Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Na cidade onde não se sabe quantas mulheres foram abusadas naquela noite

  • 333

PEGIDA. Nacionalismo e direita aliados contra os ataques da noite de pasagem de ano

WOLFGANG RATTAY / Reuters

Colónia está irreconhecível desde os ataques da noite de passagem de ano: foram apresentadas 553 queixas, 54% das quais reportam “abusos sexuais”. Há refugiados entre os acusados e ainda ninguém sabe ao certo o que se passou e quantas mulheres foram atacadas. Manifestações de direita, contramanifestações, hooligans e neonazis ajustam contas, espalhando a inquietação. Com o maior carnaval da Europa à porta, a cidade tem pouco tempo para (se) convencer que a vida pode voltar ao normal. Reportagem em Colónia

Frank Gerstenberg, em Colónia

Uma garrafa de cerveja voa a milímetros da minha cabeça acabando estilhaçada com estrondo contra um carro da polícia. Centenas de agentes formam um cordão largo, equipados para a ação e com as viseiras dos capacetes descidas para proteger os olhos. As câmaras de filmar protegem-se por trás destas fileiras. Um cabeça rapada assustador atira os olhos injetados pela expressão de ódio na direção dos repórteres. Aproxima-se de peito feito e grita: “Fora daqui com a câmara, filho da puta, vai-te embora!”. O jornalista continua a filmar e vê um grupo de neonazis virar-se na direção dele aos gritos: “Cuidado, vamos dar cabo de ti!”.

POLÍCIA. As estratégias de defesa em Colónia têm sido alvo de críticas duras

POLÍCIA. As estratégias de defesa em Colónia têm sido alvo de críticas duras

FRANK GERSTENBERG

O cordão policial avança devagar apertando o espaço de manobra dos manifestantes à medida que a sua agressividade aumenta, empurrando também pelo caminho os jornalistas, alguns dos quais são obrigados a dispersar. Não pode haver erros. Os extremistas de direita têm de ser encaminhados para a estação. A polícia já deu por oficialmente terminada a manifestação há mais de uma hora (tudo isto aconteceu no sábado), mas a agressividade não diminui, pelo contrário. Já há vários polícias feridos e um jornalista seguiu para o hospital.

Os manifestantes do protesto Pegida, entre os quais se contam muitos hooligans e neonazis, gritam palavras de ordem na cara da polícia. “Onde, onde, onde estavam na passagem de ano?”, “nós somos o povo”, “Angela Merkel, a puta dos refugiados” ou ainda “fora os porcos salafistas”. A poucos metros de distância, separados por uma centena de polícias de choque com cães, esgrimem os contra manifestantes da aliança Colónia contra a Direita: “Fora os nazis”. Sente-se o perigo de nova escalada de violência na praça da estação de Colónia no sábado à noite.

O fim da paz social

Aconteceu o que se temia que decorresse dos acontecimentos da passagem de ano em Colónia: “Os idiotas deram cabo do sossego. Os refugiados têm agora a imagem que queríamos evitar a todo o custo”, diz ao Expresso Michael Temme, o chefe da polícia de Colónia. A Alemanha está a um passo do abismo, como titulava esta semana a revista “Der Spiegel”. A chanceler Angela Merkel preconiza "uma resposta firme do Estado de direito". O ministro da Justiça, Heiko Maas, fala de uma “violação da civilização”, de “hordas” que “podem vir a ser expulsas”.

JUSTIÇA! Protestos junto à catedral de Colónia de manifestantes exigindo justiça no caso das agressões do Ano Novo

JUSTIÇA! Protestos junto à catedral de Colónia de manifestantes exigindo justiça no caso das agressões do Ano Novo

FRANK GERSTENBERG

“Colónia teve a capacidade de alterar todo o debate sobre a política de refugiados”, diz um deputado europeu. Com estes acontecimentos, o politicamente correto parece ter acabado. Agora já nem se ouve falar da “cultura de boas-vindas”.

As consequências para cerca de meio milhão de refugiados atualmente na Alemanha são a partir de agora imprevisíveis. Os fóruns com mensagens de ódio multiplicam-se na internet. E crescem os apelos à violência, como o que Stephan Tautz fez no Facebook: “Todos metidos num navio e afundados no Atlântico”. A ZDF relata o encerramento de fóruns na internet de incitamento à violência, como o Nett-Werk Köln, porque a violência verbal pode facilmente tornar-se um campo de batalha, como diz o seu fundador Phil Raub. Há apelos a que se faça “justiça por linchamento, insultos e incitamento ao racismo”. Uma coisa é certa, os responsáveis pelos ataques de Colónia atiraram achas para a fogueira em que muitos gostariam de vê-los arder.

O que se passou realmente na noite de passagem de ano?

São 19h30 em Colónia. Ralf Kiesewetter, 47 anos, chefe dos empregados na cervejaria Kölsch Gaffel, situada entre a catedral e a estação de comboios, diz que a atmosfera era descontraída e bem disposta. Ele ouve gritos, mas não se apercebe da sua causa, já que o restaurante fica uns metros recuado atrás de uma arcada. Os clientes que regressam depois de um cigarro dizem-lhe que está enganado, que “é exatamente o contrário”. Kiesewetter sai e o que este profissional de 1,85 metros de altura vê faz-lhe chegar as “lágrimas aos olhos”. Ainda é cedo, mas já há muita gente jovem muito embriagada. “Gente do sul, de cabelos pretos, com e sem barba” a lançar foguetes. Estavam espalhados pelas escadarias da catedral e atiravam os foguetes na vertical, e “eu a ver que alguém podia ser atingido na cara”.

