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Um medricas desaparecido em ação? É complicado

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Três pessoas mascaradas de galinhas gozam com o candidato às primárias republicanas Donald Trump por não ter comparecido ao debate televisivo com os demais candidatos. “Um medricas desaparecido em ação”, aponta um dos cartazes

JIM LO SCALZO / EPA

Crónica rica em factos e politicamente complicada de como comandar e influenciar um debate televisivo ao qual se faltou

Luís M. Faria

Jornalista

Nas primárias para escolher o candidato republicano às presidenciais de novembro, o estado que abre as votações é o Iowa, já segunda-feira. Quase todos os principais concorrentes participaram no último debate antes disso, transmitido durante a madrugada (hora portuguesa) pela cadeia Fox News. O único ausente foi Donald Trump. Irritado por a Fox não querer retirar uma determinada jornalista do grupo de moderadores, tinha ameaçado faltar. Acabou por cumprir a ameaça, organizando à mesma hora do debate um evento alternativo - uma sessão para angariar fundos destinados a veteranos militares.

A Fox é o grande aliado televisivo dos republicanos e era quase impensável um deles enfrentá-la diretamente. Aqui como noutras coisas, Trump ultrapassou barreiras que se julgavam intransponíveis. "Temos de defender os nossos direitos quando estamos a ser maltratados", argumentou. O casus belli foi o modo agressivo como se sentiu tratado logo no primeiro debate. A pergunta inicial da jornalista Megyn Kelly aludiu ao modo como Trump por vezes tratava o sexo oposto: "Chamou a mulheres de quem não gosta de 'porcas gordas, desmazeladas e animais nojentos'", começou Kelly.

"Só a [apresentadora e comediante] Rosie O'Donnell", interrompeu Trump.

"Não, não foi. Para que conste, foi muito além de Rosie O'Donnell, A sua conta de Twitter tem vários comentários derrogatórios sobre o aspeto das mulheres. (…) Uma vez disse a uma concorrente do 'Aprendiz' que vê-la de joelhos seria uma bela imagem. Isso parece-lhe o temperamento de alguém que devíamos eleger presidente?"

Trump respondeu que aquilo tudo era correção política e que ele não tinha tempo. "E para ser honesto, este país também não tem tempo. Este país está em sérias dificuldades", disse. Explicou que países como a China e o México ("tanto no comércio como na fronteira") estavam a ganhar aos Estados Unidos. “Perdemos para todos. E, para ser franco, o que eu digo, às vezes é a brincar, é para divertir".

O debate seguiu em frente, mas nos dias seguintes a fúria não passou ao candidato. Comentou que Kelly se tinha atirado ferozmente a ele e que lhe saía sangue do nariz e de "um sítio qualquer" que ele não ia dizer. Toda a gente percebeu que se referia à menstruação, mas ele negou, chamando pervertidos às pessoas que achavam isso... A verdade é que, ao longo das semanas seguintes, o conflito com Kelly não desapareceu, sendo vigorosamente alimentado no Twitter de Trump pelo próprio e pelos seus seguidores.

A jornalista Megyn Kelly, alvo da polémica entre o candidato Republicano Donald Trump e a cadeia de televisão Fox

A jornalista Megyn Kelly, alvo da polémica entre o candidato Republicano Donald Trump e a cadeia de televisão Fox

JIM YOUNG / REUTERS

Um sistema binário de adjetivação

Trump ainda tentou boicotar a Fox, mas ao fim de uma semana voltou a participar nos seus programas. Nessa altura, a maioria das pessoas ainda achava que a campanha dele era um epifenómeno e não ia durar muito. À medida que os meses passavam, porém, a sua liderança nas sondagens foi-se consolidando. Trump sobreviveu a uma sucessão de polémicas que teriam destruído qualquer outro candidato. Desde chamar violadores e assassinos aos emigrantes mexicanos (“alguns são boas pessoas”) até defender que a forma de combater o Estado Islâmico era assassinar as famílias dos terroristas e prometer que impediria a entrada de todos os muçulmanos nos Estados Unidos, multiplicou as declarações públicas escandalosas. Ao mesmo tempo, usava o Twitter para elogiar os seus apoiantes (“um tipo com classe” é um elogio típico) e denegrir os seus críticos (“um falhado”, “tentou pedir-me dinheiro”. “queria ficar de borla nos meus hotéis”), num sistema de adjetivação que pode ser binário e simplista, mas que tem bastante mais animação do que o debate político tradicional.

