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Jihadi John esteve em Lisboa

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Jihadi John num dos vídeos divulgados pelo Estado Islâmico.

D.R.

MAI confirma a presença do carrasco inglês do Daesh em Portugal. O terrorista viajou acompanhado de dois ex-prisioneiros de Guantámo em 2011

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

O homem de cara tapada filmado pela propaganda do Estado Islâmico a decapitar vários reféns ocidentais passou por Portugal em 2011, um ano antes de viajar para a Síria. Mohammed Emwazi, mais conhecido por Jihadi John, viajou de carro desde Londres, cidade onde vivia desde os seis anos, até Lisboa. Não atravessou o túnel do Canal da Mancha sozinho. Com ele vinham dois homens que eram seguidos com muita atenção por todos os serviços de informações europeus. Segundo uma fonte da investigação, ambos tinham combatido no Afeganistão pela Al-Qaeda, tendo sido posteriormente capturados pelas forças ocidentais. Chegaram a estar detidos na prisão americana de alta segurança de Guantánamo, em Cuba, e mais tarde libertados sem acusação.

Apesar das rotas de carro no interior do Espaço Schengen serem mais difíceis de detetar do que as viagens aéreas, a presença dos três homens não passou despercebida em Portugal. Antes pelo contrário. “Os seus movimentos foram acompanhados muito de perto desde o primeiro dia em que chegaram a Portugal até ao momento em que saíram do país”, revela uma fonte próxima da investigação ao terrorismo.

Emwasi e companhia estiveram em Lisboa durante três dias e encontraram-se com um cidadão estrangeiro que também era monitorizado pelas autoridades portuguesas. Logo à partida ficou afastada a hipótese de pretenderem cometer um atentado em Portugal ou de quererem recrutar potenciais extremistas. A sua missão era outra: “Obter financiamento para a causa jiadista na Síria”, país onde nasciam vários grupos ligados ao extremismo islâmico e onde iria germinar o Estado Islâmico, ou Daesh.

Segundo o jornal britânico “The Sunday Times”, que também escreve na sua edição deste domingo sobre o tema, o contacto de Jihadi John em Lisboa era alguém da “oposição ao regime sírio de Bashar al-Assad”. Não se sabe se continua a residir em território português.

O gabinete da ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa, confirma a presença de Mohammed Emwazi no nosso país: “O Ministério da Administração Interna confirma a passagem por Portugal, em 2011, do cidadão britânico referido. A mesma foi devidamente acompanhada e monitorizada de forma rigorosa pelas autoridades portuguesas. À data, o individuo agora conhecido por Jihadi John, não constituía o grau de ameaça que posteriormente se veio a confirmar.” O MAI destaca ainda "o profissionalismo das autoridades portuguesas no acompanhamento de todas as situações que possam representar qualquer tipo de ameaça para a segurança do país.”

O rosto do mal

Em 2011, Emwazi, era ainda uma figura de terceira linha no mapa do terrorismo jiadista mas já se encontrava referenciado em Londres. O "The Sunday Times" escreve que a viagem de carro até Lisboa "levanta questões" sobre a eficácia dos serviços de contra-terrorismo de David Cameron.

Quatro anos depois transformou-se no inimigo público número um do Ocidente. A 12 de novembro foi morto durante um ataque aéreo, cirúrgico, realizado pelas forças aéreas dos EUA, em estreita ligação com a Grã-Bretanha. No próprio dia, o Pentágono e o nº10 de Downing Street confirmam oficialmente a operação na Síria e o óbito quase certo (99%) do britânico Mohammed Emwazi, de 27 anos, o carrasco do Estado Islâmico, figura-propaganda do grupo terrorista que surge em vídeo a decapitar os reféns James Foley, Steven Sotloff, Peter Kassig, David Haines, Alan Henning, Kenji Goto e Haruna Yukawa.

O ataque foi realizado com um drone no centro de Raqqa, a capital não oficial do Califado na Síria, onde vive atualmente a maioria dos jiadistas portugueses que se juntaram ao Daesh. O dispositivo atingiu um veículo onde seguia Mohammed Emwazi. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que tem uma rede de informadores no terreno, garantiu que no carro iam mais três ocidentais.

O primeiro-ministro David Cameron chamou à operação “um ato de legítima defesa” contra alguém que era uma ameaça mundial. “Fizemos o que tinha de ser feito”, disse. As famílias dos reféns mortos pelo jiadista britânico foram informadas pessoal e individualmente da operação, e do seu resultado, pelas entidades oficiais de cada país.

Na altura, o autodenominado Estado Islâmico desmentiu a morte de Jihadi John, mas esta semana deu o dito por não dito e confirmou o óbito numa espécie de obituário publicado na edicão nº13 da Dabiq, a revista digital da organização, informando que o jiadista teve “morte imediata” após o ataque de um drone ao carro onde seguia, em Raqqa. Descrevem-no como um “dos mais importantes mártires” e “um irmão bondoso que não hesitou em abdicar da escrava sexual que lhe tinham atribuído, dando-a um irmão solteiro ferido em combate.”

Emwazi surgiu pela primeira vez em agosto de 2014, no vídeo de decapitação do jornalista americano James Foley. Vestido de negro, rosto tapado, sotaque britânico. De fora, só os olhos, inexpressivos, vazios, duros.

Antes das autoridades descobrirem e divulgarem a sua verdadeira identidade — em fevereiro de 2015 —, Mohammed era conhecido por Jihadi John. A alcunha foi dada por um grupo de reféns (que conseguiu fugir e chegar à Turquia) que o identificaram como líder de uma célula composta por quatro britânicos. Chamavam-lhes os Beatles. O carrasco era John.

