Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Manifestações na Tunísia. “Nós temos liberdade, mas a liberdade não alimenta ninguém”

  • 333

Manifestação em Kasserine, na Tunísia, onde um jovem de 28 anos morreu eletrocutado depois de subir a um poste para protestar contra a falta de emprego no país

STRINGER/Reuters

A semana na Tunísia ficou marcada por violentos confrontos e manifestações. Os protestos começaram no sábado passado, depois de um jovem de 28 anos ter morrido eletrocutado quando subia a um poste para protestar contra a falta de emprego e oportunidades no país

Helena Bento

Jornalista

Depois de uma semana marcada por muitos protestos e violentos confrontos, só comparável à vaga de agitação social que levou à queda do presidente Ben Ali em 2011, durante a chamada Primavera Árabe, o primeiro-ministro tunisiano Habib Essid convocou este sábado o seu gabinete para uma reunião de emergência. Sobre o que foi discutido ou ficou decidido na reunião nada foi dito, mas em declarações aos jornalistas Habib Essid deu a entender que, embora não esteja à vista, é possível uma solução para a crise económica e social que assola a Tunísia.

Na mesma sessão, o primeiro-ministro falou em "paciência e otimismo", mas paciência e optismo parece ser precisamente aquilo que os tunisianos já não têm. A semana que passou ficou marcada por violentos confrontos entre civis e polícias em algumas cidades da Tunísia. Houve assaltos, pilhagens de lojas e incêndios. 59 polícias e 40 civis ficaram feridos, segundo números do britânico "Guardian". As manifestações sucederam-se, dia após dia, sucedendo-se também as investidas da polícia para tentar dispersar a multidão e as habituais imagens de forças de segurança munidas de gás lacrimogéneo e canhões de água a varrer as ruas. No mês em que se celebram os cinco anos da queda do ditador Zine El-Abidine Ben Ali (aconteceu no dia 14), a população tunisiana voltou a sair à rua. Num país em que a taxa de desemprego ultrapassa os 15% (quando ocorreu a revolução de 2011 situava-se nos 12%), as exigências são bem claras: mais emprego e oportunidades e melhores condições de vida.

Os protestos começaram no sábado passado, dia 16, em Kasserine, uma das cidades mais pobres da Tunísia. Um jovem de 28 anos, de nome Ridha Yahaoui, morreu eletrocutado depois de ter subido a um poste para protestar contra o facto de o seu nome ter sido excluído de uma lista para um emprego público. De Kasserine as manifestações alastraram-se a outras cidades rurais do país até atingirem alguns bairros da capital, Tunis. Alguns tuniasinos (a "Al-Jazeera" não refere quantos, embora o Público fale em quatro) tentaram suicidar-se por não terem emprego, um deles na sexta-feira. Foi também na sexta-feira que o Governo, incapaz de avançar para já com medidas de carácter político, decretou recolher obrigatório para o todo o país, entre as 20h e as 5h.

Barhoumi Tareq, um desempregado que participava num dos protestos em Kasserine disse à "Al-Jazeera" que os tunisianos "estão unidos contra a discriminação e marginalização". "Nós sofremos durante décadas. Não sentimos que pertencemos a este país porque o Governo não se preocupa connosco", acrescentou.

Cinco anos não é assim tanto tempo e a memória dos tunisianos - e a do resto do mundo - ainda está bem fresca. É pelo menos esta a ideia com que se fica ao saber que o caso do jovem de 28 anos que morreu eletrocutado tem sido comparado praticamente em todo o lado ao caso de Mohamed Bouazizi, o vendedor de rua que se imolou em dezembro de 2010, depois de a polícia municipal da cidade de Ben Aros lhe ter apreendido os produtos e multado por venda ilegal. O incidente serviu de gatilho à conhecida insurreição popular.

Entrevistada pela "Al-Jazeera", Saber Gharbi, uma desempregada licenciada que também participava numa das manifestações, reconheceu precisamente isso. "Há uma grande semelhança entre o que aconteceu em 2011 e o que está a acontecer agora. As mesmas pessoas estão na rua pela mesma razão", disse, acrescentando depois: "Nós temos liberdade, mas a liberdade não alimenta ninguém".

Apesar de a revolução de 2011 ter resolvido os problemas políticos do país, os problemas económicos mantêm-se desde então, não tendo havido, neste campo, uma transição plena entre regime ditatorial e democracia. O setor turístico atravessa uma crise brutal, em grande parte devido à instabilidade causada pelos recentes ataques jiadistas - no museu de Bardo e na estância balnear de Sousse, ambos em 2015 e ambos reivindicados pelo autoproclamado Estado Islâmico. Desde então fecharam dezenas de hotéis e estima-se que cerca de 400 mil postos de trabalho tenham sido extintos. Os mais jovens têm sido os mais afetados, com uma taxa de desemprego que ronda os 30% (ou até mais, no caso dos jovens que vivem em áreas rurais).

Michael Willis, professor na Universidade de Oxford, considera que a crise económica resulta do facto de ainda persistirem no país as "estruturas corruptas" do regime de Ben Ali. "A Tunísia tornou-se um país mais desigual na última década. A riqueza da sua costa contrasta com a pobreza do interior. As maiores cidades localizadas na costa - Tunis, Sfaz e Sousse - contribuem para 85% do PIB do país, através sobretudo da indústria e serviços", refere um relatório recente do Banco Mundial, citado pelo "Guardian", onde também se lê que o fracasso da reforma económica da Tunísia se deveu à incapacidade dos sucessivos governos de "lidar com as leis bizantinas adotadas em benefício da elite do presidente Ben Ali".