Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Queremos que sejas o líder da aldeia

  • 333

Na aldeia de Karangpatihan, algures na Indonésia, vivem 120 pessoas. Destas, 30 têm alguma deficiência. A situação é dramática mas está a mudar graças a Eko Mulyadi, o homem que a população escolheu como líder

Quando Eko Mulyadi tinha quatro anos, o seu pai trouxe para casa uma criança e decidiu cuidar dela. Embora Mulyadi fosse pequeno, percebeu imediatamente que o outro menino era diferente: quando iam juntos para a escola - uma raridade na remota aldeia indonésia onde ambos viviam -, o menino não dizia uma palavra.

O rapaz que o pai de Mulyadi trouxe para casa e que acabou por se tornar seu amigo tinha deficiências graves. No entanto, os seus problemas de saúde não seriam assim tão evidentes para a população de Karangpatihan, uma vez que 30 dos 120 habitantes daquela aldeia têm alguma deficiência.

Mulyadi cresceu e hoje em dia é o herói de Karangpatihan, onde quem entra pode ver de imediato um cartaz com a sua fotografia. Tudo porque, como conta à BBC, a então criança começou a interessar-se pelo caso do seu amigo e a perceber as dificuldades que as pessoas com deficiência tinham de enfrentar. Quando concluiu os seus estudos superiores, começou por doar comida e as suas próprias poupanças a quem precisava. Mas rapidamente percebeu que precisava de fazer mais.

“Estava sempre preocupado com estas pessoas. Eram tão pobres e infelizes”, explica à televisão britânica. Por isso, e esperando conseguir apoio e cuidados médicos para a população, contou a história da sua aldeia a um jornalista local. Mas o resultado não foi o esperado: o jornalista publicou uma peça titulada “A aldeia dos idiotas”.

O que inicialmente foi motivo de frustração para Mulyadi rapidamente se transformou numa vantagem: o artigo atraiu as atenções para Karangpatihan e rapidamente o Governo garantiu apoios para a população, nomeadamente um programa de construção liderado por Mulyadi.

“Quis fazer algo por estas pessoas. Quis provar que elas também são capazes, que podem ser úteis e criativas e tratadas como iguais”, explica à BBC. O resultado da confiança que Mulyadi depositou nestas pessoas, além do “difícil” treino que lhes proporcionou - muitas delas são mudas - já pode ser visto: “Eles acabaram por construir estradas, pontes e casas. Até construíram uma escola”.

Desde que Mulyadi chamou, algo inadvertidamente, a atenção para as necessidades dos habitantes daquela aldeia indonésia, as teorias sobre o que leva, desde a década de 1950, um quarto da população a nascer com deficiências ou a desenvolvê-as posteriormente multiplicam-se: há quem diga que o problema se deve à consanguinidade, uma vez que a aldeia está geograficamente isolada; outros falam dos problemas com colheitas e da pouca produção de comida. Para Mulyadi, a raiz do problema prende-se com a pobreza e a malnutrição que ali se fazem sentir - 70% das famílias enfrentam estes problemas.

“Queremos que sejas o líder da aldeia”

Depois do primeiro programa de construção, Mulyadi já ajudou muitas pessoas em workshops e programas que visam estimular outras capacidades. E recebeu o devido reconhecimento: “Eu nunca quis ser o líder da aldeia. Nunca foi a minha ambição. Mas uma noite um homem veio a minha casa. Eu estava a dormir desde as onze da noite. Ele acordou-me e levou-me a um quarto onde se encontravam quase todos os habitantes. Estavam lá umas 90 pessoas, tanto novas como velhas, que me disseram: 'Queremos que sejas o líder da aldeia'”.

Hoje em dia, a casa de Mulyadi está aberta a todos: qualquer pessoa pode entrar e ficar por lá durante o tempo que quiser, especialmente se tiver deficiências ou problemas de saúde. No entanto, os recursos que tem não lhe permitem ajudar toda a gente: Campret, por exemplo, é um homem de 39 anos com deficiências graves que não se consegue expressar nem trabalhar, mas que a população considera válido por não ter problemas a nível físico.

O líder da aldeia sabe que há muito por fazer, mas quer continuar a ajudar quem precisa: “No passado, as pessoas com deficiência encontrar-se-iam com frequência sentadas à beira da estrada, sem fazer nada. Hoje, é muito raro que isso aconteça. A nossa aldeia já é um lugar muito diferente”.