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“Ei, você aí, me dá um dinheiro”: recessão cancela desfiles de carnaval no Brasil

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Mario Tama/GETTY

Nem a festa mais popular do país escapa às consequências da crise económica. Uma das autarcas do país optou, por exemplo, por comprar uma ambulância em vez de aplicar o dinheiro - como previsto - no carnaval

“Ei, você aí! / Me dá um dinheiro aí! / Me dá um dinheiro aí!” A letra da marcha de carnaval composta pelos irmãos Ivan, Homero e Glauco Ferreira, em 1959, não podia ser mais atual. E será provavelmente umas das mais ouvidas nos blocos nas ruas. A crise que afeta atualmente o país leva os brasileiros a apertarem o cinto a vários níveis. E nem a festa mais popular do país - que recebe todos os anos milhões de turistas - escapa aos cortes.

Várias cidades brasileiras anunciaram o cancelamento dos desfiles de carnaval ou cortes com a quadra festiva. A falta de recursos é evidente, face à recessão que atinge o país.

É o caso da cidade de Porto Ferreira, situado na região de Pirassununga, no interior de São Paulo. O município anunciou o cancelamento do desfile de Carnaval, que tinha um orçamento estimado de cerca de 120 mil reais (27 mil euros).

Perante a situação económica adversa, a autarca de Porto Ferreira optou por canalizar esse montante para a compra de uma ambulância. “É com muita dor no coração que faço este anúncio. Foi uma decisão muito difícil e espero que todos a respeitem. Mas atravessamos uma crise financeira muito séria e a área da saúde é nossa prioridade”, declarou a presidente da câmara, Renata Braga, citada pela imprensa local.

Várias cidades da região de Campinas, no estado de São Paulo, também decidiram cancelar os tradicionais desfiles das escolas de samba e os carros alegóricos, como Campinas e Hortolândia. As autarquias locais invocam a necessidade de colmatar necessidades mais urgentes a nível social.

A Câmara de Campinas assegura, contudo, que os foliões poderão continuar a festejar a quadra nos blocos nas ruas, disponibilizando casas de banho e maior policiamento.

Em dezembro, a autarquia já tinha manifestado a sua intenção às associações e escolas de samba locais. “Explicamos para os dirigentes das escolas de samba, que foram muito generosos e compreensivos, que a medida é apenas para este ano”, declarou o vereador da Cultura, Ney Carrasco, citado pelo jornal online “Destak”.

Também o município Presidente Olegário, do estado de Minas Gerais, resolveu cancelar os desfiles de Carnaval nas ruas, prevendo uma poupança na ordem dos 100 mil reais (22 mil euros). “Devido à grande crise que passamos achamos por bem a não realização do carnaval 2016, com isso teremos uma economia significativa e poderemos utilizar esse dinheiro para obras planeadas para o ano de 2016”, afirmou o autarca António Cláudio Godinho, citado pelo site “PO News.”

A autarquia de Macapá, no estado de Amapá, decretou igualmente o cancelamento do desfile das Escolas de Samba no carnaval no Sambódromo local, face à escassez de recursos financeiros.

Adeus foliões, olá recessão

No município Coelho Neto, no estado do Maranhão, também não irão decorrer os tradicionais desfiles. “O Governo Federal está sem recursos, o Estado do Rio de Janeiro com todas as suas riquezas, por exemplo, enfrenta graves dificuldades e consequentemente o mesmo ocorre com municípios como o nosso que dependem das transferências da União”, disse o autarca Soliney Silva.

O correspondente do “Financial Times” escreveu num artigo, publicado esta segunda-feira, que a conjuntura do país também não fará com que os “brasileiros estejam muito virados para a festa”.

Neste momento, o Brasil está sob os holofotes internacionais, face à instabilidade política e económica. Além da crescente quebra de popularidade por parte da Presidente Dilma Rousseff e os recentes protestos contra o aumento do preço dos transporte públicos, a inflação não pára de aumentar.

No ano passado, o produto interno bruto (PIB) do país terá caído 3,7%, enquanto as estimativas mais recentes divulgadas pelo Banco Central apontam para uma quebra do PIB de 2,99% este ano.