Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Senti-me valorizada enquanto prostituta”

  • 333

Angela Villón, prostituta há 30 anos, decidiu candidatar-se ao congresso do Peru. A quem critica a sua decisão responde que não há grande diferença entre as duas atividades: “O congresso é um bordel onde se vende a consciência, a fé, a ética e os princípios”

A infância de Angela Villón não foi feliz. Em pequena, foi educada por um pai conservador com uma visão antiquada das relações entre homem e mulher que lhe ensinava que quando casasse seria propriedade do esposo; quando cresceu, farta de viver “com medo”, acabou por se entregar “ao primeiro homem que apareceu”. Engravidou. Até começar a trabalhar como prostituta, foi um passo curto: “Fiquei grávida e sozinha e, quando consegui fugir de casa, fui viver para a rua. (…) Acabei por começar a trabalhar como prostituta, porque o bebé ficou doente e não tinha dinheiro para pagar os medicamentos”, conta ao “El País”.

Hoje em dia, a vida de Angela parece ter dado uma grande reviravolta. Aos 51 anos, a prostituta e ativista cansou-se de ver as suas reivindicações políticas ignoradas e decidiu candidatar-se ao congresso do Peru, onde vive, pelo partido Frente Amplio. Quanto à sua posição política, declara-se “uma mulher de esquerda, mas da esquerda moderna, não da arcaica, que procura oportunidades iguais para todos”.

As causas defendidas por Angela têm frequentemente que ver com o seu trabalho: a candidata ao congresso pede leis mais específicas sobre a violência de género e as condições em que as suas colegas trabalham, assim como a inclusão da disciplina de educação sexual nas escolas, a despenalização do aborto em caso de violação e a união civil (sendo que os dois últimos projetos de lei foram apresentados em 2013, sem conseguir aprovação do congresso, o órgão legislativo do Peru).

Falando contra a “cultura conservadora e católica” do Peru, Angela mostra-se indignada com os retrocessos que diz testemunhar no seu país relativamente à igualdade de direitos: “Há políticos que não concordam que as pessoas de diferentes sexos devam ter os mesmos direitos, mas não vou discutir com elas, têm um atraso mental”.

“O congresso é um bordel onde se vendem os princípios”

Hoje em dia, Angela vive numa casa grande e bem decorada com os seus quatro filhos e o companheiro, todos eles conscientes do trabalho como prostituta. Uma opção que Angela não renega: “Senti-me valorizada enquanto prostituta e senti vontade de ser feliz”, cita o diário espanhol. Mas a candidata ao congresso vai mais longe e em entrevista ao canal AJ+ declara: “Para mim, puta é sinónimo de liberdade”.

Para quem critica a sua candidatura às eleições de 10 de abril, Angela tem uma resposta firme: “O congresso é um bordel onde se vende a consciência, a fé, a ética e os princípios. Há grandes negócios de corrupção”.