião, Silvia, que nascera na região do Piemonte, soube que o refúgio de montanha de Ostana andava à procura de uma nova gestão.

Com a ajuda do marido, apresentou um projeto que foi selecionado e a ideia de ir para a Reunião caiu por terra.

Nos entretantos nasceu Alice, a segunda filha do casal, que se mudaria com as duas meninas para Ostana. Gostaram da aldeia e agora, em janeiro deste ano, aqui tiveram Pablo, o terceiro filho.

A aldeia chegou a ter apenas cinco habitantes

Ninguém melhor do que Giacomo Lombardo, o autarca de Ostana, para descrever o que a comunidade sentiu com o nascimento do bebé: “A chegada de Pablo é um sonho realizado ao fim de muito tempo. Na década de 1980, batemos no fundo e chegámos a ter apenas cinco habitantes permanentes. Há 100 anos eram mais de mil e depois da guerra cerca de 700”, disse Lombardo ao “La Stampa”.

O verdadeiro “declínio começou em 1975 - entre 1976 e 1987 só nasceram 17 crianças”. É por tudo isto que o nascimento do Pablo foi noticiado nos jornais italianos, espanhóis, chilenos, americanos, russos... ou seja, no mundo inteiro. Só não encontrámos nenhuma referência na ilha da Reunião.