Os seus fãs adoraram. E à medida que o establishment começava a perceber que não se ia livrar de Trump com a facilidade que havia previsto – o tal primeiro debate fora claramente armadilhado para isso – o alarme cresceu. Por um lado, Trump, na perspetiva de muitos estrategas republicanos, aumentava as hipóteses de o partido perder a eleição geral, sobretudo se o candidato democrata fosse Hillary Clinton, infinitamente mais experiente e calejada do que ele. Por outro lado, os conservadores não perdoavam a Trump um certo lado de populista económico que o levava a advogar subidas de impostos entre classes até agora protegidas - por exemplo, os gestores de fundos em Wall Street.

Candidatos Republicanos às primárias das presidenciais americanas (da esquerda para a direita: Rand Paul, Chris Christie, Ben Carson, Ted Cruz, Marco Rubio, Jeb Bush e John Kasich) no debate promovido pela Fox News na noite desta quinta para sexta, no Iowa, e ao qual Trump faltou

Candidatos Republicanos às primárias das presidenciais americanas (da esquerda para a direita: Rand Paul, Chris Christie, Ben Carson, Ted Cruz, Marco Rubio, Jeb Bush e John Kasich) no debate promovido pela Fox News na noite desta quinta para sexta, no Iowa, e ao qual Trump faltou

JIM YOUNG /REUTERS

Um texto satírico mal calculado

Imediatamente antes da votação no Iowa, Trump não terá querido por em risco a sua vantagem. Quando soube que Megyn Kelly ia ser um dos três moderadores do debate desta quinta para sexta, protestou. Se ela não fosse excluída, ele talvez não estivesse presente, pois achava que não ia ser tratado com imparcialidade. A Fox resistiu. Aliás, seria impossível não o fazer - o brio jornalístico não consentia deixar que fosse um entrevistado a escolher quem o entrevistava. O braço de ferro prolongou-se durante dias. E pouco antes do debate, a Fox fez uma asneira, publicando o seguinte comunicado: "Soubemos por um canal secreto que tanto o Ayatollah como Putin tencionam tratar injustamente Trump quando se encontrarem com ele se se tornar presidente - uma fonte nefasta diz-nos que Trump tem o seu próprio plano secreto para substituir o Governo com os seus seguidores no Twitter para ver se deve sequer ir a esses encontros".

Até comentadores antiTrump descreveram esse comunicado da Fox como juvenil e impróprio, notando que deu a Trump a oportunidade de fazer o que ele desejava desde o início: sair do debate com uma imagem positiva e sem sofrer prejuízos com isso. Trump aproveitou. Anunciou que ia faltar. Porém, talvez para não queimar totalmente as pontes com a Fox, antes do debate foi a outro programa da cadeia, o "The O'Reilly Factor", onde o moderador tentou convencê-lo a mudar a sua decisão. Bill O'Reilly é um dos comentadores mais influentes da direita americana e a sua voz não pode ser indiferente a um candidato que vai precisar de apoios como o dele ao longo dos próximos meses (a eleição geral é daqui a nove e as primárias terão de estar concluídas no verão). Mas o bilionário manteve-se firme.

Por uma questão de cortesia, segundo justificou depois, só deu início ao seu próprio evento à 21h15, um quarto de hora após começar o debate na Fox. "A Fox tem sido extremamente simpática nas últimas horas. Deixámo-los começar e agora estão todos sintonizados", disse.

Donald Trump no seu evento no Iowa a posar com as “Diamond & Silk”, um duo de estrelas do YouTube

Donald Trump no seu evento no Iowa a posar com as “Diamond & Silk”, um duo de estrelas do YouTube

RICK WILKING /REUTERS

Tenho uma certa saudade de Donald Trump. Ele era um pequeno ursinho para mim

Os rivais de Trump tentaram rentabilizar a sua ausência. Já lhe tinham chamado cobarde e a preocupação era evitar que Trump, mesmo sem comparecer, dominasse o debate. O senador Ted Cruz, o único que ameaça o domínio de Trump nas sondagens do Iowa, começou por fazer uma alusão ao modo insultuoso como o bilionário costuma referir-se aos adversários: "Eu sou um maníaco e toda a gente neste palco é estúpida, gorda e feia [dirigindo-se a Ben Carson]. Tu és um péssimo cirurgião. Agora que já tratámos da secção Donald Trump neste debate, quero agradecer a todos aqui por demonstrarem aos homens e mulheres do Iowa o respeito de aparecerem aqui".

