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Morreu a ativista que viveu três décadas numa tenda por uma causa

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BRENDAN SMIALOWSKI / AFP / Getty

Era vizinha de Obama, foi-o de outros presidentes. Durante 30 anos, viveu diante da Casa Branca. Numa tenda. Por uma causa

Alberto Conceição

Morreu na segunda-feira Concepcion Picciotto, a ativista que manteve o mais longo protesto político da História americana. A vizinha mais próxima do presidente Obama morreu poucos dias depois de ter abandonado uma vigília que durou mais de 30 anos em frente à Casa Branca, em Washington, onde se manifestou contra a proliferação de armas nucleares.

Picciotto morreu num centro para sem-abrigos da cidade, perto da tenda da Praça Lafayette, onde manteve o protesto durante mais de três décadas. As causas da morte ou a sua idade não são conhecidas, mas Picciotto teria cerca de 80 anos e terá morrido na sequência de problemas de saúde, segundo os companheiros do grupo The Peace House, ao qual pertencia.

Nasceu em Espanha, mas em 1960 emigrou para os Estados Unidos. Casou em 1969 com um italiano, com quem viveu em Nova Iorque, e adotou a filha, Olga, em 1973 na Argentina. Depois de um casamento atribulado e de ter perdido a custódia da filha, começou em 1981 aquele que viria a ser o maior protesto político na História dos Estados Unidos.

Figura conhecida dos habitantes de Washington mas também dos turistas que visitavam a cidade, Picciotto vivia numa tenda feita de pedaços de lona, sobre o passeio de tijolos vermelhos em frente à Casa Branca. Foi aí que esteve noite e dia, primavera atrás de primavera, a defender a causa antinuclear, durante mais de 30 anos.

Foi em frente à Casa Branca que Concepcion Picciotto viveu durante mais de três décadas

Foi em frente à Casa Branca que Concepcion Picciotto viveu durante mais de três décadas

BRENDAN SMIALOWSKI

Mas Picciotto era também conhecida de cinco presidentes, embora todos tenham ignorado a sua luta. “Nem um presidente atravessou a rua para a conhecer e reconhecer a causa que defendia e o apelo à paz e à justiça”, disse Ralph Nader, ativista político, advogado e admirador da causa de Picciotto.

“Ela liderou a mais longa pacífica vigília antinuclear na Casa Branca”, afirmou um membro da Peace House, acrescentando que “ficou lá, contra tudo e contra todos, e dedicou-se a uma causa que muitas vezes parecia uma relação doentia”.

Picciotto não é caso único

Foi na varanda do quarto 306 do Lorraine Motel em Memphis, no estado americano do Tennessee, que Martin Luther King Jr. foi assassinado no dia 4 de abril de 1968. Em 1988, o motel foi fechado para que se iniciasse a construção daquele que hoje é o Museu Nacional dos Direitos Civis e o memorial de King, numa obra avaliada em 9 milhões de dólares (cerca de 8 milhões e 200 mil euros).

Jacqueline Smith foi a última inquilina do Lorraine Motel, antes de ser obrigada a sair e deixada na rua com os seus pertences. Foi então que começou a vigília, ali mesmo em frente ao motel.

“Vivi neste motel durante 11 anos. Perder a minha casa já foi mau o suficiente, mas torná-la numa atração turística foi uma desonra à memória de Luther King”, disse Smith, acrescentando que ele nunca iria permitir que se gastassem 9 milhões de dólares a construir um edifício para ele despejando os habitantes do motel.

Jacqueline Smith vive, como vivia Picciotto, numa tenda há já quase 28 anos.

Jacquelin Smith vive há quase 28 anos em frente ao Lorraine Hotel, onde Martin Luther King Jr. foi assassinado

Jacquelin Smith vive há quase 28 anos em frente ao Lorraine Hotel, onde Martin Luther King Jr. foi assassinado

CAROL STEINFELD