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Um ano depois do terramoto Syriza

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ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images

Limitado na Europa, Alexis Tsipras falhou promessas eleitorais. Aposta agora tudo no alívio da dívida

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

“Um Tsipras ‘crucificado’ capitula perante medidas draconianas.” Foi assim que o eurocético “Daily Telegraph” titulou na sua edição online o balanço da reunião europeia de 17 horas em julho, que determinou grande parte dos termos do novo resgate à Grécia. Na altura, parecia não haver dúvidas de que a negociação pretendida pelo Syriza tinha falhado e de que as sete vidas do primeiro-ministro Alexis Tsipras tinham chegado ao fim.

Seis meses depois, Atenas desapareceu da primeira página dos jornais. Na altura em que passa um ano sobre a primeira vitória eleitoral do Syriza em legislativas, a 25 de janeiro de 2015, é tempo de analisar um ano de governação do partido de esquerda radical que prometeu abanar a Europa.

Tsipras sobreviveu entretanto a uma cisão interna e a um novo teste político, provocando eleições antecipadas (em setembro) e reconquistando a maioria parlamentar. Como devemos classificar a sua prestação?

Tomando como base de comparação o Programa de Salónica (o documento que mais se aproxima de um programa eleitoral do Syriza), a verdade é que um ano depois da eleição de Tsipras são poucos os itens que foram cumpridos. A nota mais positiva vai, apesar de tudo, para o apoio social aos mais desfavorecidos, através daquilo que o partido classificou como “programa de combate à crise humanitária”.

Salónica por cumprir

Em março, o Parlamento grego aprovou um conjunto de medidas que incluíam eletricidade gratuita, subsídios à habitação e apoios na alimentação para cerca de 300 mil pessoas. Cumpria deste modo um dos seus pontos de honra da campanha eleitoral. Em dezembro, a continuação do programa foi ameaçada com os credores a ventilarem algum desagrado por não terem sido consultados sobre o dossiê. Mas Tsipras acabou por promulgar a extensão da medida na véspera do último Natal.

Soma-se o cumprimento de outras medidas pontuais, como a nova forma de pagamento faseado dos devedores ao fisco (para combater a evasão fiscal), a recontratação de alguns funcionários públicos e novas leis para cobrança das licenças televisivas. Mas a maior parte das medidas propostas em Salónica, como a redução de impostos, o aumento do salário mínimo e a criação de 300 mil empregos, falhou redondamente.

Além da responsabilidade do próprio partido, há que ter em conta que a maioria delas é completamente impossível de aplicar sob o atual programa de resgate grego, negociado com os credores oficiais (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional).

O peso da Europa

Tudo está por isso dependente da política europeia. “O Syriza estava certo ao desafiar a lógica dos programas de resgate e os efeitos de cinco anos de políticas de austeridade. Porém, enquanto o partido estiver decidido a manter a Grécia na zona euro, a sua capacidade de influenciar os eventos mantém-se limitada.” “Penso que os gregos pagaram um preço muito alto até o Syriza ter compreendido isto”, analisa Nick Malkoutzis, jornalista do conceituado jornal “Kathimerini” e fundador do site de análise económica “MacroPolis”.

O próprio Programa de Salónica explicita claramente as pretensões do Syriza neste campo, pedindo um “New Deal” europeu e uma completa renegociação da dívida grega. Aparentemente tais objetivos foram completamente derrotados pela “capitulação” de julho. Apesar de tudo, este é o ponto onde o Syriza acabou por fazer mais mossa: obrigou a Europa a discutir os seus programas e conseguiu uma ou outra concessão (como o valor dos excedentes orçamentais primários, onde os credores aceitaram descer de 1% para 0,25% para 2015, por exemplo).

Mais relevante ainda, Tsipras conseguiu manter em aberto a questão da renegociação da dívida. Exigida pelo próprio FMI, esta será discutida a partir de fevereiro. Fora da mesa, porém, está já um corte nominal (como os gregos pretendiam) devido à oposição de vários países da zona euro. Sobram contudo as alterações às maturidades, mas também a indexação do pagamento da dívida ao crescimento proposta por Yannis Varoufakis, que o “Wall Street Journal” garante ser uma hipótese.

Quaisquer mexidas na dívida acarretarão provavelmente mais austeridade — o FMI pretende, por exemplo, mais mexidas (leia-se cortes) no sistema de pensões. A negociação arrastar-se-á nos próximos tempos e poderá ser influenciada por fatores como o impacto que terá em Portugal, Espanha ou Irlanda (que irá a votos antes de abril). Isso significa que o que à partida seria uma clara conquista de Tsipras pode ser, de facto, uma vitória, ou, pelo contrário, transformar-se numa nova derrota como a de julho. A consequência será a aplicação de maior austeridade, minando a posição inicial do partido.

Um ano depois da eleição de Tsipras como chefe do Governo, 2016 pode vir a ser o ano do tudo ou nada do Syriza. Para Malkoutzis, o próprio Governo grego terá agora de demonstrar a mesma iniciativa e capacidade de leitura dos tempos atuais que revelou ter no campo dos direitos das minorias, concedendo a cidadania aos imigrantes de segunda geração e permitindo as uniões civis para casais homossexuais.

“Só aí o Syriza pode ter uma hipótese de ser recordado como algo mais do que o responsável pelo ano mais frenético e esgotante da história recente da Grécia.”