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Há 21 anos a tentar provar a inocência

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Uma investigação jornalística do “The Guardian” pretende levantar fundadas dúvidas sobre a condenação de uma norte-americana a prisão perpétua, detida há mais de 21 anos

Terça-feira, 20 de setembro de 1994. Algures num bairro pobre de Dayton, Ohio, EUA, dois grupos de jovens envolvem-se em confrontos, noite cerrada. Michelle Lai, uma adolescente de 15 anos, é baleada na cabeça. Tyra Patterson, então com 19, é condenada a prisão perpétua. Não foi ela que puxou o gatilho da .22 que tirou a vida à adolescente mas o tribunal não teve dúvidas de que foi coautora do homicídio. Desde então que reclama inocência. Esta quinta-feira, o “The Guardian” começa a analisar a sua versão dos factos numa investigação que poderá revelar uma nova verdade sobre este caso.

Das cinco as pessoas envolvidas no crime, ela é a única que ainda continua presa. 21 anos e quatro meses atrás das grades. 7787 dias. Muitos deles a sonhar com a liberdade. A pensar que um dia vai conseguir provar que naquela madrugada fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir o crime.

“Este caso terminou em tragédia: Michele Lai não sobreviveu. Tyra Patterson está viva, mas foi acusada de homicídio e ficou impedida de viver. Mas a maior tragédia tem sido querer provar a sua inocência e ninguém estar disponível para ouvir a sua versão”, disse ao “The Guardian” o atual advogado de defesa, David Singleton.

Impedido pelas autoridades judiciais do estado do Ohio de entrevistar Tyra Patterson para não ferir a sensibilidade dos familiares da vítima, o jornalista do “The Guardian” Ed Pilkington passa em revista um longo depoimento de 53 minutos concedido pela reclusa 037737 há cerca de dois anos a um repórter do “Dayton Daily News”. Revisita ainda depoimentos contraditórios sobre quem fez o quê na noite fatídica e outros entretanto concedidos que testemunham as tentativas de Patterson para apaziguar os ânimos exaltados e travar os atos irrefletidos.

Certezas inabaláveis

Mas estas histórias vivem de versões antagónicas e de certezas inabaláveis. Durante o julgamento, que levou cerca de uma semana em dezembro de 1995, a procuradoria argumentou que Tyra Patterson esteve diretamente envolvida nos confrontos, roubou um colar e alguns anéis e até terá gritado para a dona da .22 “dispara!, dispara!”.

Ao jornalista do “The Guardian”, 21 anos depois, Leon Daidone, o homem que então investigou o crime mas que faltou ao julgamento por motivo de doença, disse que “as provas apresentadas demonstravam que Patterson foi muito mais do que uma mera espectadora - ela tomou parte na ação.” E mais acrescentou que ficou indiferente às últimas tentativas da reclusa e do seu advogado para provarem a sua inocência, já que os novos factos alegados nunca foram dados como provados em tribunal. “As vítimas [deste crime], tal como Tyra Patterson, também têm direito à Justiça.”

Os Estados Unidos têm atualmente mais de 2,2 milhões de reclusos, quase um quatro de toda a população prisional a nível mundial. Destes, cerca de 100 mil são mulheres. Nas últimas quatro décadas, as condenações a prisão perpétua passaram de 34 mil em 1984 para 160 mil em 2012. Se algum dia conseguir provar a sua inocência, não há de ser o primeiro nem o último caso.