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Auschwitz. Aos 95 anos e demente, antigo enfermeiro não escapa ao julgamento

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Entrada do antigo campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, localizzada na Polónia então ocupada pelos nazis, e onde se lia a inscrição “Arbeit macht frei“ (o trabalho liberta)

Christopher Furlong / Getty Images

Hubert Zafke foi enfermeiro no campo polaco durante apenas um mês, perídodo em que 14 comboios de prisioneiros chegaram ao campo de concentração na Polónia ocupada, e onde morreram mais de um milhão de pessoas

Um antigo enfermeiro do campo de concentração de Auschwitz, de 95 anos, começa a ser julgado a 29 de fevereiro por cumplicidade em 3681 mortes, anunciou esta segunda-feira a Justiça alemã.

Hubert Zafke foi enfermeiro no campo entre 15 de agosto e 14 de setembro de 1944. Durante esse período, 14 comboios de prisioneiros chegaram a Auschwitz-Birkenau, campo de concentração na Polónia ocupada onde cerca de um 1,1 milhões de pessoas foram mortas nas câmaras de gás.

Num desses comboios, proveniente do campo de trânsito holandês de Westerbork, seguia Anne Frank, a adolescente autora do diário mundialmente conhecido, os pais, Otto e Edith, e a irmã mais velha, Margot.

A família conseguiu passar a "seleção" à chegada ao campo, que separava os prisioneiros aptos para o trabalho dos que eram imediatamente gaseados, mas Edith acabou por morrer em janeiro de 1945, em Auschwitz, e as filhas em fevereiro do mesmo ano, no campo de Bergen-Belsen para onde tinham sido transferidas no outono de 1944. Otto esteve entre os sobreviventes que assistiram à libertação do campo pelas tropas soviéticas.

Segundo a acusação, Hubert Zafke "tinha consciência do objetivo do campo de Birkenau como campo de extermínio", assim como da respetiva estrutura. "Com essa consciência, o acusado apoiou a organização do campo e, como tal, esteve envolvido e contribuiu para o extermínio", afirmaram os procuradores na acusação formal de Zafke por cumplicidade no "assassínio cruel e insidioso de pelo menos 3681" pessoas.

O julgamento vai decorrer na cidade de Neubrandenburg, no nordeste da Alemanha, e realiza-se depois de um tribunal de recurso ter recusado uma decisão anterior que considerava que o acusado não estava em condições de ser julgado.

O tribunal reconhece no entanto que Zafke tem "défices cognitivos" e "débil condição física", pelo que determinou a realização de intervalos regulares durante as audiências e assistência médica ao acusado.

Segundo a imprensa alemã, Zafke sofre de demência.

O antigo enfermeiro foi julgado na Polónia em 1948 pelo seu papel nos crimes do nazismo e condenado a três anos de prisão. Cumpriu a pena e regressou depois à sua cidade natal, Neubrandenburg, onde trabalhou na agricultura.

Cerca de 1,1 milhões de pessoas, na maioria judeus, morreram no campo de Auschwitz-Birkenau entre 1940 e 1945. Mais de 70 anos depois, a justiça alemã tem em curso pelo menos uma dezena de investigações a antigos oficiais das SS.

No mais recente julgamento deste tipo de crimes, concluído em abril de 2015, o chamado "contabilista de Auschwitz", o ex-membro das SS Oskar Gröning, de 94 anos, foi condenado a quatro anos de prisão por cumplicidade na morte de 300.000 judeus.