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Quem é Bahrun Naim, o alegado cérebro do atentado de Jacarta

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Reuters

A sua ambição é tornar-se o líder do Daesh no Sudeste Asiático, dizem as autoridades, para quem Naim não é um desconhecido. Em 2010 foi preso, condenado pela posse de armamento e estará agora na Síria, onde tem um papel importante na estrutura, nomeadamente, como recrutador de novos jiadistas

Quem lê as descrição de Solo - uma pacata vila a cerca de 650 quilómetros de Jacarta, na Indonésia - dificilmente lhe passa pela cabeça que o local seja um foco de extremistas e grupos radicais, onde militam o tipo de jovens dispostos a dar a vida pelo sucesso de atentados em nome do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

A localidade já viveu os seus dias de glória, como um centro importante de produção textil, explica uma reportagem da “BBC”, mas deixou-se ultrapassar por outros, mais competitivos, e a sua economia perdeu o vigor de outrora.

Há quem atribua a este seu novo estatuto de município em crise a razão para que tantos jovens se sintam tentados a seguir os piores caminhos. A evidente falta de alternativas perde para a aura de aventura associada ao jiadismo, doutrina que ainda por cima lhes ‘vende’ uma promessa de transformação fácil em super-heróis.

A explicação pode ser insuficiente para entender o fenómeno, mas ajuda. E é por isso que , enquanto grande parte dos habitantes de Solo se diz envergonhada por saber que foi de entre os seus que saiu Bahrun Naim - considerado o cérebro do atentado que na semana passada matou, pelo menos, seis pessoas em Jacarta - haverá outros que o celebram, sentindo-se tentados a seguir os seus passos.

Um blogue para apelar à realização de mais ataques

Sobre Naim sabe-se alguma coisa, especulam-se muitas outras e adivinha-se uma conclusão: o antigo estudante de matemática, técnico informático e gestor de um cibercafé, de 32 anos, terá a ambição de se tornar o líder do Daesh no Sudeste Asiático. E vai fazendo por isso.

Por estes dias, com as forças de segurança a rondarem a casa de família e as manchetes dos jornais a apontarem o dedo a Bahrun Naim, o seu irmão, Dahlan, tem tentado contrariar o que é dado como certo, fala aos jornalistas em injustiça e acusações sem provas. Mas é o próprio Naim que parece empenhado em provar a sua culpa.

Oscar Siagian/Getty Images

Depois de ter estado bloqueado durante alguns dias, um blogue que tem o seu nome voltou a estar acessível, com o teor das mensagens publicadas a subir de tom. Se aí se tornou habitual encontrar elogios aos atentados, como aconteceu após Paris, informação sobre como fazer explosivos e conselhos/incentivos para quem se queira juntar ao movimento islâmico radical; as novas publicações são um apelo à realização de mais ataques, nem que seja através de meios rudimentares.

“Usem chaves de parafusos... facas de cozinha... ou até vidros partidos”, pode ler-se no manifesto pró-terrorismo escrito na segunda-feira. O importante, conclui o texto, é “matar os inimigos”.

As autoridades acreditam que Bahrun Naim está atualmente na Síria. Terá ido para o país em 2014, para lutar nas fileiras do Estado Islâmico, depois de uma passagem de quase três anos pela prisão - foi condenado pela posse de armamento em 2010 - e de se ter radicalizado.

Elo de ligação com o Daesh

Tal como as forças de segurança descrevem o seu papel dentro da estrutura, Naim será uma figura-chave, responsável por recrutar novos elementos e por coordenar os ataques na Indonésia, além de funcionar como elo de ligação entre um dos grupos radicais do seu país e o Daesh no Médio Oriente.

Como chegou aí não é absolutamente certo, mas as pinceladas que se conhecem do seu percurso não deixam muito à imaginação. Para começar, Naim não é o primeiro terrorista a sair de Solo. Antes dele, já Abu Bakar Bashir - o mentor do grupo Jemaah Islamiah, responsável pelos ataques à bomba no Bali, em 2002 - tinha colocado a localidade no mapa, ao instalar na região uma escola para promover a sua ideologia. Não foi aí que Naim estudou, mas a escola que frequentou não ficava longe e a polícia concluiu que muitos radicais frequentavam a mesquita dirigida pelos diretores deste colégio.

A escola pode, então, ter sido o princípio daquilo que a estadia na prisão apurou. E a que acrescentou as vistas largas. Para alguém com os seus objetivos, a Indonésia é um país com ‘potencial’. Nada menos que 21 grupos organizados, sete dos quais assumidamente apoiantes do Daesh, com elementos facilmente ‘conquistáveis’ para a causa.

Em novembro, a agência Reuters entrou em contacto com Bahrun Naim, através da rede social Telegram, utilizando informações fornecidas por um dos seus conhecidos. Nesse contacto, já a pessoa que se identificou como Bahrun Naim afirmava que havia partidários do Estado islâmico mais do que suficientes para “realizar uma ação” na Indonésia. “Apenas estamos à espera do momento certo”, disse Naim.

Não foi preciso esperar muito. E depois de Jacarta, o principal receio das autoridades é que outros ataques possam estar a ser planeados.

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