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As aventuras secretas dos polícias que dedicam a vida a apanhar mafiosos

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Estes agentes nunca mostram a cara nem revelam o nome verdadeiro

ROBERTO SALOMONE

Recebem cabeças de cabra à porta de casa e fotografias da matrícula dos seus carros marcadas com uma cruz vermelha. É por isso que mantêm os seus nomes e caras no maior secretismo

Parece material para uma nova sequela da saga “O Padrinho”, mas, para cerca de 20 pessoas, é mesmo a vida real. Para eles, é normal receber ameaças de morte, algumas bem explícitas, como as cabeças de cabra que lhes vão parar à porta de casa ou as fotografias da matrícula dos seus carros marcadas com uma cruz vermelha. Eles são os Catturandi, polícias de elite - ou, como preferem ser conhecidos, “o grupo dos Leões” - e dedicam a vida a pôr mafiosos sicilianos atrás das grades.

A história é trazida pela BBC, que chegou à fala com um dos agentes - tudo feito, obviamente, no máximo secretismo. É assim que os Catturandi vivem a vida: são pessoas “sem cara e sem nome” que estão, conta o agente, “prestes a atacar a qualquer momento nesta selva”. Por isso, convém que as suas identidades não sejam conhecidas - andam sempre de cara tapada.

À televisão britânica, o agente conta alguns dos métodos que utiliza para apanhar mafiosos. “É como viver com estas pessoas. Ouvimo-los a conceber os filhos, ouvimos as discussões familiares, vemos os filhos a crescer e as emoções deles passam a ser nossas”, detalha, explicando que muitas vezes estes agentes escutam e perseguem os criminosos durante várias décadas.

Um desses casos é o de um criminoso que era médico em Palermo e que agora está preso. O agente relata que toda a equipa que espiou este homem “aprendeu sobre literatura italiana por o ouvir constantemente”. Às vezes é difícil manter a distância: “Estávamos todos fascinados pelos seus modos, a sua forma de pensar e a sua criatividade. Era difícil acreditar que fosse um monstro”, diz o mesmo agente, que acrescenta que “quando um deles é preso, começamos a sentir a sua falta”.

“No dia seguinte juntei-me à polícia”

O agente relata a forma como decidiu juntar-se a esta equipa da polícia italiana. E foi mesmo à filme: a 23 de maio de 1992, a máfia colocou meia tonelada de explosivos na estrada que dava acesso ao aeroporto internacional de Palermo, matando o juiz antimáfia Giovanni Falcone. O agente, que era então um estudante de biologia, soube das notícias pelo pai da namorada, o chefe de uma equipa policial em Palermo, quando ambos se encontravam na festa de aniversário da jovem.

Vendo o sofrimento dos polícias ali presentes, que deixaram a festa em lágrimas, o futuro agente decidiu conduzir até ao centro da cidade para investigar o que se passara. Quando percebeu que a população não parecia estar muito preocupada com o assunto, decidiu que tinha de fazer alguma coisa. “No dia a seguir, juntei-me à polícia para apanhar os maus da fita.”

Desde aquele dia, este agente já apanhou cerca de 300 “maus da fita”, incluindo homens fortes da máfia italiana como Giovanni Brusca. No entanto, a captura de Salvatore “Toto” Riina deverá ter tido um sabor especial: este foi o homem que ordenou a morte do juiz Falcone.