Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Ele sabia que ia morrer.” A ameaça que assombra os jornalistas sírios

  • 333

A morte de Naji Jerf provocou manifestações de indignação, tanto nas ruas como nas redes sociais

STR

“Naji foi uma das primeiras pessoas que tentaram documentar o que se estava a passar na Síria.” Por isso, os extremistas do Daesh mataram-no. Desde então, os jornalistas sírios não voltaram a ter descanso

Naji Jerf sabia que mais tarde ou mais cedo acabaria por ser morto por exercer a sua profissão. Tinha razão: o realizador, jornalista e ativista foi assassinado a 27 de dezembro na cidade turca de Gaziantep, em plena luz do dia, num ataque reivindicado por militantes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Jerf nunca chegou a fazer a viagem que tinha planeado para essa segunda-feira, altura em que partiria de vez para França com a mulher e as duas filhas pequenas, e os jornalistas sírios, a quem servia de exemplo, não voltaram a ter descanso.

A prova de que Jerf sabia que a sua segurança, tal como a dos restantes jornalistas sírios, estava em risco é a carta que enviara à embaixada de França em Ancara e que lhe garantiu o asilo que não pôde aproveitar: “Vivo atualmente na cidade turca de Gaziantep e a minha segurança está a ser cada vez mais dificultada devido ao aumento de ameaças dirigidas a mim e à minha família”, pode ler-se no documento, citado pela BBC.

O ativista sabia que o seu trabalho era arriscado. Além de ser jornalista e colaborar com a organização Raqqa is Being Slaughtered Silently, vencedora do Prémio para a Liberdade de Imprensa Internacional atribuído pelo Comité de Proteção de Jornalistas em Nova Iorque, no mês passado, Jerf é ainda autor de um documentário que relata as ações do Daesh na cidade síria de Aleppo e que já foi visto mais de 12 milhões de vezes na internet.

“Ele tinha medo”

Em 2012, Jerf mudara-se para a Turquia por estar consciente dos riscos que corria na Síria. Mohammad Mallak, editor da revista síria “Saiedet Souria”, onde Jerf trabalhava, explica à BBC que “Naji foi uma das primeiras pessoas que tentaram documentar o que se estava a passar na Síria. O regime queria-o”.

O editor acrescenta que na altura em que Jerf se viu obrigado a instalar-se na Turquia, os dois começaram a ver os seus amigos e colegas “a serem capturados e mortos pelo regime”. “Sabíamos que se o Governo apanhasse um amigo, eles telefonariam à família dois dias depois para lhes entregar o seu corpo morto”, relata.

O amigo do realizador explica que com o lançamento do documentário sobre Aleppo, as ameaças dirigidas a Jerf aumentaram e o realizador consciencializou-se do perigo que corria. “Ele tinha medo. Ele sabia o que estavam a planear fazer-lhe. Mas ele não acreditava que o pudessem fazer. Ainda assim, dizia que sabia que o iriam matar”, explicita Mallak, com quem Jerf treinou algumas pessoas na Sìria para que pudessem fazer trabalho jornalístico: “Ele treinou mais de mil jornalistas-cidadãos, fosse cara a cara ou via Skype, para acompanhar a guerra”.

Aquilo que Jerf temia aconteceu. O ataque foi reivindicado por contas de Twitter associadas a jiadistas e a 10 de janeiro três pessoas foram detidas por suspeitas de ligação ao crime.

Turquia cada vez menos segura

O Comité de Proteção dos Jornalistas disse recentemente que os jornalistas sírios na Turquia sentem que o país está a tornar-se cada vez menos seguro para eles: “Eles temem que o Governo turco não esteja a fazer o suficiente para os proteger de potenciais ameaças que cheguem da Síria”, cita a televisão britânica.

O relatório divulgado pelos Repórteres Sem Fronteiras relativo ao ano de 2015 revela que a Síria se encontra no topo da lista dos países onde mais jornalistas são mortos, superada apenas pelo Irão, embora ambos registem o mesmo número de mortos confirmados (nove só no ano passado). Já a Turquia é um dos países onde mais jornalistas são presos (em 2015 foram registados nove casos).

  • Naji Jerf, o inimigo do Daesh que morreu porque fazia filmes

    Planeava mudar-se para França com a mulher e as duas filhas pequenas esta segunda-feira. Nunca vai concretizar essa viagem: foi morto este domingo por militantes do Daesh. Era realizador, ativista e, para os extremistas, “um alvo a abater”. Um dos seus documentários, que relata as atrocidades do Daesh na Síria, já foi visto mais de 12 milhões de vezes