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Amnistia denuncia campanha anti-árabe no Curdistão iraquiano

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Voluntários yazidis que combatem ao lado dos curdos “peshmergas” pilham casas em Sinjar, dias após a reconquista desta cidade ao Daesh, em novembro

© Azad Lashkari / Reuters

Um relatório da organização humanitária revela que forças curdas iraquianas demoliram, fizeram explodir e queimaram milhares de casas num esforço deliberado para punir e forçar comunidades árabes à deslocalização

Margarida Mota

Jornalista

É uma guerra paralela no Iraque — a disputa por território em nome de identidades étnicas. “Forças peshmergas do Governo Regional do Curdistão e milícias curdas no norte do Iraque demoliram, fizeram explodir e queimaram milhares de casas num esforço aparente para desenraizar comunidades árabes em vingança ao que percecionam ser um apoio ao autodenominado Estado Islâmico [Daesh]”, denuncia a Amnistia Internacional num relatório divulgado esta quarta-feira.

O documento — intitulado “Banidos e desapossados: deslocamento forçado e destruição deliberada no norte do Iraque” — assenta numa investigação feita em 13 cidades e aldeias das províncias de Ninive, Kirkuk e Diyala, capturadas ao Daesh entre setembro de 2014 e março de 2015, em testemunhos de mais de 100 pessoas e imagens recolhidas por satélite.

As conclusões apontam para uma destruição em larga escala realizada por “peshmergas” (forças curdas iraquianas) e, em alguns casos, por milícias yazidis e grupos curdos armados oriundos da Síria e da Turquia, coordenados com os “peshmergas”.

“Forças do Governo Regional do Curdistão parecem estar a liderar uma campanha concertada para deslocar à força comunidades árabes, destruindo aldeias inteiras em áreas reconquistadas ao Daesh no norte do Iraque”, acusou Donatella Rovera, conselheira da Amnistia que investigou no terreno. “A deslocação forçada de civis e a destruição deliberada de casas e propriedades sem justificação militar podem constituir crimes de guerra.”

Estratégia inversa à de Saddam

Os curdos, que não são árabes, correspondem a cerca de 20% da população iraquiana e são a etnia maioritária no norte do país. Apoiados por bombardeamentos aéreos dos Estados Unidos, os “peshmergas” têm conseguido recuperar territórios ao Daesh, alguns etnicamente mistos.

Citado pela agência Reuters, Dindar Zebari, do departamento internacional do Governo do Curdistão, justificou que a destruição resultou dos combates entre os “peshmergas” e os jiadistas, bem como dos bombardeamentos da coligação internacional e de bombas deixadas para trás pelo Daesh. E recordou que a região deu guarida a 700 mil árabes em fuga à violência no resto do país.

A Amnistia Internacional alerta a coligação para que se assegure que a assistência ao Governo do Curdistão não contribua para abusos, nomeadamente para um processo inverso à campanha de arabização da região promovida por Saddam Hussein. Então, as populações visadas por deslocações forçadas foram os curdos.