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Bolsa chinesa. As aventuras de uma tia reformada que se tornou “corretora de pijama”

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Getty

Jornalista da BBC traça o percurso da sua tia Jin, que depois de se reformar passa os dias de olhos postos na bolsa onde investiu as poupanças de uma vida. Na China, o comportamento imprevisível de cerca de 90 milhões de pequenos investidores, como a tia Jin, será uma das principais causas apontadas para a volatilidade dos mercados

Quando a tia Jin chega a casa ao final da tarde veste o pijama mas não liga a TV. Liga o PC. Só que em vez de redes sociais e afins, esta chinesa reformada segue a par e passo os movimentos dos mercados financeiros onde investiu as poupanças de uma vida. Jin, cuja história está esta quarta-feira contada em pormenor pelo sobrinho no China Blog da BBC, é um dos 90 milhões de pequenos investidores que compraram ações de empresas cotadas na bolsa chinesa e cuja impreparação explicará em grande medida a imprevisibilidade dos últimos meses.

Conta o sobrinho que quando a tia Jin se reformou aos 55 anos, em 2009, seguia a par e passo os programas de TV onde empresários de alegado sucesso, trajados de fatos caros, mesmo à maneira, ensinavam as tias deste mundo a enriquecer. Os mercados bolsistas chineses registavam por esses dias um crescimento inacreditável.

E lá chegou o dia em que a tia Jin resolveu passar da teoria à prática, comprar um novo portátil, um smartphone, pedir ajuda ao sobrinho para instalar o software necessário, e tornar-se uma “corretora de pijama”. Com tais ferramentas, consegue monitorizar os mercados em tempo real e tomar decisões de forma mais consciente, conta o sobrinho, Vincent Ni, jornalista da BBC.

Mas os efeitos sobre o mercado bolsista de cerca de 90 milhões de pequenos investidores, sempre de dedo no gatilho e absolutamente imprevisíveis, voltaram a sentir-se na semana passada. Os especialistas chamam-lhe “comportamento de manada”. Uma “manada” onde dois terços só têm o ensino básico, de acordo com o China Household Finance Survey.

Segunda-feira, dia 4, na primeira sessão deste ano, as bolsas de Xangai e Shenzhen caíram 7% e foi ativado, pela primeira vez, um novo mecanismo para reduzir a volatilidade e que ditou o encerramento antecipado das negociações. Pretende-se desta forma impedir eventuais ruturas e evitar os dramas do verão passado, quando as bolsas chinesas registaram quedas diárias acima dos 7% e 8%, e o índice de referência do país, o de Xangai, chegou a tombar 8,49% num só dia, a 24 de agosto, a sua pior sessão desde fevereiro de 2007.

Yang Lihua, um jornalista de Xangai, foi um dos milhões de pequenos investidores que perderam muito dinheiro nos últimos tempos. Quase 50 mil euros. “Isto é uma desgraça. Fiquei devastado”, disse na semana passada a um camarada da Associated Press. “Não voltarei a investir”, garantiu-lhe.

A última vez que falou com a tia ao telefone, Vincent Ni pediu-lhe para ter cuidado. Há muito que tinha percebido que os seus estados de alma flutuavam ao sabor dos mercados. Já não era a primeira vez que a tia Jin falava com ele sobre os investimentos, convicta de que um jornalista teria uma visão mais realista sobre o futuro. Mas para Vincent Ni, por certo só teremos a incapacidade de prever o amanhã.