Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Cometi um erro”: A história da primeira mulher britânica condenada por ligação ao Daesh

  • 333

Tareena Shakil voou com o filho de um ano para a Turquia. Atravessou a fronteira para a Síria. Ao fim de poucos meses quis regressar a casa, no Reino Unido. Assim que aterrou no aeroporto em Londres foi detida pelas autoridades, por suspeita de pertencer ao grupo radical islâmico. Agora foi condenada a seis anos de prisão. A imprensa britânica chama-lhe a “mãe jihadista”

Tareena Shakil, 26 anos, ouvia Spice Girls e gostava de reality shows. Dizem que era uma estudante bem sucedida e brilhante. Um dia, em meados de outubro de 2014, saiu de casa, com o argumento de que iria passar umas férias nas praias da Turquia. Levava o filho de um ano pela mão. As férias transformaram-se em meses e o destino foi afinal a Síria. Agora, Tareena Shakil está de volta ao país de origem, Reino Unido, mas assim que chegou foi detida por suspeita de pertencer ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e de encorajar atos terroristas. Esta segunda-feira, foi condenada a seis anos de prisão. O filho está aos cuidados dos serviços sociais.

“Radicalizou-se através de conteúdos online ainda antes de deixar o Reino Unido, em outubro de 2014. A nossa análise aponta para que ela não seja inocente e diz-nos que tinha claras intenções quando deixou o país, enviava tweets a encorajar os seus seguidores a cometerem atos de terrorismo por cá. E depois pegou no filho para se juntar ao Daesh na Síria”, disse Marcus Beale, responsável pela equipa antiterrorismo de West Midlands.

“Estava ciente do futuro que iria ter e que daria ao filho, que muito provavelmente seria doutrinado tornando-se um futuro combatente terrorista”, considerou o juiz Melbourne Inman, ao pronunciar o veredicto.

Esta é a primeira mulher britânica condenada por ligação ao grupo radical islâmico. No entanto, Tareena Shakil negou a acusação, dizendo que desejava viver segundo a lei islâmica mas que nunca se juntou ao Daesh. “Voltei por vontade própria. Regressei porque percebi que cometi um erro”, alegou.

À espera de encontrar um marido entre os combatentes

Recuemos até 20 outubro de 2014. Tareena Shakil tinha duas viagens marcadas para Turquia: uma em seu nome e outra para o filho, na altura com 14 meses. A jovem disse à família e aos amigos que iria de férias para fugir à chuva típica britânica e aproveitar o sol e as praias turcas.

Tal como tinha a ida marcada, Tareena também tinha a viagem de regresso ao Reino Unido reservada, embora as autoridades assegurem que voltar não estava nos planos. “Ela não iria voltar e a decisão [de ficar na Síria] não foi um impulso do momento”, disse um procurador, citado pelo jornal britânico “The Guardian”.

Já na Turquia, a “mãe jihadista” - como alguns órgãos de comunicação ingleses apelidaram Tareena Shaki - e o filho não ficaram ali. Continuaram caminho até a Gaziantep, uma cidade ainda em território turco mas muito próxima da fronteira (a cerca de 120 km de Alepo). Só na manhã seguinte chegariam à Síria - a 23 de outubro de 2014.

Começou por ser colocada por representantes do Daesh numa quinta com outras mulheres de França, Qatar, Trindade e Tobago e Filipinas. Mas as mudanças não acabaram. Tareena Shakil só depois chegou a Raqqa, a capital do autoproclamado califado. Aí, foi levada para uma mansão com outras mulheres solteiras. Segundo a acusação, estaria à espera de encontrar um marido entre os combatentes do grupo radical islâmico.

“Era a maior casa que alguma vez vi. Quando entrei vi mais de 30 mulheres que olhavam para mim como se fosse uma estranha. Uma mulher saudita, chamada Umm Khalid, desceu as escadas... nunca irei esquecer. Era como se fosse a rainha da casa e todos os outros uns servos. As pessoas levavam-lhe comida e faziam tudo o que mandava. Ela era malvada, cruel”, descreveu Tareena Shakil durante o julgamento, citada pelo “The Guardian”. “Obrigou-nos a entregar os telemóveis, os tablets e disse que era esperado que cumpríssemos os deveres das mulheres, tal como cozinhar e limpar”, acrescentou.

Ao longo das semanas que se seguiram, além da procura por um marido, a mulher britânica falava frequentemente com amigos e familiares que deixou no Reino Unido. Nas redes sociais partilhava imagens da sua nova vida. Dizia-lhes que estava instalada e feliz. Segundo o “The Guardian”, numa troca de mensagens via Whatshap com o pai, Tareena Shakil comentou que era livre de se ir embora a qualquer momento, mas não o queria fazer. “Quero morrer como um mártir”, escreveu.

“O mais alarmante é o facto de ter levando o filho com ela e a forma como foi usado. Foram tiradas fotografias abomináveis com a criança a usar uma balaclava com o símbolo do Daesh e há uma imagem em particular com o filho, uma criança pequena, ao lado de uma AK47 com o título em árabe que significa 'filho da jihad britânica'”, disse durante o julgamento o juiz.

Regressou a casa “por vontade própria” quando percebeu o “erro cometido”

As autoridades não percebem a razão, mas a 6 de janeiro de 2015, Tareena Shakil pegou no filho e fugiu por estrada até à Turquia. Entregou-se à policia turca, que a enviou de volta ao Reino Unido. Assim que colocou os pés em território de Sua Majestade, em fevereiro de 2015, a mulher foi detida e a criança entregue aos serviços sociais.

Logo nos primeiros interrogatórios a “mãe jihadista” contou ter sido raptada, mas que tinha conseguido escapar. A polícia e a brigada antiterrorista não acreditaram na história. Tareena Shakil negou tudo: o casamento/procura de marido e as ligações ao Daesh. Mais tarde admitiu que quando viajou tinha como objetivo ir viver sob a lei islâmica e nunca de se juntar ao grupos radical.

“Era uma mulher sozinha no local mais perigoso do mundo, ao lado de algumas das pessoas mais perigosas do mundo. E não quero a vossa simpatia por isso, porque a decisão de ir para lá foi minha. Mas não havia polícia por lá para me ajudar ”, justificou Tareena Shakil perante o juiz.

Nas últimas semanas, a mulher foi ouvida pelo Juiz Melbourne Inman QC. Esta segunda-feira recebeu a sentença: seis anos de prisão.

Tareena Shakil é a primeira mulher a ser condenada pela ligação as Daesh. Mas há uma questão que continua a pairar na cabeça da polícia: Porque foi e porque veio?