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Eleições presidenciais em Taiwan. Ou “o início de uma nova era política”

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DAMIR SAGOLJ/REUTERS

Nas ruas, a frase que mais se ouvia entre os apoiantes da recém-eleita Presidente de Taiwan era que o país estava a fazer história. De facto, é a primeira vez que uma mulher vai assumir a presidência do país. Mas esta nova história que começa agora a ser escrita está longe de se cingir apenas a esse facto

Helena Bento

Jornalista

Tal como indicavam as sondagens, a candidata do Partido Democrata Progressista (PDP) foi a vencedora das eleições presidenciais em Taiwan. Tsai Ing-wen conseguiu quase 60% dos votos, contra os 31% de Eric Chu, representante do Kuomintang, que estava no governo. Ninguém tem dúvidas de que a vitória de Tsai Ing-wen, que é a favor da independência de Taiwan, inaugura um novo capítulo na história do país. Resta saber como ele será escrito.

Na sexta-feira à noite, depois de conhecidos os resultados das eleições, Tsai Ing-wen, uma advogada e ex-funcionária pública que chegou à política há 11 anos, agradeceu aos seus apoiantes pela confiança depositada e disse que a sua vitória representava "o início de uma nova era política em Taiwan".

O candidato Eric Chu, que abandonou a presidência da Câmara de Nova Taipé para se candidatar à presidência do país, reconheceu a derrota e lamentou ter defraudado as expectativas dos eleitores. No seu primeiro discurso ao país após serem conhecidos os resultados das eleições, Eric Chu felicitou Tsai Ing-wen e o PDP pela vitória e apresentou a sua demissão da liderança do partido.

Nas ruas, a vitória de Tsai Ing-wen foi muito festejada. Mais de 20 mil pessoas reuniram-se à frente da sede do PDP para celebrar de viva voz o resultado das eleições. Uma das frases que mais se ouvia era, segundo o "Guardian" - "estamos a fazer história". De facto, é a primeira vez que uma mulher vai assumir a presidência do país.

Mas a nova história que começa agora a ser escrita está longe de se cingir apenas a esse facto. É que Tsai Ing-wen, ao contrário de Eric Chu, sempre defendeu a soberania e independência oficial de Taiwan em relação à China. E foi precisamente isso que fez questão de frisar no seu primeiro discurso enquanto líder do país. "Os resultados de hoje revelam que as pessoas querem ter um Governo que se mostre mais disponível para ouvir as pessoas (…) revelam que as pessoas esperam ter um Governo que possa levar este país até à próxima geração, um Governo que se mantenha firme em proteger a soberania do país", disse. Mais tarde, em declarações aos jornalistas, Tsai Ing-wen deixou um recado a Pequim: "O nosso sistema democrático, a nossa identidade nacional e a nossa integridade nacional devem ser respeitados. Qualquer forma de violação afetará as relações entre os dois lados do estreito".

Taiwan, oficialmente República da China, nasceu em 1949 da derrota do general Chiang Kai-shek contra os comunistas de Mao Tsétung na guerra civil, que culminou na proclamação da República Popular da China. Chiang Kai-shek e as suas tropas e apoiantes acabaram por se refugiar na ilha de Taiwan, situada a cerca de 200 quilómetros da costa leste chinesa.

Nos últimos anos, Ma Ying-jeou, o Presidente cessante, ensaiou várias tentativas de aproximação a Pequim. Em novembro de 2015, ele e Xi Jinping, seu homólogo chinês, protagonizaram um encontro histórico - o primeiro entre líderes dos dois países desde o fim da guerra civil - para promover o desenvolvimento e fortalecimento das relações entre Taiwan e China. Mas, e de acordo com a opinião de alguns analistas políticos, o encontro não terá produzido os frutos esperados - os acordos feitos na área do turismo e do comércio não resultaram numa melhoria significativa na vida das pessoas, dizem, e isso terá pesado no voto dos eleitores.

As relações entre Pequim e Taiwan e a sua eventual anexação económica à República da China é um tema cada vais mais premente no país e não menos delicado. Ao mesmo tempo que Pequim tem mais de 1000 mísseis apontados a Taiwan para conter qualquer tentativa de independência e destruir quaisquer esperanças de secessão, a maioria da população não vê com bons olhos a aproximação entre os dois países. Os taiwaneses temem perder a sua identidade e cultura e submeter-se ao jugo da China.

Apesar de defender a soberania do país, Tsai Ing-wen não deu provas de querer vir a incomodar os líderes do Partido Comunista Chinês - para quem Taiwan é parte do território da China - com as suas pretensões de independência. A recém-eleita Presidente prometeu, inclusive, manter a relação entre Taiwan e a China nos moldes atuais. Prefere a "estabilidade" e a "paz" ao conflito. Durante o período de campanha eleitoral nem sequer abordou o tema das relações bilaterais entre os países. Isso não impediu, contudo, que no sábado, já a tarde ia avançada, o seu nome fosse bloqueado na Internet, na China, quando se começou a perceber, para gáudio de uns e tristeza de outros, que ela seria, de facto, a próxima Presidente de Taiwan.