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Tudo a postos por António Guterres

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DENIS BALIBOUSE / Reuters

No MNE, prepara-se a “equipa de combate” para a corrida a contrarrelógio de pôr o ex-primeiro-ministro no topo da ONU

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Task force já há. O argumentário também já foi preparado e embaixadas e missões em todo o mundo preparam-se para o lobbying diplomático. Mas a carta para as Nações Unidas endossando o nome de António Guterres como candidato oficial ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas ainda não seguiu porque se está a ponderar o momento preciso. Meados de fevereiro foi a data que o Expresso apurou.

Por enquanto, o que existe é o anúncio do Governo e a “disponibilidade” do próprio.

A corrida vai ser difícil e Guterres assumiu-o. No Ministério dos Negócios Estrangeiros também se sabe que vai ser, além de mais, uma corrida a contrarrelógio. De acordo com o calendário mais ou menos estabelecido pelo presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, que agora coordena o processo de seleção em conjunto com o presidente do Conselho de Segurança (CS), as candidaturas deverão ser apresentadas até abril, para depois se realizarem as audições públicas e, em julho, o Conselho decidir.

Ban Ki-Moon sai do cargo no final do ano e, até lá, a Assembleia terá que votar o nome que lhe será proposto pelo Conselho. Mas apesar dos avanços em tornar o processo de seleção mais transparente (a Assembleia abriu um site para o efeito), ninguém tem ilusões de que, independentemente dos critérios de seleção e do perfil dos candidatos, a questão vai rodar à volta da vontade de compromisso entre os Estados Unidos e a Rússia. Entre os chamados P5 (os cinco membros do CS com direito a veto) são os dois que mais contam, tendo em vista a atual situação.

No MNE, sabe-se que Guterres tem o perfil adequado para o cargo, mas falha os dois critérios que estão a ser ventilados: o geográfico (seria agora a vez de um candidato da Europa Oriental) e o de género (uma mulher). Por isso, a ideia é promover não só o seu perfil político como deputado e primeiro-ministro com vasta experiência europeia, como as qualidades de negociador e “fazedor” de compromissos, que provou largamente ao longo da sua carreira e como Alto Comissário para os refugiados.
Neste cargo, é salientado aliás que a sua gestão “reformista e inovadora” permitiu triplicar o volume de atividade da organização e diminuir significativamente os custos da organização, além de promover a prática rigorosa da paridade no processo de recrutamento. Quando PM, foi ele que criou um ministério para a Igualdade, destaca-se.

As suas qualidades diplomáticas, por outro lado, permitiram-lhe encontrar soluções para assistir a um número crescente de refugiados e deslocados (de 38 para 60 milhões entre 2005 e 2015). A sua dedicação pelas causas dos mais vulneráveis é outro dos pontos salientados.

A ideia é fazer perceber que o perfil de Guterres é também o mais ajustado tendo em vista o complexo contexto internacional, com uma multiplicação de conflitos e ameaças globais, tendo em conta a sua neutralidade. Na prática, porém, muito vai depender do que EUA e Rússia entenderem quanto ao candidato ideal da Europa de Leste e qual pode oferecer melhores garantias a um sem molestar o outro. E é nessa frincha que o ex-senhor ACNUR pode ter a sua chance.