O puto tímido que queria ser futebolista

Mohammed Emwazi nasceu no Kuwait em 1988. Aos seis anos foi viver para o Reino Unido com os pais, ele condutor de táxi, ela mãe. Assentaram residência em North Kensington, na zona oeste de Londres. Quem o conheceu durante a infância e pré-adolescência descreve um miúdo tranquilo, louco por futebol, certo de que o seu futuro seria como jogador profissional. Como todos os rapazes queria ser avançado, goleador. Aluno mediano na escola primária St. Mary Magdalene Church of England, tinha mais sucesso no recreio do que na sala de aula: era um rapaz popular, do grupo dos desportistas, ainda que de baixa estatura o que lhe valeu a alcunha de “Little Mo”.

Os desvios comportamentais começaram no secundário. Dois anos depois de ingressar na academia Quintin Kynaston, em St John’s Wood, no norte de Londres, juntou-se a um ‘gang’ juvenil. Com rapazes asiáticos mais velhos que ele, começou então a frequentar “shisha cafes” — locais onde se fumam cachimbos de água — e a passear em carros desportivos. Os pais condenavam o seu comportamento e o estilo ocidental de ‘cool kid’ com que se vestia, com calças descaídas e largas, ‘caps’ de basebol e casacos com carapuço. Ao jornal The Guardian, antigos colegas contaram que começou a consumir drogas e a beber álcool, e tornou-se violento com outros rapazes, o que desmente a sua retidão islâmica.

A figura popular que exibia convivia, porém, com uma timidez confrangedora ao pé das raparigas, que o humilhavam. Ele simplesmente não falava com elas. Os professores descrevem um “lovely, lovely boy”, mas que teve de frequentar aulas de controlo de raiva para aprender a gerir as emoções. A mistura das duas facetas tornavam-no “estranho” e “alvo de bulling”, dizem os antigos colegas.

Com a entrada na Universidade de Westminster, em 2006, onde Mohammed Emwazi tirou o curso (três anos) de Sistemas de Informação e Gestão de Negócios, os pais começaram a aperceber-se que estava mais interessado no Islão. Costumava andar com um pequeno grupo da zona oeste de Londres, que frequentava as mesmas mesquitas e que seguia com especial interesse e devoção o pregador Hani al-Sibai. O radicalismo começou então a tornar-se visível: na presença de Emwazi numa contramanifestação de apoio ao Islão a 11 de Setembro em 2009 e no número crescente de amigos monitorizados pelo MI5 (serviço britânico de informações) por estarem ligados a terroristas islâmicos e por terem recebido treino militar em campos jiadistas no norte de Inglaterra e na Escócia.

Rapidamente Emwazi passou também a ser seguido pelas autoridades. O grau de alerta subiu quando viajou com o líder do grupo jiadista da zona oeste, Bilal el-Berjawi, e com Mohamed Sakr — ambos foram mais tarde mortos pelos EUA em ataques com drones na Somália —, para a Tanzânia. Nessa altura, os serviços secretos tentaram recrutá-lo como informador, mas sem sucesso. A vigilância constante tornou-o neurótico, obcecado, deprimido. Mohammed emigrou então para o Kuwait, regressando a Londres em Abril de 2010. Quando tentou voltar para o emirado, para casar, o MI5 travou-lhe os intentos interrogando-o durante seis horas no aeroporto.

Ansioso por partir, em 2013 mudou de nome para Mohammed al-Ayan mas foi novamente impedido de seguir viagem. À terceira conseguiu: os pais reportaram o seu desaparecimento às autoridades em Agosto de 2013. Estava já na Síria. Um ano depois aparecia pela primeira vez, num vídeo, como figura-símbolo do terror do Estado Islâmico.

Na Síria, com os portugueses

Há um ano, as autoridades portuguesas e britânicas investigaram a ligação de alguns jiadistas nacionais ao carrasco do Estado Islâmico, já no califado. No dia 10 de julho de 2014, Nero Saraiva, de 28 anos, escrevia em inglês na sua conta do Twitter: “Mensagem para a América. O Estado Islâmico está a fazer um novo filme. Obrigado pelos atores”. Trinta e nove dias depois era divulgado no YouTube ‘o filme’: o vídeo da execução do jornalista James Foley intitulado 'Mensagem para a América'. O ‘ator’ (a vítima) era dos EUA e o título da execução repetia a mensagem de Patrício: “A Message to America”.

Os serviços de informação ingleses acreditam que o português, de ascendência angolana, soube antecipadamente da decapitação e que teria ligações estreitas a Jihadi John. “Nero teria já conhecimento de que os reféns norte-americanos iriam ser executados, bem como o género de vídeos que seriam realizados em breve”, conta ao Expresso uma fonte próxima dos serviços secretos britânicos.

Nero, engenheiro de formação, já era monitorizado há vários meses pelas secretas europeias por ter uma posição influente dentro da estrutura do Estado Islâmico e também por ter o seu nome associado a um conjunto de atentados do grupo Al-Shabaab, ligado à Al-Qaeda, que teriam lugar no Quénia durante 2013.

Segundo fontes das secretas europeias, Nero e outros jiadistas portugueses tiveram um “papel muito importante” não só na realização como na promoção de cinco vídeos de decapitações. “Não foram eles que mataram os reféns nem as filmaram, mas estão por trás de muito do que ali se passa.”