“Nunca vi uma coisa assim”, diz Kiesewetter. Porém, o pior estava para vir: Num tumulto, um negro perseguiu outro da praça da estação até à cervejaria e atirou-o ao chão. Bateu-lhe na cabeça com tal força que só com muita dificuldade o segurança conseguiu deter o atacante e chamar a polícia e uma ambulância. “Já não consegui reconhecer a cara da vítima, estava toda coberta de sangue e nem se percebia se era homem ou mulher.” De agressão sexual ou roubo, não viu nada naquela meia hora. Mas percebeu logo que “desta passagem de ano não sairia coisa boa”. O empregado do Gaffel diz não conseguir perceber porque é que a polícia não lançou o alarme logo naquelas primeiras horas de confusão, e só perto das 23h, para limpar a praça.

Particularmente chocante foi o comunicado de imprensa da polícia difundido na manhã seguinte, que assim descrevia a noite: “Como no ano passado, decorreu mais uma celebração de ano novo nas pontes do Reno, no centro de Colónia... pacificamente”, lia-se às 8h57 de 1 de janeiro de 2016. A responsável pela imprensa foi obrigada a desculpar-se na conferência convocada a 5 de janeiro na câmara municipal.

A partir daí não pararam de surgir novas informações sobre os acontecimentos da noite de 31 de dezembro. Até esta segunda-feira ao final da tarde, deram entrada na polícia 553 queixas, 54% das quais reportam “abusos sexuais”.

PROTESTOS. O quotidiano de Colónia mudou completamente

PROTESTOS. O quotidiano de Colónia mudou completamente

FRANK GERSTENBERG

O inquérito policial marca passo

As notícias divulgadas pela polícia e pela presidente da câmara Henriette Reker continuam a ser contraditórias. Primeiro falava-se de algumas centenas de homens do norte de África e árabes. Depois já eram milhares, no seio dos quais se teriam formado repetidamente pequenos grupos de atacantes. Dizia-se que esses elementos eram conhecidos desde há três anos por já terem cometido numerosos delitos.

O grupo dos verdes no conselho municipal acusa a polícia de ter falhado. Entrevistada pelo jornal “Express”, o chefe desse grupo, Joerg Frank, declarou: “Depois dos tumultos em outubro de 2014, a polícia mostrou-se mais uma vez mal preparada. A cidade tem um problema com a sua polícia”.

O presidente da polícia, Wolfgang Albers, rejeitou aquela afirmação numa conferência de imprensa. Defende que na noite em questão a polícia não poderia ter reagido de outra forma. “A situação era confusa.” Dois dias depois, o ministro do Interior do estado federado da Renânia do Norte-Vestfália demitiu-o.

Os autores dos ataques ainda não foram identificados. Foram detidos apenas cinco suspeitos, mas não por violações ou agressões sexuais. Apenas por roubo e receção de produtos de roubos. Este facto está a causar muito mal-estar.

“A investigação sobre delitos sexuais é extremamente difícil, uma vez que se baseia na identificação dos seus autores pelas vítimas. Até agora ainda não conseguimos identificar nenhum desses agressores”, declarou Ulrich Bremer, procurador da República em Colónia. Bremer diz que a investigacao está a ser conduzida pelo Departamento de combate à criminalidade organizada.

Elementos de grupos de direita armam-se agora em defensores contra sexismo e islão

A direita esfrega as mãos de contente, arma-se em “salvadora”, dizendo que o movimento Pegida protege contra os sexistas e os islamitas. Estes líderes dos “cidadãos indignados“ são, na realidade, apenas racistas.

DIREITA. Nacionalistas anti-islão querem fazer-se passar por defensores da população

DIREITA. Nacionalistas anti-islão querem fazer-se passar por defensores da população

FRANK GERSTENBERG

No sábado passado, viu-se e ouviu-se o que eles entendem por “proteção”: oradores como Michael Mannheimer apelam a uma “resistência nacional” e querem “proibir o islão”. A direita fala de guerra civil e agita bandeiras nazis. E não se ficam pelas palavras: os mais grosseiros e violentos de entre eles lançam vasos de flores e barreiras metálicas contra os polícias. As forças de segurança fazem repetidos apelos à calma... em vão. Manifestantes de direita tentam então furar a barreira policial e desta lançam-se granadas de gás lacrimogéneo. Avançam depois os canhões de água. A manifestação dispersa-se e a polícia toma conta da situação. Mesmo assim, a calma não regressa às ruas de Colónia.

Na noite de sábado, grupos de motards percorrem as ruas do centro. A cidade é conhecida pela sua tolerância, convivem nela 187 nações num milhão de habitantes. Desde há meses que está irreconhecível.

O Pegida manifesta-se e faz-lhe frente um grupo heteróclito que se intitula “Colónia opõe-se”. Hooligans assaltam carros da polícia e viram-nos de pernas para o ar. Grupos de selvagens transformam a noite de São Silvestre num inferno. E agora vem aí o carnaval, a festa mais importante na cidade da catedral. Ninguém quer renunciar à alegria do carnaval, mas a inquietação está instalada.