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Zika traz receios de mortes por realização de abortos ilegais

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Mario Tama/Getty Images

Vários ativistas têm procurado chamar a atenção dos Governos para que repensem as suas políticas direcionadas para a contraceção e o aborto, receando que o alastramento do vírus aumente o número de mortes de mulheres na sequência da realização de abortos sem condições. E criticam os apelos de alguns países para que estas adiem a decisão de engravidar por dois anos

No contexto do vírus Zika que alastra pela América Latina, vários Governos na região - Colômbia, El Salvador, Equador, entre outros - estão a lançar apelos às mulheres: adiar os projetos de gravidez durante dois anos, na sequência do risco dos bebés nascerem com microcefalia caso a mãe esteja infetada com o Aedes aegypti. No entanto, vários grupos de saúde já alertaram para o facto de este pedido ser pouco razoável em países onde várias mulheres são vítimas de violação e os métodos contracetivos não chegam facilmente a todas as camadas da sociedade.

Vários ativistas têm assim procurado chamar a atenção dos Governos para que repensem as suas políticas direcionadas para a contraceção e o aborto, receando que o alastramento do vírus provoque um aumento de mortes de mulheres na sequência da realização de abortos sem condições. “Estamos a pedir aos Governos que expandam o acesso à contraceção, particularmente para os grupos que têm baixos rendimentos”, declarou a diretora-adjunta da Federação Internacional de Planeamento Familiar, Giselle Carino, sublinhando ainda que deve também expandir-se “o acesso a abortos seguros”.

No Brasil, onde os apelos governamentais também se fizeram ouvir, o instituto feminista de bio-ética Anis quer levar o caso ao Supremo Tribunal. O objetivo é facilitar o acesso à contraceção, aos testes de diagnóstico do vírus e legalizar os abortos para os casos de microcefalia.

A realização de abortos ilegais e sem condições “é definitivamente, definitivamente uma preocupação porque [o Zika] é tão proeminente neste momento e as pessoas estão assustadas”, explicou a presidente da organização mundial Women Deliver, Katja Iversen. “É um golpe baixo dos Governos dizerem [às mulheres] para adiarem a sua próxima gravidez, quando não tornam disponível o acesso à contraceção e à realização de abortos” nesses casos.

Segundo as estimativas do Instituto Fiocruz, centro de investigação público de relevo no Brasil, até ao final do ano existirão 16 mil casos de microcefalia só naquele país. Mas acrescenta, em resposta aos ativistas que advogam a necessidade de reformas por “incompatibilidade com a vida”, que “no caso de fetos com microcefalia em princípio não há incompatibilidade com a vida.”

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