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Contra o sexismo! Contra o racismo! E chefe da polícia demitido

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PROTESTO. Manifestação em frente à catedral de Colónia: “Contra sexismo! Contra racismo”, as vítimas exigem que se apurem responsabilidades

WOLFGANG RATTAY / REUTERS

Imigrantes e segurança dominam o debate na Alemanha, a propósito do ataque a dezenas de mulheres na noite de passagem de ano na estação central de Colónia, do modo como isso (não) foi noticiado, da (não) resposta das autoridades policiais e da ausência de esclarecimentos satisfatórios sobre o que se passou. Esta sexta-feira foi exonerado o chefe da polícia de Colónia

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Passada uma semana sobre o ataque a uma centena de mulheres na estação central de comboios de Colónia não há ainda esclarecimentos oficiais considerados verdadeiramente satisfatórios sobre o que ali se passou ao longo de horas na noite de passagem de ano. Segundo declaração do ministério federal do Interior desta sexta-feira, 18 das 32 pessoas detidas naquela noite são refugiados, suspeitos de crimes como roubo e assalto, ainda que nenhuma suspeita de agressão sexual. São nove argelinos, oito marroquinos, cinco iranianos e quatro sírios. Entre os outros 32 suspeitos contam-se dois cidadãos alemães, um iraquiano, um sérvio e um norte-americano.

Wolfganf Albers, o chefe da polícia de Colónia, foi exonerado das suas funções esta sexta-feira, na sequência das duras críticas por parte de vários sectores da sociedade e do Governo de que vinha a ser alvo desde o início da semana. A informação foi dada pelo tablóide alemão “Bild” e citada pelo site do jornal britânico “The Guardian”, esperando-se confirmação oficial ainda ao final do dia.

O desconforto na Alemanha cresce à medida que mais mulheres vítimas de assalto naquela noite vão dando o seu testemunho, já tendo ultrapassado a centena. A controvérsia radica em fatores sérios, como as políticas de abertura e acolhimento de refugiados e migrantes que tem valido críticas duras à chanceler Angela Merkel. Estes ganharam terreno com os testemunhos das vítimas e da polícia que, num primeiro momento, identificaram as centenas de atacantes e alegados violadores de Colónia como tendo aparência “árabe e africana”.

O incómodo aumentou quando os factos começaram a ser noticiados, só cinco dias depois do início de 2016. A polícia e os media são acusados de terem encoberto os acontecimentos, alegadamente com o objetivo de proteger os atacantes. A verdade é que as notícias foram surgindo à medida que eram conhecidos testemunhos, e não em reação ao acontecimento que esteve na sua origem.

CASA ROUBADA... Foi multiplicada a força policial destacada para garantir a segurança frente à catedral de Colónia

CASA ROUBADA... Foi multiplicada a força policial destacada para garantir a segurança frente à catedral de Colónia

MAJA HITIJ / EPA

O mesmo desconforto explodiu em controvérsia quando surgiram, num terceiro momento - e finalmente -, as declarações oficiais. A presidente da câmara de Colónia, Henriette Reker, atirou achas para a fogueira e acabou massacrada nas redes sociais por se ter dirigido às mulheres ofendidas, numa conferência de imprensa na terça-feira passada, com os seguintes conselhos: “Se não querem ser violadas, mantenham-se a um braço de distância de desconhecidos”, além de se manterem perto de pessoas conhecidas e pedirem ajuda aos restantes transeuntes...
“Sexismo típico”, assim resumiu um tweet as críticas à resposta oficial alemã. As mulheres são atacadas e elas é que são acusadas de não terem mantido a distância, respondia o hashtag que dominou as redes sociais #einarmlaenge, “um braço de distância”.

Na terça-feira, centenas de pessoas, na sua maioria mulheres, manifestavam-se em frente à estação central de Colónia, então já fortemente policiada, ao contrário do que aconteceu na noite de 31 de dezembro.

O ministro do Interior, Thomas de Mazière, criticou publicamente naquele mesmo dia a atuação e a estratégia subsequente da polícia de Colónia, sublinhando que as forças de segurança deveriam ter agido em cima dos acontecimentos - e não só a partir do momento em que surgiram queixas. Thomas de Mazière classificou os acontecimentos de Colónia como “inaceitáveis”, tal como a declaração por parte das forças de segurança locais que sustentaram que tinha sido tudo “amigável”. “A polícia não pode trabalhar assim”, disse de Mazière à cadeia de televisão ARD, pedindo “esclarecimento urgente” para o ocorrido.

PROTESTO II. Mulheres em Colónia num protesto contra a insegurança e o sexismo

PROTESTO II. Mulheres em Colónia num protesto contra a insegurança e o sexismo

OLIVE BERG / EPA

“Perante a lei, todos são iguais”, declarou o ministro Federal da Justiça, Heiko Maas, citado pela agência Reuters. Um dia mais tarde, na quarta-feira, Maas admitia ser “absolutamente concebível” a deportação para os estrangeiros que se apure contar-se entre os responsáveis pelos ataques da noite de passagem de ano. A reportagem do diário de Munique “Süddeutsche Zeitung” publicada nesta quinta-feira sublinha o facto de a polícia não ter conseguido evitar o caos que decorreu ao longo de horas na estação, durante o qual se fizeram ouvir os gritos de socorro das mulheres atacadas.

Relatos de Estugarda e Hamburgo descrevem o mesmo cenário, ainda que em muito menor escala: mulheres perseguidas, assaltadas e também roubadas. O jornal bávaro cita o chefe da polícia: “Uma dimensão de ataque completamente nova.” Também em Zurique, na Suíça, e Helsínquia, na Finlândia, se registaram ataques a mulheres na noite de passagem de ano, escreve esta sexta-feira a agência France Presse, acrescentando que a polícia finlandesa tinha sido avisada de planos para assediar mulheres por parte de requerentes de asilo.

Uma nova tendência

A ministra federal da Família, Manuela Schwesig, declarou “inaceitáveis os ataques a mulheres, seja qual for a forma que tomem”, reporta a Deutsche Welle.

Angela Merkel exprimiu a sua “raiva perante os ataques e abusos sexuais terríveis” num telefonema a Henriette Reke. Defendeu ainda que “todos os esforços” deveriam ser feitos para “investigar tão profunda e rapidamente quanto possível os culpados e puni-los independentemente do aspeto que tenham, de onde venham ou quais sejam as suas origens”, segundo a agência DPA.

HAMBURGO. A polícia alemã está a investigar se os ataques a mulheres de Hamburgo estão ligados aos acontecimentos de Colónia

HAMBURGO. A polícia alemã está a investigar se os ataques a mulheres de Hamburgo estão ligados aos acontecimentos de Colónia

CHRISTIAN CHARISIUS / EPA

Sem precedentes em escala e natureza, o ataque de Colónia cria novas dificuldades à gestão dos refugiados e migrantes na Alemanha. A questão recai sobre a segurança interna, uma vez que a área central de Colónia - onde se situa a estação de comboios central - foi declarada pelas autoridades “zona não recomendável”. Do ponto de vista criminal, a polícia está a considerar a hipótese da atuação de redes criminosas em ataques concertados.

As tensões que cresceram ao longo do ano encontraram agora escape. Os partidos da direita e da extrema-direita alemã - da Alternativa para a Alemanha, AfD, ao movimento xenófobo Pegida - aproveitaram a oportunidade para atribuir responsabilidades às políticas de acolhimento ilimitado de migrantes defendidas por Angela Merkel.