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Políticos franceses não entram na “Selva” de Calais

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Antigo primeiro-ministro francês Alain Juppé, em campanha para ser candidato da direita às presidenciais francesas, anunciara uma visita à “Selva”, o bairro da lata onde vivem milhares de migrantes e refugiados. Mas na realidade apenas visitou a “Selva-chique” e não ousou entrar no imenso e miserável bairro da lata

Alain Juppé tinha calçado botas e parecia estar preparado para enfrentar a chuva, o vento frio e caminhar na lama da “Selva”, como é conhecido o imenso bairro da lata onde sobrevivem, dificilmente, milhares de migrantes desejosos de atravessar a Mancha e chegar a Inglaterra.

Mas ele não chegou a entrar na verdadeira “Selva”. Os seus serviços tinham anunciado uma visita ao “bidonville” para a tarde desta quarta-feira, mas o candidato presidencial ficou-se pela orla e apenas visitou a “Selva-chique”, um novo quarteirão com piso de cascalho e habitações dentro de contentores de metal pintados com um branco imaculado, contíguo ao vasto e miserável espaço onde apenas há gente infeliz, lodaçais, charcos, tendas, cabanas e barracas com telhados de plástico.

O novo local de acolhimento, destinado a abrigar em prioridade famílias numerosas com crianças, recentemente inaugurado, serviu no entanto para o que ele sobretudo desejava: tirar umas fotos com vista para a “Selva” e fazer declarações designadamente sobre a insegurança que os habitantes de Calais denunciam. Foram precisamente alegadas razões de segurança que o impediram de entrar no bairro da lata.

“Estou muito chocado com as condições de vida dos migrantes, que não são dignas de um país como a França. Eles têm de ser redistribuídos por outros centros do país, porque vivem em condições insalubres numa zona onde não entra a autoridade da República e onde florescem a violência, a delinquência e as máfias dos passadores. Temos de acabar com esta situação”, disse.

Juppé deseja que a França reveja os acordos bilaterais com a Grã-Bretanha que estabelecem a fronteira na cidade portuária do norte da França e declarou ser favorável à criação de um “hotspot”, onde as autoridades britânicas “façam a triagem entre os migrantes e refugiados que aceitam ou não aceitam; depois, os que eles não querem terão de ser obrigados a sair daqui”.

O favorito às primárias da direita francesa para designar o candidato às eleições presidenciais de 2017 estava visivelmente em campanha eleitoral e defendeu igualmente os comerciantes de Calais, que se queixam de terem prejuízos enormes devido a esta crise migratória.

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Na “Selva-chique”, o antigo primeiro-ministro contactou com alguns refugiados escolhidos a dedo. Mas mesmos esses lhe disseram que não desejam ficar em França e que pretendem chegar à Inglaterra, por falarem inglês, por aí terem família ou amigos e por as condições de acolhimento dos refugiados serem melhores neste país.

Enquanto a visita decorria, os migrantes residentes na verdadeira “Selva” foram impedidos de sair do local por um forte aparato policial. Junto à entrada principal, alguns falaram ao Expresso, como Saeda, uma rapariga síria de 10 anos, ali instalada com o pai, Hafes, desde há três meses. “Somos infelizes aqui, fugimos da guerra e queremos ir para Inglaterra onde está já a minha mãe e os meus dois irmãos”, disse Saeda em inglês.

“Somos infelizes aqui, fugimos da guerra e queremos ir para Inglaterrs”, disse ao Expresso Saeda, uma rapariga síria de 10 anos

“Somos infelizes aqui, fugimos da guerra e queremos ir para Inglaterrs”, disse ao Expresso Saeda, uma rapariga síria de 10 anos

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Ambos demoraram dois anos na viagem até França e falaram ao Expresso debaixo de uma ponte que nos protegia da chuva e do frio intenso. “Corremos muitos riscos e perigo de vida para chegar aqui e agora vivemos neste pobre acampamento. Só não temos a guerra, de resto estamos numa prisão, num acampamento como aqueles onde Bashar al-Assad nos prendeu”, acrescentou Hafes.