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Pichação, uma cidade inteira pintada com letras obscuras

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MAURICIO LIMA/GETTY IMAGES

Nas paredes de São Paulo há uma raiva que se escreve a negro e desafia o perigo. Quem a pratica também procura o reconhecimento: ser um fora da lei famoso é uma forma de perder a invisibilidade social. O assunto é polémico

Os carateres pretos, muito retos, com terminações aguçadas, puros - no sentido em que não cedem a qualquer estilização ou sombreado - formam, alinhados, uma espécie de declarações de guerra, usados tanto como protesto político e social como para a afirmação pessoal de quem os pinta. São uma marca. E porque não é possível confundi-la com os graffiti, outra manifestação urbana que se expressa igualmente em muros e paredes mas que já conquistou o direto a ser considerada arte, estas letras a negro têm também nome próprio: pichação.

No Brasil, de onde é originário, e particularmente em São Paulo, o termo tornou-se sinónimo de marginalidade, rebeldia, desafio e crime. As autoridades perseguem os pichadores, a maior parte dos moradores insurge-se contra o que considera o lixo visual que produzem, ficando para os responsáveis municipais os custos de tentar constantemente lavar a cara dos edifícios vandalizados e a tarefa de endurecer as leis para travar as incursões destes “escritores” indesejados.

Sem sucesso, diga-se. As novas pinturas surgem a uma velocidade superior à das operações que tentam removê-las e a condição de ilegalidade parece ser o motor que mantém em andamento a pichação, o motivo principal para que não desapareça. “Se não há transgressão, não é pichação”, disse à CNN Cripta Djan, um pichador muito conhecido, no âmbito de uma reportagem que a cadeia televisiva fez sobre o tema.

Inspiração no “heavy metal”

Como forma de expressão, o fenómeno tem raízes históricas. Surgiu nos anos de 1980, altura em que o Brasil fazia a transição para a democracia. Não que o uso das paredes para inscrever protestos fosse algo inteiramente novo. Os candidatos políticos fizeram-no, popularizando os seus slogans nas ruas, cinco décadas antes. E no final de década de 1960, os muros foram também o suporte para as críticas dos estudantes à ditadura militar. A forma - literalmente - é que passou a ser outra.

Inspirados noutro movimento muito popular em São Paulo nesses anos 80, os primeiros pichadores importaram das capas dos álbuns das bandas de “heavy metal” os carateres de aspeto rúnico e a imagem agressiva, que lhes pareceu apropriada para a expressão da sua raiva. Na verdade, um sentimento já herdado, justificado pela continuada injustiça social, tornada habitual numa cidade que insiste em dividir ricos e pobres, mas agravada pela reorganização urbanística a que obrigou o desejo de modernização, com a construção de arranha-céus e outros projetos ambiciosos que empurraram a classe trabalhadora para favelas ou bairros da periferia sem condições.

A pichação tem esse lado, de revolta e afirmação política, de denúncia, de vontade de lutar contra a pobreza e a corrupção da classe política, o desejo de deixar impressa (ou expressa) a desigualdade que torna invisíveis os mais frágeis e desprotegidos. É por isso que os pichadores preferem deixar a sua assinatura nos prédios das zonas centrais da cidade, no seu património histórico, nas obras dos grandes arquitetos que simbolizam a divisão de estatuto social.

Mas os pichadores procuram também a fama. Querem impor o seu nome, o do grupo a que pertencem, torná-lo conhecido, rivalizando em notoriedade entre si, para que sejam falados. A pichação é também uma questão de ego, como concordam muitos dos especialistas que se debruçaram sobre o fenómeno, numa ânsia que se alimenta da adrenalina e do desafio.

Perigo de morte

A dimensão da obra mede-se pela categoria do local conquistado, pela altura a que se subiu em determinado edifício para o pintar, pelo risco associado. Um risco cuja fatura é, não raras vezes, fatal.

“De onde venho, a única forma de alguém ficar famoso é tornar-se um futebolista profissional ou um chefe do narcotráfico”, afirmou também Cripta Djan: “A outra maneira é através da pichação”. O que, por si, explica que aos olhos dos pichadores valha a pena arriscar a vida - pela glória.

Um artigo publicado pelo “The Guardian” descodifica o sistema de hierarquias associado ao fenómeno. A importância da assinatura mede-se pela altura real a que ela foi inscrita (ou pela importância do alvo), desde as mais básicas inscrições conhecidas como “rolê do chão” - a modalidade mais antiga e que não implica risco físico - até à mais valorizada, a “escalada”, por ser a mais perigosa. É a tentar concretizá-la que mais pichadores têm morrido, já que o objetivo é chegar ao topo dos prédios, muitas vezes subindo de noite através dos cabos que protegem as instalações elétricas, logicamente um suporte que não está preparado para aguentar o peso humano.

Pelo meio fica a “janela de prédio”, igualmente extrema, já que o autor vai subindo os andares também pelo exterior dos edifícios, pulando de janela em janela, agarrado apenas aos parapeitos, à medida que vai pintando os seus carateres. Neste caso é comum a tarefa ser realizada em duo, como comum é acabar mal.

Cinco mil no ativo

Ao contrário dos “graffiters”, que lutaram pelo seu reconhecimento artístico, os pichadores não querem ser considerados artistas. Criticam até esses seus parentes distantes, considerando que fazem um trabalho comercial, tal como já boicotaram apresentações de colegas do mesmo ofício por terem acedido a mostrar (e vender) as suas produções em galerias de arte. “Vendidos”, chamaram-lhes numa dessas ocasiões, antes de cobrir com tinta negra todas as peças expostas com as letras características e os carateres que só à rua consideram pertencer.

Só em São Paulo estima-se que existam atualmente mais de cinco mil pichadores no ativo. Uma comunidade que não tem só inimigos e cuja subcultura conquistou adeptos dentro e fora do Brasil, inclusivamente com piscadelas de olho do mercado publicitário, através de marcas como a Puma, promotora de um polémico vídeo por este associar pichação à ideia de criatividade.