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Atentado em Istambul foi o primeiro para abater turistas

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SEDAT SUNA / EPA

Ataque desta terça-feira de manhã que matou 10 pessoas quis alvejar o turismo – um sector que vale 25 mil milhões de euros por ano à economia turca. Istambul é uma das 10 cidades mais visitadas do mundo, tendo recebido no ano passado mais de 12 milhões de visitantes

O ataque suicida desta terça-feira de manhã em Istambul – que causou diversas vítimas estrangeiras – era não só esperado como também não será o último. Isto porque a Turquia é atualmente uma da frentes da guerra da Síria: Ancara é uma parte interessada e ativa no conflito – defendendo a mudança de regime mas também participando na coligação internacional contra o autodenominado Estado Islâmico (Daesh), e tem mais de dois milhões de refugiados em solo turco, de diferentes sensibilidades, além de várias células do Daesh.

A grande novidade é que foi o primeiro atentado jiadista a alvejar o turismo – um sector que vale 25 mil milhões de euros por ano à economia turca. Istambul – que é responsável por um terço de todas as receitas turísticas turcas – é uma das 10 cidades mais visitadas do mundo, tendo recebido no ano passado mais de 12 milhões de turistas. O atentado desta manhã é assim um ataque direto a uma das artérias estruturais da nação, e uma que abalará o Governo de Ahmet Davutoglu, a braços com uma economia em carburação lenta, numa altura em que Ancara prometeu dar autorizações de trabalho aos milhões de sírios que por cá andam, no âmbito do acordo com a União Europeia para parar o fluxo de refugiados.

Este ataque do Daesh – o atentado ainda não foi reivindicado, mas o modus operandi aponta nesse sentido – vem na sequência de quatro outros levados a cabo em solo turco pelos jiadistas durante o ano passado, numa tentativa óbvia de extender além-fronteiras a guerra sanguinária que decorre na Síria. O bombista suicida foi identificado inicialmente como um sírio de 28 anos com base em documentos encontrados no local, mas as últimas informações dão conta de que poderá também ser um cidadão de nacionalidade saudita.

Há um ano, uma jiadista de origem russa fez-se explodir numa esquadra da polícia precisamente na mesma praça do atentado desta manhã (Sultanahmet), matando um polícia. Depois, antes e depois das eleições legislativas na Turquia, os jiadistas levaram a cabo três atentados (dois deles suicidas) contra alvos curdos – um dos principais inimigos do Daesh na frente síria, matando centenas de pessoas. O duplo atentado suicida de outubro passado, na capital turca, matou 103 ativistas curdos e de esquerda, e foi até agora o mais mortífero ataque terrorista de sempre na história do país.

As autoridades turcas há muito que estão em estado de alerta, e têm evitado outros incidentes – antes do Ano Novo a polícia em Ancara deteve dois homens que alegadamente se preparavam para se fazer explodir na praça central da capital durante as celebrações. Mas com milhões de sírios na Turquia, mais de um milhar de cidadãos turcos a combater nas fileiras do Daesh, uma fronteira porosa ainda utilizada pelo “Califado” como a principal linha de abastecimento - os jiadistas ainda controlam cerca de 100 quilómetros de fronteira comum a oeste do rio Eufrates - e uma violenta campanha separatista curda no interior da própria Turquia, que tem concentrado as atenções do Governo de Ancara, as autoridades têm revelado alguma dificuldade em garantir a segurança pública. O atentado desta manhã no coração turístico de Istambul resultará de mais uma falha de segurança.

As consequências deste ataque poderão também fazer-se sentir na Europa, já que a maior parte das vítimas mortais serão estrangeiros, sobretudo alemães. Numa altura em que Berlim está sob pressão por causa da questão dos refugiados, após os incidentes em Colónia na passagem do ano, este desenvolvimento poderá também condicionar as relações entre a Turquia e a União Europeia.

Ainda esta segunda-feira esteve em Ancara o vice-presidente da Comissão Europeia Frans Timmermans, para continuar a negociar o acordo celebrado entre Bruxelas e a Turquia sobre os refugiados, segundo o qual Ancara deverá criar condições para os refugiados ficarem no país, a troco de 3000 milhões de euros. A partir de agora o terrorismo passará a ser também uma variável nesta equação, até porque todos os observadores estimam que os atentados jiadistas continuarão durante este ano.