O ex-governador Jeb Bush, em tempos favorito na corrida, mas definido assassinamente por Trump como “baixa energia” – o epíteto colou-se-lhe até hoje como um adesivo, contribuindo para o impedir de ganhar tração – experimentou o registo trocista. "Tenho uma certa saudade de Donald Trump. Ele era um pequeno ursinho para mim", disse. Mas o humor não pegou. E Cruz, após uma série de perguntas em que os moderadores procuraram levar os candidatos a falar uns dos outros, avisou: "Se vocês fizerem mais uma pergunta maldosa, posso ter de abandonar o palco". O seu rival Marco Rubio não deixou escapar a ocasião: "Não se preocupem, eu não abandono o palco independentemente do que me perguntem".

Apagada como está a esperança Bush, o establishment virou-se para Rubio, um jovem senador com características tidas como essenciais. Fotogénico e com uma história de família inspiradora, é também conservador quanto baste nas suas posições. Mas Bush notou que esse conservadorismo é algo fluído: "Estou um pouco confuso. Ele liderou o movimento para resolver finalmente este problema da migração que existe, como Marco diz, há 30 anos. E depois fugiu, porque não era popular entre os conservadores, imagino". A seguir, Bush não resistiu a mencionar de novo o grande ausente: "Referi o seu nome outra vez só para o caso de alguém estar com saudades dele". Ao fazê-lo, deu razão ao comentário do jornalista Anderson Cooper (CNN) sobre Trump e o debate: "A sua sombra paira, embora ele não esteja lá".

Explicações algo suspeitas

Antes do evento, Trump, segundo o seu costume, recorrera ao Twitter para troçar de quem o tinha enfrentado: "O 'debate' hoje vai ser um desastre total - audiências baixas, com os anunciantes e as tabelas de publicidade a caírem que nem uma pedra". A Fox respondeu que isso não era verdade: "O debate está completamente esgotado. Nenhuns preços mudaram e nenhuns anunciantes recuaram. Os preços não mudam depois de as encomendas terem sido feitas". O Wall Street Journal fez o ponto da situação nessa matéria. Trump é realmente uma enorme vantagem no que respeita a audiências. O debate de agosto teve 25 milhões de espectadores, um recorde absoluto.

Nos confrontos seguintes, as audiências desceram, mas ainda andaram pelos 11 milhões, o que representa o triplo do que houve nalguns debates comparáveis nas primárias de há quatro e oito anos. No debate desta quinta-feira, segundo o WSJ, "os preços dos anúncios iam até aos 260 mil dólares por 30 segundos. Os espaços vendidos após a saída de Trump custaram uns 200 mil, o que ainda é uma tabela premium para um debate".

Pela sua parte, a Fox, ciente de que não lhe convém cortar relações com o favorito republicano, deu uma versão cuidadosa das negociações no dia do debate: "Roger Ailes [presidente e executivo-chefe da cadeia] teve três conversas breves com Donald Trump hoje sobre ele possivelmente ir ao debate - não se tratou de múltiplas chamadas feitas por Ailes a Trump. No decurso dessas conversas, reconhecemos a sua preocupação com uma observação satírica que fizemos para acalmar os ataques a Megyn Kelly e evitar que ela fosse difamada ainda mais. Além disso, Trump ofereceu-se para aparecer no debate na condição de a Fox News contribuir com cinco milhões para as suas obras de beneficência. Explicámos que isto não era possível e que não entraríamos num qui pro pro, nem nenhum dinheiro podia mudar de mãos por qualquer motivo que fosse. Atingimos esses dois objetivos e estamos satisfeitos com o resultado. Sentimos orgulho em tê-la no palco ao lado de Bret Baier e Chris Wallace".

Os seguidores de Trump preferiram partilhar no Twitter duas fotos de Kelly semi-despida e em poses eróticas, que foram publicadas numa revista para homens. “Critica Trump por objetificar as mulheres. Posa assim na revista G.Q.”, diz a legenda. “E é esta bimba que está a fazer perguntas presidenciais?” Não tardou até a palavra HIPÓCRITA surgir repetida em maiúsculas nos comentários. Com Trump não se brinca.

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