Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Primeiro-ministro iraquiano duvida que americanos tenham sido raptados

  • 333

Haider al-Abadi, primeiro-ministro iraquiano, no Fórum Económico Mundial, que decorre até sábado em Davos, na Suíça

RUBEN SPRICH/Reuters

Três civis de nacionalidade americana desapareceram no passado fim de semana no Iraque. Tudo indica que tenham sido raptados quando se encontravam em casa do seu intérprete no bairro de Dora, sul de Bagdade, onde vivem xiitas e sunitas

Helena Bento

Jornalista

O primeiro-ministro iraquiano duvida que os três civis americanos que desapareceram em Bagdade no passado fim de semana tenham sido raptados. Haider al-Abadi disse esta sexta-feira em Davos, na Suíça, onde decorre o Fórum Económico Mundial, que o sequestro ainda não foi reivindicado e que o mais provável é que os americanos tenham sido raptados por "gangues criminosos". Haider al-Abadi acrescentou que as autoridades iraquianas continuam a tentar localizá-los.

As circunstâncias em que os três americanos desapareceram continuam por esclarecer, mas acredita-se que tenham sido raptados quando se encontravam no apartamento do seu intérprete - no bairro de Dora, sul de Babgade - a convite deste. Mohammad Jabar, um comerciante de 35 anos, proprietário de uma loja localizada a alguns metros do referido apartamento, garantiu às autoridades ter visto vários homens vestidos com uniformes militares a chegarem de jipe ("cinco ou seis" veículos) e entrarem no apartamento, que terão abandonado pouco tempo depois. Só quando, horas mais tarde, começaram a ser divulgadas as primeiras notícias do sequestro, é que o Mohammad Jabar associou os dois acontecimentos.

Fonte dos serviços secretos iraquianos, falando em condição de anonimato, disse à Associated Press que os civis americanos foram levados do bairro de Dora, onde vivem xiitas e sunitas, para Sadr City, um bairro xiita densamente povoado. Foi nessa altura que "todas as comunicações cessaram", explicou a mesma fonte.

A embaixada americana no Iraque confirmou entretanto que não é a primeira vez que cidadãos americanos desaparecem no país, tendo sido já registados "vários casos" dessa natureza. A embaixada recusou-se, no entanto, a apresentar números, e também não quis divulgar a identidade dos três civis americanos nem explicar por que razão se encontravam no Iraque.

Combatentes do autoproclamado Estado Islâmico e milícias xiitas são responsáveis por grande parte dos raptos no Iraque

São também conhecidos casos de raptos envolvendo cidadãos de outras nacionalidades. Em setembro do ano passado, 18 turcos foram raptados por homens vestidos também com uniformes militares - e os rostos cobertos com máscaras - quando se encontravam numa zona de obras num bairro xiita. Foram libertados poucas semanas depois. Três meses depois, em dezembro, um grupo de homens ao volante de jipes invadiu um campo localizado numa zona remota e ocupada predominantemente por xiitas, utilizado para a prática da falcoaria, e raptou 26 indivíduos nascidos Qatar, que continuam desaparecidos. Na altura, o ministro do Interior iraquiano disse que por trás do sequestro estavam razões de ordem política, mas não foram relevados quaisquer outros detalhes.

A maioria dos sequestros registados no Iraque têm sido levados a cabo pelo autoproclamado Estado Islâmico e milícias xiitas, bem como por gangues que exigem o pagamento de quantias avultadas em troca da libertação dos indivíduos sequestrados, refere o "Washington Post". Outras vezes são razões de natureza profissional que estão por detrás dos raptos, como disputas de trabalho entre empregado e empregador.

Nathaniel Rabkin, editor do site "Inside Iraqi Politics", diz que "a escala e o grau de sofisticação" dos raptos recentes ocorridos no país sugere que os responsáveis "têm operado com alguma impunidade". "Uma coisa é raptar 26 indivíduos do Qatar no deserto, outra é termos quatro ou cinco brutamontes a raptar alguém no sul do país. Isso implica uma operação muito bem organizada, levada a cabo por um grupo relativamente bem instalado". Na sua opinião, há apenas um grupo a operar no Iraque que corresponde a este perfil, que são as milícias xiitas.

As milícias xiitas têm, como se sabe, desempenhado um papel importantíssimo no combate ao autoproclamado Estado Islâmico. Vários analistas políticos defendem até que sem o apoio dos xiitas, o Exército iraquiano nunca conseguiria ter recuperado a cidade de Ramadi, que estava sob controlo dos jiadistas desde maio de 2015 e voltou para as mãos do Governo no final do ano.

Mas sabe-se também que muitos desses xiitas estiveram no passado integrados nos grupos armados que combateram as tropas dos Estados Unidos em 2003, após a invasão do Iraque, e que raptaram e assassinaram inúmeros sunitas durante o conflito sectário que entre 2006 e 2007 sangrou o país. Logo, apesar de as milícias xiitas estarem ao lado dos Estados Unidos na luta contra o autoproclamado Estado Islâmico, o inimigo comum, a verdade é que há combatentes que ainda se dizem anti-americanos, agindo como tal. O "Washington Post" relembra o que aconteceu quando o Pentágono anunciou no mês passado o reforço das forças especiais norte-americanas no país, que caiu de tal modo no goto de uma das milícias xiitas que houve até ameaças ao Governo dos Estados Unidos.