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Reaparecem (mais ou menos) dois dos livreiros desaparecidos de Hong Kong, mas o mistério permanece

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PHILIPPE LOPEZ/Getty Images

Há sinais de vida de Lee Bo e de Gui Minhai, dois dos funcionários da editora Mighty Current estranhamente desaparecidos nos últimos meses. O primeiro escreveu mais uma carta, dizem polícias da província de Guangdong, e o segundo deixou-se filmar num centro de detenção. Em comum, dizerem que estão na China “voluntariamente”. Nem todos acreditam...

Lee Bo, o último dos cinco livreiros que desapareceram misteriosamente de Hong Kong, está na China. A informação foi emitida por agentes de segurança da província chinesa de Guangdong, em resposta ao pedido que lhes foi endereçado pelas autoridades de Hong Kong.

Depois de no final de dezembro se ter perdido o rasto ao editor de 65 anos e com passaporte britânico, vários ativistas manifestaram a sua preocupação, acusando a polícia chinesa de ser responsável pelo sequestro dos vários homens ligados à editora Mighty Current, conhecida por lançar no mercado obras muito pouco simpáticas para o regime. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido expressou a sua desconfiança.

Segundo a polícia de Hong Kong, além de confirmar a presença de Lee Bo na China, as autoridades de Guangdong remeteram uma carta supostamente escrita pelo livreiro e endereçada ao Governo de Hong Kong. A missiva é, aliás, muito parecida com uma outra, divulgada pela imprensa e dirigida à mulher, onde Lee afirma ter ido para a China “voluntariamente” com o objetivo de ajudar as autoridades numa determinada investigação, que não explica.

Este desenvolvimento acontece apenas um dia depois de ter surgido na televisão pública chinesa outro dos desaparecidos. Com um discurso de profundo arrependimento e entre soluços, Gui Minhai - que tem passaporte sueco e deixou de ser localizado em outubro, quando estava na sua casa em Pattaya, na Tailândia - começou por explicar ter fugido da China há alguns anos, por ter medo de ir preso após o seu envolvimento num acidente onde uma jovem morreu. Filmado num centro de detenção, Minhai disse depois que o seu regresso à China aconteceu por estar disposto a enfrentar a justiça pelo erro do passado, justificação que não convenceu a filha, nem muitos dos que têm acompanhado o caso.

Tal como Lee Bo, que desapareceu sem avisar na noite em que saiu de casa para ir ao armazém buscar uns livros encomendados, a Minhai perdeu-se o rasto num dia em que testemunhas afirmam tê-lo visto sair num carro conduzido por um chinês que esperou várias horas pela sua chegada a casa. Nada disse à família e nos telefonemas feitos entretanto nunca mencionou onde estava exatamente ou quando planeava voltar.

No vídeo divulgado, o editor dirige-se ainda às autoridades suecas pedindo que a sua vontade seja respeitada e não interfiram. “Embora tenha nacionalidade sueca, no fundo vejo-me como um cidadão chinês. As minhas raízes estão na China”, disse, antes de acrescentar: “Espero que respeitem as minhas escolas pessoais, os meus direitos e a minha privacidade, permitindo-me que eu próprio lide com os meus problemas”.

São ‘reaparecimentos’ tão suspeitos como a anterior saída de cena dos dois homens, denunciam os ativistas dos direitos humanos, enquanto o governo Sueco prefere não comentar, continuando a pressionar as autoridades chinesas num esforço para clarificar o que se está a acontecer.

Sabendo-se que na manga a editora tinha o lançamento de um livro sobre as amantes do presidente Xi Jinping, há quem se recuse a separar este facto do mistério que envolve os funcionários da Mighty Current. Novos desaparecidos, velhos métodos, lê-se nas entrelinhas dos muitos cartazes empunhados nos protestos.

  • O mistério dos cinco livreiros desaparecidos

    Lee Bo é apenas o mais recente dos desaparecimentos em Hong Kong ligados à editora Mighty Current, conhecida por disponibilizar livros proibidos na China. De outubro até agora, são cinco as pessoas em parte incerta e nem uma suposta carta de Lee Bo afasta a suspeita de todos terem sido sequestrados pela polícia chinesa